"o resto é mar. é tudo o que eu não sei contar..."

12 dezembro 2010

fotos na estante



Sem mais nem menos
Sem remédio, sem desculpa
Em horas tortas
Horas tímidas, ocultas
Pelas esquinas
De olhares indiscretos
O nosso amor
Amor claro de objeto
Sem dor ou crime
Amor simples e direto
Entre os pássaros de barro descansando na estante
Pelas costas amarelas dessas fotos insinceras
Descobri lindas mentiras tão terríveis quanto belas
Digo o que fazer então, são memórias tão reais
Do que nunca aconteceu

Desenhei miragens tolas
Nas margens do seu deserto
E uma verdade impossível
Só pra ter você por perto.

Skank

Nel mezzo del camin...



Cheguei. Chegaste. Vinhas fatigada
E triste, e triste e fatigado eu vinha.
Tinhas a alma de sonhos povoada,
E a alma de sonhos povoada eu tinha...

E paramos de súbito na estrada
Da vida: longos anos, presa à minha
A tua mão, a vista deslumbrada
Tive da luz que teu olhar continha.

Hoje, segues de novo... Na partida
Nem o pranto os teus olhos umedece,
Nem te comove a dor da despedida.

E eu, solitário, volto a face, e tremo,
Vendo o teu vulto que desaparece
Na extrema curva do caminho extremo.

Olavo Bilac

Este soneto deu origem ao poema irônico de Drummond: No meio do caminho... Os motivos modernistas para "zoar" com os parnasianos eram legítimos. Isso, de certo modo, é incontestável. Mas incontestável também é a beleza do soneto de Bilac: de fato, é um pequeno som, mas muito belo e profundo, principalmente por conta das reflexões sugeridas sobre chegadas e partidas, enlaces e desenlaces vividos por qualquer um de nós nesse "caminho extremo". Além das origens dantescas, é claro.

Escultura do italiano Antonio Canova, Eros e Psiquê (1793).

relação conturbada

11 dezembro 2010

venha ver o pôr do sol



"Ah, Raquel, olha um pouco para esta tarde! Deprimente por quê? Não sei onde foi que eu li, a beleza não está nem na luz da manhã nem na sombra da tarde, está no crepúsculo, nesse meio-tom, nessa ambiguidade. Estou lhe dando um crepúsculo numa bandeja e você se queixa."

trecho da fala do personagem Ricardo do conto Venha ver o pôr do sol de Lígia Fagundes Telles.

imagem: pôr do sol às margens do rio Marataoã, na cidade de Barras-PI.

assim caminha a humanidade - por Milo Manara



Milo Manara (1945)- desenhista italiano mais conhecido pela vertente erótica da sua obra.

Freud explica...

08 dezembro 2010

liberdade na vida é...

ter um amor pra se prender.

Fabrício Carpinejar

Diretamente da Pó dos Livros

Pesadelo de criança

Na minha infância acontecia-me não pregar olho durante várias noites, tinha a sensação de que o tempo se concentrava todo em mim, como se o presente se perpetuasse e permanecesse eterno. Ficava ali, deitado, pressagiando a desgraça que me esperava. Agora adulto, continuo a não pregar olho e durante várias noites repito as sensações da minha infância, apesar de saber que: «uma infelicidade pressagiada é dez, cem vezes mais dura de suportar do que uma infelicidade que não esperávamos». *

Jaime Bulhosa

* E. M. Cioran

http://livrariapodoslivros.blogspot.com/

05 dezembro 2010

você dormia



lembro uma noite:
você dormia, eu lia.
num quarto de hotel,
a cama apertada
comportava seus sonhos
e meus livros.

era bom ouvir
sua respiração calma.

eu te olhava,
você dormia.
eu te amava,
você dormia.
eu gritava,
você dormia.

eu suplicava amor,
você continuava a dormir
e sonhava que me fazia feliz,
enquanto eu tecia
minha manhã
pobre de andorinhas.

03 dezembro 2010




"E veio, veio à tarde, sem as palavras de Romeu, sem as ideias, ao menos de toda a gente, vulgar, casmurro, quase sem maneiras; veio, e Cecília, que almoçara e jantara com Romeu, lera a peça ainda uma vez durante o dia, para saborear a música da véspera. Cecília apertou-lhe a mão comovida, tão-somente porque o amava. Isto quer dizer que todo amado vale um Romeu. Casaram-se meses depois; têm agora dous filhos, parece que muito bonitos e inteligentes. Saem a ela."

Último parágrafo do conto Curta História, de Machado de Assis. Mais um que compreende "o que querem as mulheres". Ou seja, nem tudo está perdido... (ops! Machado já morreu!!!! Acho que tudo está perdido sim...)

Vale a pena conferir o texto na íntegra.

02 dezembro 2010

A dor é inevitável. O sofrimento é opcional



"A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência egoísta que nada arrisca e que, esquivando-nos do sofrimento, perdemos também a felicidade.

A dor é inevitável. O sofrimento é opcional."

Carlos Drummond de Andrade