"o resto é mar. é tudo o que eu não sei contar..."

12 janeiro 2011

Travessia



preciso realizar uma travessia em minha vida...
ainda espero o passeio de metrô.
ainda vejo nossas mãos dadas
percorrendo o túnel.
ainda penso na viagem que faríamos.
e sinto falta do teu cheiro.

(quando nos encontrávamos, depois de um dia de trabalho,
quase não nos beijávamos,
mas teu cheiro ficava em mim.
percorria meus braços, meu pescoço, meu colo
e eu voltava pra casa com um pouco de ti.)

ainda ouço tua voz ao telefone
me falando Kafka, Nietzsche, Cioran,
Camus, Foucault... e tua melodia olê, olá
- um samba no meio do gelo.

ainda vejo, em meio as névoas do tempo,
teu olhar tranquilo, calmo, sereno,
indiferente, entediado.
sinto falta dos teus bocejos,
da tua inquietude,
sinto falta de fazer parte
do quadro cotidiano que nós pintamos.

sinto falta do embalo da tua respiração,
da quentura das tuas mãos nas minhas,
das tuas pernas bem feitas,
do teu peito desenhado e moldado ao meu.
e de saber que no fim do dia, apesar do dia,
alguém me esperava. e esse alguém era você.

11 janeiro 2011

sobre lagartas e borboletas



ao olhar assustada uma lagarta, daquelas bem longas, peludas, você nunca imagina que, um dia, ela abrirá as asas. e num impulso de medo, pega o sapatinho de veludo e mata aquela que um dia voaria, espalhando cores.

07 janeiro 2011

Perdoando Deus



"(...) Mas quem sabe, foi porque o mundo também é rato, e eu tinha pensado que já estava pronta para o rato também. Porque eu me imaginava mais forte. Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões, eu amava. Não sabia que, somando as incompreensões é que se ama verdadeiramente. Porque eu, só por ter tido carinho, pensei que amar é fácil. É porque eu não quis o amor solene, sem compreender que a solenidade ritualiza a incompreensão e a transforma em oferenda. E é também porque sempre fui de brigar muito, meu modo é brigando. É porque sempre tento chegar pelo meu modo. É porque ainda não sei ceder. É porque no fundo eu quero amar o que eu amaria - e não o que é. É porque ainda não sou eu mesma, e então o castigo é amar um mundo que não é ele. É também porque eu me ofendo à toa. É porque talvez eu precise que me digam com brutalidade, pois sou muito teimosa. É porque sou muito possessiva e então me foi perguntado com alguma ironia se eu também queria o rato pra mim. É porque só poderei ser mãe das coisas quando puder pegar um rato com a mão. Sei que nunca poderei pegar num rato sem morrer de minha pior morte. (...)"

Trecho do conto de Clarice Lispector, Perdoando Deus, do livro Felicidade Clandestina (1971).

05 janeiro 2011

eu, acostumado a ter nada, não exigia nem o amor que ela derramava no meu telhado, no meu quintal, no meu jardim. lembrava com remorso as últimas palavras ditas no sufoco do choro que embargava a voz. lembrava o rosto dela se perdendo no horizonte, sua silhueta se diluindo na distância. e nada mais.
não esperei, não procurei. não pertencia a mim direcionar os atos dela. nunca pertenceu. ela sempre soube muito bem aonde ir e vir, se quisesse. e eu sabia, sempre soube, refazer-me do nada. continuei andando a passos curtos, lentos, distraídos. nem a lembrança dela me fazia parar de construir meu caminho, mesmo incerto. nem as pragas rogadas com tanta força e raiva naquela tarde quente e vazia.
mas um dia ela resolveu pedir algo que eu nem sabia mais se tinha: aquele amor. aquele amor que um dia houve, ela resolveu voltar e pedi-lo novamente. e como forma de se redimir, me ofereceu favores os mais diversos: seria minha jardineira, se eu quisesse: plantaria novamente os cactos ao lado das roseiras; trocaria todos os dias o papel de parede do computador, inventando novas belas fotografias, me daria sorrisos e beijos aos quatro ventos, no seu abraço me mostraria a paz que um dia houve tão plena, me daria o conforto do silêncio quando a dúvida insistisse em gritar aos nossos ouvidos e se deixaria guiar por minha cegueira.
ainda não sei se cedo aos seus apelos ou promessas, ou se persisto no meu caminho. ainda não sei se poderemos ter presente. acho os verbos no passado tão mais adequados a essa história... a condição é bem mais charmosa do que a prática inútil de reviver a mais bela história já vivida. eu não sei... mas admito que os cactos são bem mais espinhosos ao lado da suavidade das flores. não seria isso a boa convivência?

04 janeiro 2011

Poema



Acho que já postei essa música há algum tempo... Mas um bom texto não cansa os olhos, nem o entendimento.

Eu hoje tive um pesadelo
E levantei atento, a tempo
Eu acordei com medo
E procurei no escuro
Alguém com o seu carinho
E lembrei de um tempo

Porque o passado me traz uma lembrança
Do tempo que eu era ainda criança
E o medo era motivo de choro
Desculpa pra um abraço ou consolo

Hoje eu acordei com medo
Mas não chorei, nem reclamei abrigo
Do escuro, eu via o infinito
Sem presente, passado ou futuro
Senti um abraço forte, já não era medo
Era uma coisa sua que ficou em mim
E que não tem fim

De repente, a gente vê que perdeu
Ou está perdendo alguma coisa
Morna e ingênua que vai ficando no caminho
Que é escuro e frio, mas também bonito porque é iluminado
Pela beleza do que aconteceu há minutos atrás

Belíssimo poema de Cazuza na voz de Ney Matogrosso.

insônia




a noite embala minhas pálpebras.
não fosse a chuva já teria adormecido,
mas os pingos me distraem.
meus olhos, meninos,
embalam a noite e subvertem seu torpor.

a insônia nunca foi minha amiga,
mas hoje se personificou em tua lembrança
e se põe aqui, em minha cabeceira,
como forma de não mais fechar meus olhos
e me relegar ao cansaço da luta contra as horas,
que escorrem lentamente por entre as poucas
estrelas que vejo através da janela semi cerrada.

serão estrelas ou simples gotas iluminadas
pela pálida luz do poste?

pergunto-me se essa cumplicidade da noite com meu sono
durará até os primeiros raios do sol
e percebo que durará o tempo que tua lembrança
permanecer em mim.

03 janeiro 2011

contos de fadas II


contos de fadas


"Os contos de fadas são assim.
Uma manhã, a gente acorda
E diz: 'Era só um conto de fadas...'
E a gente sorri de si mesma.
Mas, no fundo, não estamos sorrindo.
Sabemos muito bem que os contos de fadas
são a única verdade da vida."

Antoine de Saint-Exupéry

01 janeiro 2011

vermelho vida



esse sangue escorrendo de tuas intensões,
teus olhos de lágrimas ou fumaça,
o coração que tu desenhas,
o sangue que brota do canto da unha quebrada,
um céu repleto de desejos.
aquilo que se esvai com o tempo,
o desconhecido,
o intangível,
que nasce.

improvavelmente.