"o resto é mar. é tudo o que eu não sei contar..."

14 fevereiro 2011

A propósito do dia dos namorados, algo sobre o fim das relações amorosas

"(...)se é verdade que não podemos ser responsáveis pela felicidade dos outros, então também não é menos verdade que, mesmo involuntariamente, podemos ser responsáveis pela infelicidade dos outros. Quero eu dizer com isto que a nossa felicidade ou infelicidade depende essencialmente de nós e dos outros, a não ser que queiramos ser uns eremitas, anacoretas, solitários solteirões. Mas não vale a pena desesperar, porque podemos sempre voltar a ser felizes, é claro, com a mesma ou com outra pessoa qualquer."

Jaime Bulhosa

Diretamente da Pó dos Livros: http://livrariapodoslivros.blogspot.com/2011/02/proposito-do-dia-dos-namorados-algo.html

11 fevereiro 2011

eu sei, mas não devia...



Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.
A gente se acostuma a morar em apartamento de fundos
e a não ter outra vista que não seja as janelas ao redor.

E porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora.
E porque não olha para fora logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas.
E porque não abre as cortinas logo se acostuma acender mais cedo a luz.
E a medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora.
A tomar café correndo porque está atrasado.
A ler jornal no ônibus porque não pode perder tempo da viagem.
A comer sanduíche porque não dá pra almoçar.
A sair do trabalho porque já é noite.
A cochilar no ônibus porque está cansado.
A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra.
E aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja número para os mortos.
E aceitando os números aceita não acreditar nas negociações de paz,
aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir.
A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta.
A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.
A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita.
A lutar para ganhar o dinheiro com que pagar.

E a ganhar menos do que precisa.
E a fazer filas para pagar.
E a pagar mais do que as coisas valem.
E a saber que cada vez pagará mais.
E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas que se cobra.

A gente se acostuma a andar na rua e a ver cartazes.
A abrir as revistas e a ver anúncios.
A ligar a televisão e a ver comerciais.
A ir ao cinema e engolir publicidade.
A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.
A gente se acostuma à poluição.

As salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro.
A luz artificial de ligeiro tremor.
Ao choque que os olhos levam na luz natural.
Às bactérias da água potável.
A contaminação da água do mar.
A lenta morte dos rios.

Se acostuma a não ouvir o passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães,
a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.
A gente se acostuma a coisas demais para não sofrer.

Em doses pequenas, tentando não perceber, vai se afastando uma dor aqui,
um ressentimento ali, uma revolta acolá.
Se o cinema está cheio a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço.
Se a praia está contaminada a gente só molha os pés e sua no resto do corpo.

Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana.
E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo
e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.

A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele.
Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se
da faca e da baioneta, para poupar o peito.
A gente se acostuma para poupar a vida que aos poucos se gasta e, que gasta,
de tanto acostumar, se perde de si mesma.

Marina Colasanti

fonte: http://www.astormentas.com/colasanti.htm

10 fevereiro 2011

Andrea Doria

Essa música da Legião Urbana, presente no Dois (1986), me faz sentir acompanhada na solidão.



Este da pintura é Andrea Doria, almirante genovês que viveu em pleno Renascimento (1466-1560). Personificando Netuno, deus romano dos mares, a tela é uma homenagem do pintor florentino Agnolo Bronzino (1503-1572), forma de exaltar os dotes marítimos de Doria.

Mas a letra da canção de Renato não comenta grandes feitos do nosso historicamente notável Doria. A letra conta decepções, frustrações e um desejo de não mudar, apesar das dores. Retomando a metáfora náutica tão típica no século XVII, somos apenas frágeis baixeis humanos, expostos ao sabor dos ventos e à bravura dos mares.

Às vezes parecia
Que de tanto acreditar
Em tudo que achávamos
Tão certo...

Teríamos o mundo inteiro
E até um pouco mais
Faríamos floresta do deserto
E diamantes de pedaços
De vidro...

Mas percebo agora
Que o teu sorriso
Vem diferente
Quase parecendo te ferir...

Não queria te ver assim
Quero a tua força
Como era antes
O que tens é só teu
E de nada vale fugir
E não sentir mais nada...

Às vezes parecia
Que era só improvisar
E o mundo então seria
Um livro aberto...

Até chegar o dia
Em que tentamos ter demais
Vendendo fácil
O que não tinha preço...

Eu sei é tudo sem sentido
Quero ter alguém
Com quem conversar
Alguém que depois
Não use o que eu disse
Contra mim...

Nada mais vai me ferir
É que eu já me acostumei
Com a estrada errada
Que eu segui
E com a minha própria lei...

Tenho o que ficou
E tenho sorte até demais
Como sei que tens também...

Trecho de entrevista com Renato Russo e o relato de composição da letra:

"(...) a música é um diálogo entre uma menina que era cheia de vida, alegria e planos e que sempre me deu força e que nesse instante é quem está derrubada. Aí então sou eu falando para ela. Tem coisas que fala para mim e tem coisas que falo para ela: "Às vezes parecia que de tanto acreditar em tudo que achávamos tão certo/ Teríamos o mundo inteiro e até um pouco mais". É aquela coisa dos planos, o mundo está horrível mas nós vamos conseguir, vamos juntos etc. Aí no meio do caminho: "Mas percebo agora que o seu sorriso vem diferente/ Quase parecendo te ferir". Quando você entra no mundo adulto se não tomar cuidado deixa entrar o cinismo, fica "jaded".

E a música é uma conversa em cima disso: "Olha, realmente a coisa é difícil, mas não é por aí". Termina justamente falando: "A gente tem toda a sorte do mundo", sem especificar, que bem ou mal a gente não é favelado, não morre de fome. "Sei que tenho sorte, como sei que tens também". Uma das grandes temáticas das letras é exatamente essa, só que são sempre pequenas situações, colocadas de um certo jeito que a pessoa interpreta de outra maneira. Sempre tem uma historinha, uma mitologia."

fonte: http://ainagaki.sites.uol.com.br/textos/rrusso.htm

09 fevereiro 2011

sobre lembranças



uma lembrança pousa na lapela ou na aba do chapéu. ela pesa. então você passa a mão rudemente, como forma de se livrar do peso, do incômodo que gera a lembrança. mas ela não sai, não cai. e isso te faz pensar em parar e sacudir a lapela, tirar o chapéu. mas, no fundo, tu sabes que nada fará esse peso sair de tuas mãos, de tua cabeça e de teu coração. o que resta a ti é caminhar com os pés acorrentados, as mãos ocupadas pelo vácuo. o que resta é continuar a caminhar imaginando ser a lembrança uma rosa agarrada ao teu chapéu ou à tua lapela. e, como toda rosa, essa que aí vai indolente, surda ao teu desespero, será lançada ao chão, naturalmente, cumprindo um ciclo banal, trivial.
talvez a rosa morra no teu chapéu, talvez faça de tua lapela o túmulo onde repousará. restará a ti, no início, o pranto que visita os olhos numa noite profunda. depois, soluços abafados, lágrimas secas, será apenas um lugar vazio, sem mancha de lembrança ou rosa. sem espinhos. sem perfume. teu chapéu voltará a ser um chapéu. tua lapela voltará a ser uma lapela. e teu peito, apenas teu peito.

uma lágrima não pode ser apenas uma lágrima



às vezes, chorar é a melhor solução:
lubrifica os olhos,
limpa a pele à base de água e sal,
diminui as toneladas que a alma carrega.

uma lágrima não pode ser apenas uma lágrima.
ela é o sumo da fruta espremida,
ela é a gota de sangue de uma ferida.
a lágrima é o que nos torna um pouco
menos rudes, um pouco mais humanos.

04 fevereiro 2011



de onde vem tua força?
seria tua fé as colunas
desse monumento?

de onde vem tua força?
ou ela não vem,
acontece em teu peito, simplesmente?

de onde vem tua força
gritada pelos teus olhos
docemente castanhos?

se tamanha fortaleza
ser doada pudesse às almas
fracas, feitas de lágrimas,

eu seria a primeira
a tecer petições a meu favor,
como forma de me salvar de mim.

mas não há como doar essência,
alma, espírito, coração...
um abraço me basta.

um abraço me basta
para encostar meu peito ao teu
e sentir tua fortaleza pulsando
...
pulsando
...
pulsando
...

01 fevereiro 2011

mensageiro dos ventos


meu mensageiro dos ventos
anuncia a tempestade se formando lá fora.
vento e muita água
afogarão os duendes do meu jardim,
arrancarão, pela raiz,
as plantas recém-nascidas
e levarão o adubo diluido
que escoará ao longo das ruas.

eu poderia suspender a caneta
e os pensamentos
e ir socorrer meu pobre jardim escurecido.
mas eu sei que do improvável
é que surgem as mais doces verdades
com sabor de trigo fresco nas manhãs,
luz matinal sobre a mesa
e brisa leve ondulando a toalha branca de renda
tingida pelo arco íris filho da tempestade
anunciada pelo meu mensageiro dos ventos.


ontem, sob o negro silêncio da noite, cresceram plantas na parede do meu quarto. o lodo firmou-se em camada por toda parte. posso ver agora as raízes alongando-se e firmando-se por entre os vincos. vou seguindo com os olhos o verde pisado crescer pelo chão e formar marcas digitais. da sombra surgem o frio e a vontade de chorar pelo passado ensolarado.
essas plantas que crescem na escuridão do meu quarto procuram desastrosamente o meu pequeno sol apagado. essas plantas suicidas crescem para dentro e não buscam o grande sol verdadeiro. sou vida e morte desses seres repletos de esperança no nada.


sufoquei um pássaro em minhas mãos.
a brisa de suas asas
marcou sulcos no coração.


para não morrer de ódio:
vaze do dedo indicador
gotículas de sangue
por dia.

para não morrer de dor:
vaze os olhos.