"o resto é mar. é tudo o que eu não sei contar..."
18 março 2011
17 março 2011
Círculo vicioso

Bailando no ar, gemia inquieto vaga-lume:
-"Quem me dera que fosse aquela loura estrela,
que arde no eterno azul, como uma eterna vela!"
Mas a estrela, fitando a lua, com ciúme:
-"Pudesse eu copiar o transparente lume,
que, da grega coluna à gótica janela,
contemplou, suspirosa, a fronte amada e bela!"
Mas a lua, fitando o sol, com azedume:
-"Mísera! tivesse eu aquela enorme, aquela
claridade imortal, que toda a luz resume!"
Mas o sol, inclinando a rútila capela:
-"Pesa-me esta brilhante auréola de nume...
Enfara-me esta azul e desmedida umbela...
Por que não nasci eu um simples vaga-lume?"
Machado de Assis
o que me dá mais prazer

lokaz-tirinhas
retirado de: http://www.jacarebanguela.com.br/
essa é minha tirinha! rsrsrsr e minha trilha sonora "ilegal, imoral ou engorda"!!!
16 março 2011
sobre a dor
o cigarro não suprime minha dor;
a cachaça não suprime minha dor;
todos os pós e pedras não suprimem minha dor;
a erva mais fina e daninha não suprime minha dor;
as drogas artificiais forjadas pela medicina
andam longe de suprimir minha dor;
a fé não suprime minha dor...
...mas, quem disse que quero suprimir minha dor?
a cachaça não suprime minha dor;
todos os pós e pedras não suprimem minha dor;
a erva mais fina e daninha não suprime minha dor;
as drogas artificiais forjadas pela medicina
andam longe de suprimir minha dor;
a fé não suprime minha dor...
...mas, quem disse que quero suprimir minha dor?
quando bebo da água renovada que brota de teus olhos
não sinto o sal entranhado em sua substância,
sinto apenas a quentura que nasce do teu corpo
e nela construo minha casa, meu lar.
tiro meus sapatos e deito em tua cama,
confortado pelo calor que do teu corpo surge.
algo de imenso cresce em meu peito e sinto
cada vez mais perto de mim teu amplo amor
por coisas sem explicação e pessoas loucas.
tua sina: amar o perdido. o esquecido.
parece ser mais vivo sofrer, parece ser mais quente
se deixar estar e se deixar levar, assim tão imprudentemente.
te dou a chave do meu mundo para que faças tua casa
em mim, no meu peito ainda fraco de menino.
te dou meus mais longos olhares, minha mão mais suave,
pela quentura de uma lágrima tua caindo em minha face.
não sinto o sal entranhado em sua substância,
sinto apenas a quentura que nasce do teu corpo
e nela construo minha casa, meu lar.
tiro meus sapatos e deito em tua cama,
confortado pelo calor que do teu corpo surge.
algo de imenso cresce em meu peito e sinto
cada vez mais perto de mim teu amplo amor
por coisas sem explicação e pessoas loucas.
tua sina: amar o perdido. o esquecido.
parece ser mais vivo sofrer, parece ser mais quente
se deixar estar e se deixar levar, assim tão imprudentemente.
te dou a chave do meu mundo para que faças tua casa
em mim, no meu peito ainda fraco de menino.
te dou meus mais longos olhares, minha mão mais suave,
pela quentura de uma lágrima tua caindo em minha face.
10 março 2011
o artesão de sonhos
ele me olhava ávido pelo presente e eu só sabia entregar um olhar distante. suas mãos seguravam as minhas com força, como se me resguardasse de um tufão e seus braços me envolviam com tanto calor que frio jamais passou entre nós. ele me resguardava do gelo e eu me protegia de nós. suas mãos fabricavam um cotidiano colorido, arranjado às pressas para nos contentar e fazer brotar risos de nossas bocas e esperanças em meu peito árido.
toda reconstrução demanda esforço, tempo e paciência e ele, insistente, trabalhava dia e noite na reedificação dos meus sonhos, dos meus desejos e anseios. ele não se cansava e não existia barreira ou tempo ruim que o fizesse parar, recuar. ele seguia me guiando pelos destroços, carregando o que podia ser aproveitado, o que era importante. ele nunca se ocupou de inutilidades, exceto daquela que ele carregava pela mão. mas ele amava e o amor protege o corpo contra qualquer dor e, apesar do peito desprotegido, ele não se feria por que ele sabia o que queria.
e assim nós seguíamos pela seara queimada dos meus amores: ele regando toda a plantação estorricada, lançando sementes ao chão, cultivando o pequeno solo infértil com o cuidado de um artesão que sabe que molda o barro para a última peça e, exausto, adormece ao fim do dia para recomeçar outro dia, e outra lida.
ele não deixava de me olhar, não soltava minha mão, não desistia de me guiar e continuava a encarar o fogo, a aridez, os destroços e minha descrença com as únicas armas das quais dispunha: esperança, esforço e paciência.
toda reconstrução demanda esforço, tempo e paciência e ele, insistente, trabalhava dia e noite na reedificação dos meus sonhos, dos meus desejos e anseios. ele não se cansava e não existia barreira ou tempo ruim que o fizesse parar, recuar. ele seguia me guiando pelos destroços, carregando o que podia ser aproveitado, o que era importante. ele nunca se ocupou de inutilidades, exceto daquela que ele carregava pela mão. mas ele amava e o amor protege o corpo contra qualquer dor e, apesar do peito desprotegido, ele não se feria por que ele sabia o que queria.
e assim nós seguíamos pela seara queimada dos meus amores: ele regando toda a plantação estorricada, lançando sementes ao chão, cultivando o pequeno solo infértil com o cuidado de um artesão que sabe que molda o barro para a última peça e, exausto, adormece ao fim do dia para recomeçar outro dia, e outra lida.
ele não deixava de me olhar, não soltava minha mão, não desistia de me guiar e continuava a encarar o fogo, a aridez, os destroços e minha descrença com as únicas armas das quais dispunha: esperança, esforço e paciência.
apesar de lágrimas e lamentos
eu poderia falar mais uma vez de mim. poderia tecer elegias sobre o seu adeus. poderia mesmo lembrar com ternura nossos doces momentos e derramar sobre eles meu pranto de saudade. poderia deixar meu tempo escorrer pelas mãos ao chorar por aquele dia cinza, obscuro. poderia lamentar minha falta de tato e me pintar culpada, carrasca. poderia, inclusive, manchar minhas mãos com o sangue do teu peito inerte aos meus apelos, frio em frente ao meu calor.
eu poderia fazer isso e um pouco mais. mas minhas mãos estão cansadas de sustentar um peso imenso e que nem me é de responsabilidade. eu poderia, como mártir do sentimentos desperdiçados, hastear a bandeira do amor em vão e me orgulhar de morrer em combate. eu poderia ser e fazer tudo isso. mas isso tudo não me faria melhor do que ninguém, nem traria conforto às minhas mãos cansadas, nem você de volta. e a volta, se é que existe plenamente, não seria a solução para meus pormenores, minhas singularidades, minhas carências, meus afetos. e tudo isso que eu poderia ter feito não significaria nada e tantas palavras seriam uma simples página em branco que o tempo trata de empalidecer e corroer, apesar de lágrimas e lamentos.
eu poderia fazer isso e um pouco mais. mas minhas mãos estão cansadas de sustentar um peso imenso e que nem me é de responsabilidade. eu poderia, como mártir do sentimentos desperdiçados, hastear a bandeira do amor em vão e me orgulhar de morrer em combate. eu poderia ser e fazer tudo isso. mas isso tudo não me faria melhor do que ninguém, nem traria conforto às minhas mãos cansadas, nem você de volta. e a volta, se é que existe plenamente, não seria a solução para meus pormenores, minhas singularidades, minhas carências, meus afetos. e tudo isso que eu poderia ter feito não significaria nada e tantas palavras seriam uma simples página em branco que o tempo trata de empalidecer e corroer, apesar de lágrimas e lamentos.
04 março 2011
01 março 2011
a vida é sonho
"Eu sonho que estou aqui
de correntes carregado
e sonhei que noutro estado
mais lisongeiro me vi.
Que é a vida? Um frenesi.
Que é a vida? Uma ilusão,
uma sombra, uma ficção;
o maior bem é tristonho,
porque toda a vida é sonho,
e os sonhos, sonhos são."
Trecho da fala final do príncipe Segismundo, personagem principal da peça A vida é sonho, de Calderón de la Barca(1600-1681).
de correntes carregado
e sonhei que noutro estado
mais lisongeiro me vi.
Que é a vida? Um frenesi.
Que é a vida? Uma ilusão,
uma sombra, uma ficção;
o maior bem é tristonho,
porque toda a vida é sonho,
e os sonhos, sonhos são."
Trecho da fala final do príncipe Segismundo, personagem principal da peça A vida é sonho, de Calderón de la Barca(1600-1681).
quem diz que carrega uma dor
não sabe o que é sofrer.
dor não se carrega a lugar algum.
ela nos leva no seu colo de mãe,
acalenta na noite fria,
ouve os lamentos,
vela a angústia.
dor, sendo dor, não abandona seu filho.
consola no relento,
acompanha no porre,
deixa marcas nas mãos.
dor, a dor, de torcer entranhas
não se deixa tocar.
toda ela povoa o ser
e o carrega por onde for.
não sabe o que é sofrer.
dor não se carrega a lugar algum.
ela nos leva no seu colo de mãe,
acalenta na noite fria,
ouve os lamentos,
vela a angústia.
dor, sendo dor, não abandona seu filho.
consola no relento,
acompanha no porre,
deixa marcas nas mãos.
dor, a dor, de torcer entranhas
não se deixa tocar.
toda ela povoa o ser
e o carrega por onde for.
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