"o resto é mar. é tudo o que eu não sei contar..."

22 abril 2010

no escuro, o que nos resta é dar-nos as mãos...

nessa noite sem lua, sem estrelas,sonhei com você, luz rompendo a escuridão. exceto pelas dúvidas carregadas em ambas as mãos, sua expressão era de quem sabia sim pra onde ia e não precisava de ajuda.

nada te guiava, nem teus sentimentos. somente a teus pés bastava saber o caminho. foi então que mais uma vez me aproximei e, desenhando flores nas paredes, olhei receosa, de esgueira, e contemplei fascinada teu rosto aproximando-se, na escuridão daquela rua abandonada.

o fascínio não me paralisava, mas a beleza que você me ofertava. o fascínio me enchia da vontade pueril de roer as unhas, de levar à boca a mais íntima e fiel das companhias.

te esperei, criança aprendendo a não ter brinquedos. te esperei. e sabia que seria assim: nenhuma resposta, nenhuma palavra que me desse certezas, nenhum gesto expansivo, nada além. somente a certeza dos amanheceres: a luz que os habita nunca habitará em nós.

não precisamos de luz, de respostas, certezas, garantias... precisamos apenas do instinto, animais ainda virgens de civilização. precisamos apenas de pernas que converjam à necessidade do encontro, apenas isso.

pedir mais seria sublimar o que não pode ser sublimado. pedir mais seria não entender
e relegar à alma o que ela não sabe. e nunca saberá.

no sonho, apagamos as luzes e seguimos no escuro, de mãos dadas.

19 abril 2010

a menina olhava o cristal encimado no anel da mãe e achava tão bonitas as cores que saiam dele e quis quebrá-lo, maneira de desvendar o lúcido mistério. não era maldade, não. desde criança ela quebrava os brinquedos, abria as bonecas, desmontava canetas para ver por dentro, mais, fundo... para ver (ou tentar ver) a mente de quem fez ali dentro da coisa.
ela não tinha maldade nas mãos. suas ações eram de uma doçura tão cheia de algodão doce, tão perfumada de sentimentos puros... ela não quebraria o cristal se soubesse que ele não seria o mesmo. e essa mudança não se daria apenas por que não seria mais a pedra do anel da mãe, estilhaços de uma vontade insana... essa mudança nem era no cristal: ela descobriria nela a repetição das coisas já sabidas, reveladas, violadas bestamente por quem não sabe o que fazer quando o desconhecido se revela.

17 abril 2010

nada além

olho o sol quebrando a barra da noite

e penso.

um pensar doido, assim sem saber direito o quê;
pra quê;
por quem...

mas amanheço.
e na manhã prenhe de perfume de flor
crio cores
e gestos
e recomeço o plantio dos seres improváveis.

sobre a verdade

não é meu nem seu
esse sol, esse céu, esse mundo.
a felicidade, o amor,
a avenida, as pontes,
os caminhos e descaminhos.

não são meus
os desejos imaculados,
os pensamentos puros,
o olhar ingênuo,
as mãos virgens...
nada disso é meu.

são seus esses pensamentos
de fraqueza e bondade extremas.
são suas essas ideias de amor
ao nada, ao vento, ao léu.
essas inspirações matutinas
filhas da madrugada insone.
nada disso é meu.

de meu mesmo só minha vida
e o pouco que sei dela.
e o muito que invento
e chamo de literatura.

cruz e espada

os cruzados sabiam o que fazer:
a cruz, eles carregavam no pensamento; a espada em punho. a cruz também ornava seus escudos, elmos e bandeiras. a espada construía a fama, erguia o mito, sustentava ideais, guiava a nação e impunha respeito, segurança.

mas a cruz, tão viva em seus pensamentos, no sangue que corria e no sangue derramado, era produto e origem da espada. estranhamente, defendia o amor e a paz aos homens de todo coração, a cruz tão espada.

a espada selava a cruz e a cruz sustentava a espada.

a cruz sangrava e a espada ungia os ares.

a espada doava perdão e a cruz queimava.

...

mas isso foi na idade média.

hoje, a cruz é cruz, a espada é espada, e entre uma e outra há pequenas grandes batalhas tão importantes quanto um rato e seu ressecado queijo na ratoeira.

14 abril 2010

o que acontece quando ninguém está aqui? quando o silêncio preenche o ar que propagaria palavras, respirações. o que é feito de nós quando não somos nós? quando batemos a porta e passamos a habitar outro aqui e por mais que digamos que sentimos o presente, não é o presente que se faz, mas a saudade do outro ali que habitamos.
e nos voltamos ao passado, ou ao que restou dele, para sabermos que não há futuro. só o eterno lembrar e relembrar e aumentar as coisas que nunca foram para compensar nossa falta de apego àquilo tão nosso e tão desprezado como as coisas só nossas são.

10 abril 2010

10a manhã de abril: abriu pra mim

a madrugada me acordou prenhe de desejos. o ventre submerso em sangue me falava de vida. decidi acordar, levantar, caminhar e despejar poesia nas calçadas por aí.
***
acordei de um jeito diferente. um jeito forte de existir. sem maiores pretenções: decidi deixar as flores nos seus galhos e os pássaros ao sabor do vento.
***
nada mais natural: voltar à natureza. vejo, sinto, penso coisas que vão e vêm, são e têm algo mais pra mim sem precisarem se apartar do seu mundo.
***
é possível viver sem sangrar. sangra-se um dedo e evita-se que sangrem a alma. mas vida também é sangue: derramado, coagulado, retido... ou não.
***
sou: nada mais que isso, agora, assim.
*
*
*

abril abriu pra mim o perfume azulado das doces descobertas: bom dia!

06 abril 2010

para aquele que tem fogo no nome

não. teu nome não gera paz.
teu nome tranca entre poucas letras
a sede e o fogo amalgamados.

teu nome segura firme
o verbo forte, conjugado,
em primeira pessoa,
indicando
o presente.

chamo teu nome
e me sinto abrasar.
grito teu nome
e já não me sinto.

desenho teu nome
na mente
e de olhos fechados
nem meu mundo
é meu.

só teu nome
que queima:
o barulho crepitante do fogo
me acorda desses sonhos.

me desfaço e penso
novamente no teu nome
que arde
bem mais em mim
do que em ti.

03 abril 2010

o cacto

para esquecer o esquecimento
do qual sou vítima
me refugio nos meus mortos.
o colorido do pijama
e da tinta que dispenso
contrastam com meu ser.
o cacto pequenino,
no canto da janela,
vive com pouca água.
não raro o encontro murcho.
e no dia em que meus cabelos
estão encharcados
deixo algumas gotas escorrerem
pelos espinhos.
as pedras são a única companhia
do meu cacto.
as pedras, em toda sua simplicidade,
nada falam ao cacto, mas a mim.
secretamente me revelam
sua natureza.
e como ter gente tão pedra nesse mundo?

01 abril 2010

grito

lanço meu grito ao vento
na terra onde o rei é surdo.
mas grito.
grito sempre e muito e
cada vez mais grito.