- Ela me disse isso.
- Não acredito. Logo ela?
- Tô dizendo... E ainda me disse mais...
- Não quero saber mais. Ela perdeu meu respeito.
- Mas você nunca a respeitou!
- Pois é, mas antes eu não tinha motivos.
"o resto é mar. é tudo o que eu não sei contar..."
13 junho 2011
31 maio 2011
deus
20 maio 2011
carta aos professores
para Amanda Gurgel
O mundo não cabe nas minhas mãos. Nem mesmo o país, ou meu estado cabem nas minhas mãos. Talvez, se eu me multiplicasse - miraculosamente - minha cidade coubesse em minhas mãos. Mas, sendo uma, o que me resta é minha casa e a profissão que escolhi pra mim. Vejo estudiosos a discutir métodos, técnicas, teorias que fogem às cores reais dessa tela cansada da educação. Vejo nossos dirigentes perdidos em sua tarefa de solucionar tais questões. E me vejo de mãos atadas, solta, largada, com a missão
de salvar o futuro, enquanto meu presente perece todo dia. Não foi essa missão que escolhi. Não basta apenas dom, vontade... Não basta amor pela profissão... Professor é gente com necessidades, anseios, desejos... e amor: aos livros, aos estudos, aos alunos. Mas não apenas isso. A gente quer viver, não apenas sobreviver. A gente quer sonhar e poder realizar e não apenas envelhecer sem ver outros sóis. A gente quer ter esperança de fazer acontecer e não apenas tê-la e fim. A gente quer viver e ser professor.
O mundo não cabe nas minhas mãos. Nem mesmo o país, ou meu estado cabem nas minhas mãos. Talvez, se eu me multiplicasse - miraculosamente - minha cidade coubesse em minhas mãos. Mas, sendo uma, o que me resta é minha casa e a profissão que escolhi pra mim. Vejo estudiosos a discutir métodos, técnicas, teorias que fogem às cores reais dessa tela cansada da educação. Vejo nossos dirigentes perdidos em sua tarefa de solucionar tais questões. E me vejo de mãos atadas, solta, largada, com a missão
de salvar o futuro, enquanto meu presente perece todo dia. Não foi essa missão que escolhi. Não basta apenas dom, vontade... Não basta amor pela profissão... Professor é gente com necessidades, anseios, desejos... e amor: aos livros, aos estudos, aos alunos. Mas não apenas isso. A gente quer viver, não apenas sobreviver. A gente quer sonhar e poder realizar e não apenas envelhecer sem ver outros sóis. A gente quer ter esperança de fazer acontecer e não apenas tê-la e fim. A gente quer viver e ser professor.
09 maio 2011
eu não sou da sua rua
02 maio 2011
recado

Olha, deixa eu te dizer:
nada há no mundo que me possa compreender.
exceto as rimas pobres que teimo em compor
para recompor meu prazer.
Olha, deixa eu te mostrar:
tolice querer imaginar
minhas faltas, minhas exigências
e querer me compensar os desejos negados.
Olha, o melhor pra ti
é ir viver nesse mundo novo,
cheirando a leite,
e me deixar aqui.
cheia de palavras velhas,
de velhas vontades,
de velhos sonhos.
cheia de mim. toda repleta em mim.
sem ânsia por rima ou melodia.
contente e satisfeita com minha pequenez,
com minha estreiteza, meu egoísmo.
não quero compreender.
e se o castigo for a incompreensão,
que venha o troco na mesma moeda.
chorar não vou, nem lamentar.
olha, isso aqui sou eu.
foste tu quem pediste pra mostrar.
01 maio 2011
1o de maio
trabalho
serviço
emprego
ocupação
...
no dia do trabalho, mais trabalho - não importa que nome tenha!
e não importa que se comemore,
que se manifestem os trabalhadores!
tudo sempre foi assim: formigas carregando o osso do descontentamento.
serviço
emprego
ocupação
...
no dia do trabalho, mais trabalho - não importa que nome tenha!
e não importa que se comemore,
que se manifestem os trabalhadores!
tudo sempre foi assim: formigas carregando o osso do descontentamento.
pequeno conto trágico

um rosto sisudo olha pela janela o cortejo de momo passar e pensa como seria o carnaval sem cores, sem festa nem fantasia. e aquela barulheira toda não existiria e sua rua não seria suja com confetes e serpentinas e plumas e paetês.
o rosto sisudo não sabia que vivia em permanente quarta-feira de cinzas.
29 abril 2011
fosso

"Que poder teria lançado esta luz nos olhos tristes e sonhadores desta mocinha? Quem fez subir o sangue às suas faces pálidas e murchas, quem fez com que o seu rosto suave mostre agora uma tal paixão? Por que o seu peito arfa? Quem foi que, assim tão de repente, trouxe força e vida e beleza ao rosto da pobre menina, cujo sorriso suave brilha agora e se transforma num riso ardente?" E olhamos à nossa volta, procuramos alguém e começamos a perguntar e a adivinhar... Mas esse momento é passageiro e talvez no dia seguinte voltemos a encontrar o mesmo lânguido olhar anterior, a ver de novo o pálido rosto e a mesma indolência e simplicidade de movimentos, e até talvez alguma coisa nova, uma espécie de desgosto, como sinal de arrependimento e de enfado por aquele breve instante de alegre animação... E então lastimamos que a beleza tenha desaparecido tão breve e irrevogavelmente, que tenha brilhado diante dos nossos olhos com uma luz tão falsa e enganadora... tristeza por não termos chegado sequer a tomar-lhe o gosto..."
Trecho da obra Noites Brancas(1848), de Fiódor Dostoiévski.
Imagem: La Nièce du peintre Assisse(1932), de André Durain.
18 abril 2011
O quase é tão cheio de tudo
Aquele que não foi amado é o que mais ama.
(...) Ai, como dói quem espera amar. Quem dedica uma vida à disciplina da paciência, torcendo para o sexo melhorar o casamento, torcendo para o casamento melhorar o sexo, torcendo para que o marido não fique bêbado ao menos uma vez, torcendo para que a esposa não reclame ao menos uma vez, dormindo e esquecendo a tristeza, acordando e repondo a esperança, aqueles que resistem e talvez envelheçam sem completar seus sonhos, que respeitam as pequenas alegrias porque podem ser as únicas, que não decidiram se diminuem a expectativa para sair da solidão ou aumentam as exigências para justificá-la.
Como eu amo quem se importa em amar, apesar de tudo. Apesar de tudo. (...)
Fabrício Carpinejar
(...) Ai, como dói quem espera amar. Quem dedica uma vida à disciplina da paciência, torcendo para o sexo melhorar o casamento, torcendo para o casamento melhorar o sexo, torcendo para que o marido não fique bêbado ao menos uma vez, torcendo para que a esposa não reclame ao menos uma vez, dormindo e esquecendo a tristeza, acordando e repondo a esperança, aqueles que resistem e talvez envelheçam sem completar seus sonhos, que respeitam as pequenas alegrias porque podem ser as únicas, que não decidiram se diminuem a expectativa para sair da solidão ou aumentam as exigências para justificá-la.
Como eu amo quem se importa em amar, apesar de tudo. Apesar de tudo. (...)
Fabrício Carpinejar
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