"o resto é mar. é tudo o que eu não sei contar..."

17 junho 2009

a torre e as ilhas

faço aqui menos que um desabafo. isso que faço agora é apenas um lamento. sem platéia e sem público, quero apenas tirar de dentro de mim a dor que não sufoca, mas mata lenta e dolorosamente e eu não quero morrer naturalmente, como as lagartas que se fecham em seus casulos e esperam o tempo certo para se transformarem. quero mesmo morrer como as borboletas suicidas que se deixam levar pelo vento e se perdem dos seus e se chocam contra tudo à sua frente.
lembro de você dizer da contradição de não haver diálogo num meio em que ele se fazia fundamental. você lamentava como alguém disposto a iniciar esse diálogo, como alguém que não se recusaria a estabelecê-lo, caso acontecesse. mas e agora? você na sua torre não nota as ilhas ao redor. fica cega à própria realidade. o que acontece quando o ideal se aproxima? você se nega a pegá-lo, a agarrá-lo e deixa as ilhas perdidas na iminência do desaparecimento. de vez em quando você desce da sua torre e observa os acontecimentos: só você sofre, só você chora, só você enxerga o melhor e o melhor é sempre pra você, a razão é sempre a sua e você sempre se fecha para a pluralidade de sentimentos, para a fonte de subjetividade que é o outro, que são os outros que não são (nem nunca serão) iguais a você.
você é seca e seca tudo a sua volta, imprime em cada um que cruza seu caminho a aridez típica da terra que te pariu. é conhecedora de outros mundos, mas vive num mundo de trevas, onde portas e janelas são fechadas à luz natural do dia. acostumou-se com um dia cinza, pintado às pressas com a tinta alheia: sua única maneira de ser feliz.
você fala de felicidade, mas como a habitante solitária de uma torre de vidro pode saber o que é felicidade? se nunca viu outra pessoa feliz, se as paredes espelhadas da sua torre mostram apenas um rosto pálido, sem brilho. um rosto sem expressão, uma boca que não mostra sorrisos nem solta palavras que não sejam de reprovação e insatisfação?
enquanto isso, as ilhas bóiam sob o olhar desatento, desorientador de uma torre de vidro prestes a ruir.

12 junho 2009

a saudade

A saudade é um trem de metrô:
subterrâneo
obscuro
escuro
claro é um trem de metrô.
a saudade é feito parafuso
quanto mais aperta
tanto mais difícil arrancar.
a saudade é um filme sem cor
que meu coração quer ver colorido...

música do Baleiro para Ana...

o impossível carinho

Escuta, eu não quero contar-te o meu desejo
Quero apenas contar-te a minha ternura
Ah se em troca de tanta felicidade que me dás
Eu te pudesse repor
- Eu soubesse repor -
No coração despedaçado
As mais puras alegrias de tua infância!

Manuel Bandeira

especial dia dos namorados :)

03 junho 2009

sobre o parnahyba, o sol e a cajuína cristalina em therezina

por she

sobre o céu

por she

"voltei a cantar porque senti saudade..."

cortei o cabelo, Ana. bem curto. acho que você não lembra (foi tão rápido aquele nosso olhar...), mas eu tinha longos cabelos cacheados. um dia me contaram uma lenda indígena que me explicava o motivo das mulheres manterem os cabelos tão longos: os fios formavam uma teia que encantava e prendia o homem amado. por isso mantinha o meu bem longo e bem firme. mas um dia cortei aquelas mechas imensas que sugavam minha energia, minha beleza, meu viço. foi doloroso ver toda aquela vida no chão, a mão de outra pessoa matando aquilo que era tão meu. mas aí senti a leveza do pescoço nu, dos ombros limpos. o medo de perder tinha ido embora junto com as madeichas. eu era livre, enfim... e meu amor também.