"o resto é mar. é tudo o que eu não sei contar..."

31 dezembro 2009

"Alors tu n'y gagnes rien!"


O título deste post é parte da fala da raposa, presente no clássico da Literatura Francesa Le Petit Prince, de Antoine Saint-Exupéry.
O pequeno príncipe, depois de cativar a raposa, declara sua partida e então começa-se a grande reflexão proposta pela obra sobre criar laços.

"Assim o pequeno príncipe cativou a raposa. Mas, quando chegou a hora da partida, a raposa disse:
- Ah! Eu vou chorar.
- A culpa é tua - disse o principezinho. - Eu não queria te fazer mal; mas tu quiseste que eu te cativasse...
- Quis - disse a raposa.
- Mas tu vais chorar! -disse ele.
- Vou - disse a raposa.
- Então, não terás ganho nada!
- Terei, sim - disse a raposa - por causa da cor do trigo.
Depois ela acrescentou:
- Vai rever as rosas. Assim, compreenderás que a tua é a única no mundo. Tu voltarás para me dizer adeus, e eu te presentearei com um segredo.
O pequeno príncipe foi rever as rosas:
- Vós não sois absolutamente iguais à minha rosa, vós não sois nada ainda. Ninguém ainda vos cativou, nem cativastes ninguém. Sois como era a minha raposa. Era uma raposa igual a cem mil outras. Mas eu a tornei minha amiga. Agora ela é única no mundo.
E as rosas ficaram desapontadas.
- Sois belas, mas vazias - continuou ele. - Não se pode morrer por vós. Um passante qualquer sem dúvida pensaria que a minha rosa se parece convosco. Ela sozinha é, porém, mais importante que todas vós, pois foi ela quem eu reguei. Foi ela quem pus sob a redoma. Foi ela quem abriguei com o pára-vento. Foi nela que eu matei as larvas (exceto duas ou três por causa das borboletas). Foi ela quem eu escutei queixar-se ou gabar-se, ou mesmo calar-se algumas vezes. Já que ela é a minha rosa.
E voltou, então, à raposa:
- Adeus... - disse ele.
- Adeus - disse a raposa. - Eis o meu segredo. É muito simples: só se vê bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos.
- O essencial é invisível aos olhos - repetiu o principezinho, para não se esquecer.
- Foi o tempo que perdeste com tua rosa que a fez tão importante. (...) Os homens esqueceram essa verdade - disse ainda a raposa. - Mas tu não a deves esquecer. Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas. Tu és responsável pela tua rosa..."

Pois é, a raposa está certa: os homens (adultos) esqueceram a verdadeira amizade. Os homens esquecem-se da responsabilidade mais importante: cuidar do outro. Aliás, os homens esquecem-se de cativar. Cativar, como a própria raposa diz, é criar laços, e criar laços não é nada além de consideração e responsabilidade pelo outro. A maioria das pessoas nesse obscuro século XXI é tão egoísta, que se esquece de ver além do que se vê. Se esquecem que o essencial é invisível aos olhos... E terminam não entendendo nada quando de repente as coisas mudam e as rosas começam a murchar. Infelizmente, não posso dizer que tenho maturidade suficiente para manter todas as rosas do meu pequeno jardim, nem posso dizer que me esforço. Sou imperfeita. (e nem precisava dessa redundância. Sou - já é imperfeição...) Mas eu tenho boa vontade, apesar de ser artigo abundante no inferno. Tenho boa vontade.

Feliz 2010!

p.s.: a imagem foi retirada do filme The Little Prince, de 1974.

01 dezembro 2009

considerações sobre a apatia


"- Não acho que posso continuar vivendo num lugar que abraça e cultiva apatia, como se fosse uma virtude.
- Você não é diferente, nem melhor.
- Eu não disse que era. Não sou. olha, sou simpático. Simpatizo totalmente. A apatia é a solução. É mais fácil se perder em drogas que lidar com a vida. É mais fácil roubar que trabalhar pra ter. É mais fácil bater numa criança que educá-la. O amor custa caro. Requer esforço e trabalho.
- Estamos falando de doentes mentais, de assassinos loucos.
- Não estamos. Estamos falando do cotidiano. Você não pode ser tão ingênuo."

Seven

30 novembro 2009

eu e clarice


Careço de humildade para me reconhecer tão pouca e incapaz. Incapaz de ser melhor, incapaz de ser mil vezes melhor do que esse esboço mal feito que sou. Mas se eu fosse capaz de me tornar melhor, quanto não haveria perdido de mim mesma? Quem eu seria, se pudesse melhorar a cada falha? Perder-me seria um ganho?

***

"Só sei ser impossível, não sei mais nada..." Macabéa a Olímpico de Jesus

***

"Sou o que se chama de pessoa impulsiva. Como descrever? Acho que assim: vem-me uma idéia ou um sentimento e eu, em vez de refletir sobre o que me veio, ajo quase que imediatamente. O resultado tem sido meio a meio: às vezes acontece que agi sob uma intuição dessas que não falham, às vezes erro completamente, o que prova que não se tratava de intuição, mas de simples infantilidade.
Trata-se de saber se devo prosseguir nos meus impulsos. E até que ponto posso controlá-los. [...] Deverei continuar a acertar e a errar, aceitando os resultados resignadamente? Ou devo lutar e tornar-me uma pessoa mais adulta? E também tenho medo de tornar-me adulta demais: eu perderia um dos prazeres do que é um jogo infantil, do que tantas vezes é uma alegria pura. Vou pensar no assunto. E certamente o resultado ainda virá sob a forma de um impulso. Não sou madura bastante ainda. Ou nunca serei.”

Clarice Lispector

22 novembro 2009

considerações sobre a morte


Nada é mais desesperador para o ser humano do que o tempo. Num mesmo segundo uma pessoa nasce e outra, do seu lado, morre. O tempo é implacável com a vida humana. Num segundo a vida de uma pessoa é definida por fatores externos à sua vontade. Não controlar o próprio tempo, ser escravo das horas vendidas para outrem é o fardo do homem que se deixa consumir por esse tempo líquido chamado pós-modernidade. Como forma de encarar essa morte cotidiana (e, por contradição, sua única certeza)o homem elabora artifícios capazes de enganar a fatalidade da existência. A arte é um desses artifícios, ela se configura como escape para aqueles que buscam o belo em suas vidas e a profundidade das coisas simples.
Porém, a maioria das pessoas estabelece um nível de beleza mediano para sua exitência e se limitam a reproduzir a própria mediocridade nas atitudes corriqueiras, impondo uma rotina degradante mentalmente. Os sonhos impostos pela TV através das novelas e dos filmes de alcance em massa produzem no telespectador cansado a sensação de que seus sonhos estão sendo realizados pelas personagens das novelas. A riqueza e suntuosidade mostradas na tela são o único contato dessas pessoas (forçadamente empobrecidas pelo sistema capitalista) com o outro lado da moeda. Ou seja, as pessoas pobres de espírito e desprovidas de riquezas materiais se realizam nas personagens que imprimem um padrão: são belas e ricas. Diante dessa projeção, para quê pensar e tentar mudar a realidade ao redor? A morte para essas pessoas já aconteceu. Deixa-se de viver a própria vida e passa-se a viver a vida de um personagem que, no máximo, é parecido com alguém, de fato, mas nunca existirá tal e qual. Passa-se a querer vestir-se igual, falar igual, numa verdadeira padronização tão semelhante à linha de produção em massa. Mas eles são felizes em sua condição infeliz.
A morte física, portanto, nesses casos, é apenas a continuação do que já começou há tanto tempo: as pessoas não viveram suas vidas, não aproveitaram cada segundo de suas vidas, não lutaram contra a imposição de um padrão. Essas pessoas simplesmente cometeram um suicídio do próprio eu. Um eu pleno de defeitos, mas únicos. Ao transferir sua vivência para um personagem ( e quando falo "um personagem", não me refiro apenas às novelas, mas a toda e qualquer celebridade fabricada e transferida ao público como exemplo e espelho), o ser humano abre mão de uma de suas características principais: a identidade (que não é apenas um número num cadastro). O ser humano, ao vestir a farda, ao encaixar a forma imposta (por qualquer segmento social), ao aceitar o padrão de bom grado, mata sua individualidade e seu direito (e por que não dizer dever?) de pensar diferentemente daquilo que lhe impõem.
As pessoas lamentam a morte e sua imprevisibilidade, mas não se dão conta de que a morte está à espreita e seduz com um discurso de inclusão. "Preciso ser igual para ser aceita. Para não morrer sozinha". A pior solidão é a morte na sala de espelhos.

carta de amor e dor para Matilda

Matilda,

O sol lá fora esquenta o chão, acelera a morte das flores. O vento sacode as roupas no varal e levanta a poeira dos móveis aqui dentro e, por isso, penso em ti. Na verdade, penso em ti e, por isso, a natureza se manifesta de formas tão bruscas: ela quer sacodir teus cabelos e porejar teu suor salgado nos meus pensamentos. Lembro de quando falávamos do passado e do quanto ele foi bom para nós. Matilda, o passado foi mesmo bom, fomos felizes, mas você se foi antes que eu te contasse uma parte dele. Uma parte que não faz a menor diferença lembrar ou esquecer, mas que é parte de mim e parte da dor que sinto hoje. Ah! Matilda, fomos felizes. De uma felicidade funda e lenta, sem nos darmos conta, sem perceber que nos cercava o devorador de todas as coisas. Penso em você como uma maneira de matar o tempo e todas as atitudes não tomadas. Quero esquecer que poderia ter feito algo para você não partir e me isentar dessa culpa. Forjo seus defeitos, amplifico sua infantilidade para me convencer de que não dava mais certo. Mas seu sorriso insistente enfrentando minha seriedade me faz lembrar que eu matava as esperanças que um sorriso sincero traz.
Matilda, teu nome nem é esse. Me perdoa inventar outro nome. É parte do meu intento de te recriar culpada de tudo. Outro nome pode me ajudar a esquecer que eu errei em te esconder um fato tão importante do meu passado. Eu sabia que ele seria definidor de tudo e não mostrei as cartas do jogo. Eu nunca amei, Matilda. Nunca senti amor, nem dei amor. Minha inexperiência nessas coisas da alma não me deixava entregar minha essência. Não me deixava abrir a porta pequena do meu mundo igualmente pequeno. Meus braços cruzados, meus bocejos... Tudo isso era uma maneira de não te mostrar essas pequenas coisas grandes, pra te proteger. Eu não te amei. O que eu sentia era uma espécie gozo ou satisfação por te ter por perto, mas não era amor. Algumas vezes teus gestos espirituosos me enfadavam, eu não entendia como você podia se entregar tanto sem receber. Como podia sorrir e tentar sempre me envolver com a mesma intensidade de antes. Matilda, não fui covarde, compreenda. Fui eu. Sei que eu poderia ter te dito antes de começarmos essa caminhada, mas não adiantaria avisar do precipício para quem quer se jogar.
Agora, o que me resta é apenas essa saudade pisada, magoada que eu sinto de nós dois. Naquele dia, na praia, enquanto eu olhava o navio ao longe, se perdendo na linha curva do horizonte, você me registrava em seus pensamentos. Eu estava de costas, mas sabia que você olhava pra mim esperando um gesto efusivo, palavras bonitas e frases feitas, e eu não fiz. Matilda, não leva a mal. Eu não sabia ser assim como você queria. Ainda não sei. Minha praticidade me empobrece, minha reflexão demasiada tira de minhas pernas e braços a espontaneidade exigida por esse amor que você tem. Matilda, não consegui amar. Mas isso não me faz pior. Matilda, eu queria ter te amado,mesmo que isso me fizesse pior.
Eu não queria te dizer isso e botar por terra tudo o que você acreditou por tanto tempo. Mas eu precisava que você soubesse antes que fosse tarde e que o engano permanecesse por mais tempo. Não faz diferença agora, eu sei. Mas eu precisava te dizer da minha incapacidade. Confessar que o fracasso foi meu. Seja feliz, meu amor. Com outra pessoa, também tentarei ser feliz novamente, assim como fui contigo. Mas não pretendo amar. Amar, não.

o voo

Um pássaro pequenino adentrou o terraço sem saber direito o que havia alí. Tombou ao bater de frente com a parede que ele não sabia que estava ali. Eu não sabia como pegá-lo em minha mão sem assustá-lo ainda mais. Mas foi natural: de repente arranjei um jeito de aconchegá-lo em minhas palmas e ele controlou as asas que batiam medrosamente e se deixou apanhar. Ele sabia que ia morrer e eu sabia que ele não precisava de mim para se salvar, mas mesmo assim entreguei meu cuidado àquele ser tão miúdo, fraco e corajoso. O levei ao quintal, e abri as mãos para ele alçar seu segundo voo libertador.
O céu brilhando naqueles olhinhos falavam de uma liberdade que eu não conhecia. Falavam ainda daquela força que não pertence a todos, somente a uns poucos é dado o prazer de senti-la. Ele alçou um voo breve e pousou no muro, de frente pra mim. Ele me olhava com uns olhos de pena, me dizendo que eu não precisava de nada nem ninguém para me apanhar e retirar daqueles quatro muros que me encerravam do mundo e das pessoas. Dizia ainda que eu não tinha asas, mas tinha pernas para correr, dançar e ir ao encontro de tudo o que eu achasse belo e de tudo o que completasse minha beleza.
Os olhos do pássaro ainda cantavam outra vida, profetizavam coisas e fatos para minha vida tão dependente de certezas, tão parcamente envolta em mantos protetores, tão descuidadamente solta de mim.

E, sem mais, ele se foi.

18 novembro 2009

a velha roupa desbotada

Mais uma vez, os pseudo donos do poder tentam fazer piada com o Piauí. Engraçado como se esforçam. Como tentam "inovar". Chega a ser comovente a tentativa insistente de desmoralizar nossa cultura, nosso povo. Mais uma vez, não se trata aqui de bairrismo ou um sentimento nativista exacerbado (não tenho vocação pra isso), é questão de bom senso e de reconhecer o próprio valor.
Um dia desses, foi a tal Dadá, domingo foi o Agildo Ribeiro. Muito me estranha o fato de um senhor, já experiente, apelar daquele jeito. E é porque estavam condenando a apelação!! Olhem só!! O Amaurí Jucá não recebeu nenhum voto por que "fez um humor muito apelativo. falou muito de sexo"... Isso sim, é piada!! Quer dizer que num programa onde o apresentador só fala disso, onde as piadas só giram em torno disso, numa emissora que reserva até programa pra esse tema, não se pode falar em sexo?? E as piadas do pior programa de humor da TV aberta brasileira, o Zorra Total, não tem piada sobre sexo? São todos politica e puritamente corretos? Sem falar nas novelas altamente apelativas, até aquela direcionada para os adolescentes! Não, não há o tema sexo na rede globo!! Essa é a piada!!! hahahahahahahaha... A eventual hipocrisia do puritanismo me dá nojo!!!
O rapaz que venceu a competição é muito bom. De fato, tem personalidade própria, criou um personagem, como muito bem argumentou Luana Piovane. Aquela senhora, tentava imitar, a partir do figurino, a Rosicléa (excelente humorista cearence). E o piauiense Amaurí Jucá também se saiu muito bem. E poderia ter saído do programa sem ter ouvido aquelas alfinetadas do tal Agildo. Desnecessário. Ninguém sorriu e ainda deixou o humorista e todos os seus telespectadores decepcionados com tamanha falta se sensibilidade. E que porra de piada foi aquela? "Eu tinha um amigo no Piauí que, quando ele saía, botava uma placa dizendo: volto já." E o que que isso tem a ver com algum coisa de que se falou??? Qual é a graça???? Se ele queria, com isso, ilustrar que não há ninguém por aqui, falhou, pq vc não coloca uma placa de "volto já" se ninguém te procura....
Fala sério. nem sei porque ainda me dou ao trabalho de escrever sobre isso. Deve ser essa insistência em viver, sobre a qual Euclides da Cunha escreveu. Sou bravo, sou forte, sou filho do norte!, repito os versos de Gonçalves Dias. E continuo querendo saber do que pode dar certo. Não tenho (mais) tempo a perder com essa gente pequena, que pensa que o mundo é só o cristo de concreto e o tietê sujimundo.

07 novembro 2009

Hoje é dia de finados


O post está meio atrasado, mas a reflexão tem permanecido atual ao longo dos tempos. O texto é de Elton Larry, meu amigo historiador, filósofo e metaleiro.

Além do significado óbvio, compartilhado por todos – que o considerem ou não uma data a ser observada – o que significa esta data ou... para que serve o dia de finados?
É evidente que a maneira como alguém ou um grupo se apropria de uma data está intrinsecamente ligada a suas experiências, expectativas e outros ‘ex’ da vida. Mas entender como a maioria enxerga este dia pode ser interessante.
Hoje, uma quantidade enorme de pessoas se dirigiu a um, dois ou mais dos milhares de cemitérios que existem no território brasileiro levando velas, terços, tinta para pintar alguma cruz mais enferrujada, coroas de flores, água, dentre outras coisas.
Nota-se no semblante da maioria que eles não se dirigem ao cemitério com expressão de tristeza, o que não significa muita coisa, em cortejos vê-se muitas pessoas até com cara de riso. Entretanto, não se vê em muita gente aquele ar de circunspecção que se espera transparecer nestes momentos.
Na hora de rezar o terço aparece alguma circunspecção. Não em todos, claro. Tem gente que vai ao túmulo de um ente querido – prefiro acreditar que o considerem querido – e não se interessa em rezar ou ao menos ler uma parte dos chamados ‘mistérios’ presentes naqueles livrinhos titulados “Rezemos o terço”.
Não se pode afirmar só por isso que as pessoas em questão não amem seus mortos assim como aqueles dispostos a rezar. Reconheço que as primeiras podem ter sentimentos mais bonitos do que aqueles adequados ao que se espera nestas ocasiões.
O caminho até os cemitérios é uma atração à parte. Dezenas, centenas de automóveis estacionados mostram que você está chegando a um cemitério. A algazarra de crianças a fim de ganhar algum que se propõem a ‘vigiar’ seu carro, também. Vende-se água normal, água com gás, água de coco. Vendem-se velas, coroas de flores, alguns petiscos como batata frita e há até mesmo barracas de caipirinha (caipirinha?).
Coisas como este forte comércio parecem deixar clara uma das particularidades mais simples da data: o dia é dos mortos, mas quem importa mesmo são os vivos. É para eles que se busca vender alguma coisa – mesmo no caso de um enterro, o morto não poderá fazer uso de seu dinheiro juntado em vida – é aos vivos que se oferece tanto o consolo espiritual (atitude bonita, embora meio pretensiosa) quanto diversas opções de planos funerários – claro que não deixa de ser uma oportunidade de negócio, mas a situação de um filho que chora a morte de um pai ser assediado por um vendedor de planos funerários supera as barreiras do mau gosto.
O dia dos mortos pode ter uma função bem interessante: lembrar aos vivos como, apesar de tudo, deve valer a pena continuar deste lado do estige. Vou ao cemitério e claro, não posso deixar de ver a comoção em alguns poucos rostos desconhecidos. Mesmo que a dor da perca seja enorme, acho que pouquíssimas pessoas ali trocariam de lugar com seus entes sepultados. Ir ao cemitério parece que lhe deixa com certa vontade de viver. A menos que você seja um daqueles escritores doidões que desejavam alcançar a morte como um escapismo para o sofrimento.
Acho que não seria necessário um dia para os mortos se as pessoas, de bom grado, se lembrassem deles. Claro que todos eles quando eram vivos possuíam seus defeitos. Podiam ser mentirosos, meio covardes, um pouco desonestos quem sabe, sonhadores ao extremo ou extremados puxa-sacos. Mas deviam deixar alguém feliz quando chegavam em casa, quando preparavam uma comida boa, quando abraçavam alguém ou quando te diziam aquelas palavras de carinho e estímulo que em um momento de tristeza podem fazer toda a diferença.
Entretanto, a delimitação de uma data específica – estrategicamente colocada após o dia das bruxas e o de todos os santos – pode trazer seus benefícios. Por um lado prático, pode proporcionar a um pai, cujo filho está enterrado em um local meio distante, um dia de folga onde ele possa visitar seu túmulo e depois passar na casa de um amigo de longa data que há tempos não via. (O que foi? por acaso você acha que todo mundo vai só ao desfile em 7 de setembro? Eu sequer conheço alguém que vá.)
O dia de finados, como já foi dito, é dedicado a eles, mas quem se aproveita dele somos nós – enquanto vivermos – a saudade de alguém que já partiu pode ser dolorosa, mas senti-la é sinal de que aquela pessoa fez a diferença na sua vida. Eu particularmente lembro de uma senhora que poderia ter me ensinado a ser bom e paciente como ela foi, mas a luz de seus olhos apagou-se cedo demais.
Embora eu continue achando que no dia de finados, os mortos deveriam poder voltar á terra para ver seus entes queridos, (mas acho também que alguns deles não iam querer ver absolutamente ninguém e passar o dia bebendo/fumando/transando) não posso pensar em tudo. Cada um é dono de seu coração – até quando ambos estão ‘meio’ mortos.

05 novembro 2009

justificativa


Há algum tempo eu vinha pensando em mudar o título do blog pra alguma coisa que dissesse mais sobre o que escrevo, mas nada me ocorria assim de pronto e de modo completo, quer dizer, que completasse minhas vontades, meus "desejos tão profundos". Então, de repente, assistindo ao clip da música Longe, do Arnaldo, tive esse insight. Pois é assim que me sinto (e tudo não é sentimento?) ou pelo menos tenho me sentido de uns tempos pra cá. Uma espécie de solidão interior voluntária. A verdade é que venho cansando minha paciência ao tentar entender comportamentos, gestos e falas de pessoas que me cercavam e essa tentativa tem sido frustrada sempre. (e não é exagero). Então, por isso a solidão voluntária. Preciso me entender, se quiser entender alguém mais. A tarefa é quase impossível, mas ainda tento me enxergar profundamente. E como somente algumas amigas (Ana, Isa e Rosa) leem o que eu posto aqui, me senti à vontade para dizer mais sobre qualquer coisa mesmo.


O que estou tentando dizer (já deu pra perceber essa verborragia insana que escorre dos meus dedos) é que vou tentar (sempre tentar! tudo começa a partir de tentativas!) não mais me esconder atrás das palavras (ou do lado ou entre elas) de outras pessoas. Claro que vou continuar postando poemas e músicas que me agradam, mas vou voltar a escrever. (vou tentar!!!)





E pra não perder o hábito, aí vai a letra da música Longe do Arnaldo Antunes, do cd Iê Iê Iê!!! (o máximo!!!)





Onde é que eu fui parar?
Aonde é esse aqui?
Não dá mais pra voltar
Porque eu fiquei tão longe, longe...
Onde é esse lugar?
Aonde está você?
Não pega celular
E a Terra está tão longe, longe...
Não passa um carro sequer
Todo comércio fechou
Não tem satélite algum transmitindo notícias de onde eu estou
Nenhum e-mail chegou
Nenhum correio virá
Eu entre quatro paredes sem porta ou janela pro tempo passar
Dizem que a vida é assim
Cinco sentidos em mim
Dentro de um corpo fechado
No vácuo de um quarto
No espaço sem fim
Aonde está você?
Por que é que você foi?
Não quero te esquecer
Mas já fiquei tão longe, longe...
Não dá mais pra voltar
Eu nem me despedi
Aonde é que eu vim parar?
Por que eu fiquei tão longe, longe, longe, longe...
Longe, longe, longe, longe...

Link pra o site do Arnaldo (comentário sobre o novo cd):

http://www.arnaldoantunes.com.br/

28 outubro 2009

DESCONFIE SEMPRE...


...de quem fala demais (por não ter nada a dizer) de si.
e chega de publicidade pra essa tal aí.
o que tinha pra dizer já me escapuliu por entre os dedos!

26 outubro 2009

Dadá Coelho precisa crescer

Foi com muita tristeza que assisti aos vídeos de Dadá Coelho no Programa do Jô. É uma pena que uma pessoa "estudada" faça piada com a ignorância e a miséria da própria mãe. As pessoas aqui no Piauí são sofridas sim, não têm as oportunidades que surgem nos locais mais desenvolvidos do país, mas em contraposição a essa falta de oportunidades, nós temos o esforço e a determinação que falta a muita gente. Exemplo disso é o cineasta Cícero Filho, entrevistado há algum tempo, e que fez o caminho inverso da ilustre desconhecida Dadá. A maioria das pessoas consegue se fazer por aqui sem precisar de "pit stop" no Maranhão ou no Ceará, nossos estados vizinhos. Não é verdade que existem apenas pessoas medíocres que se contentam em ser empregadas do Armazém Paraíba, ou o serviço no funcionalismo público ou ainda o casamento depois de uma gravidez. Em que lugar do país essas alternativas não se repetem (guardadas as devidas proporções)? Essa jovem senhora tentou tanto se livrar da mediocridade piauiense, mas só consegue um espaço de destaque a partir da mediocridade do estado que a pariu. Que feliz paradoxo! Queria vê-la tentar fazer graça a partir de coisas mais inteligentes, como tirar sarro de sua condição de jornalista- comediante-produtora (talvez seja por isso que não precisem mais de diploma). Ria de si mesma, minha cara, antes de tentar provocar o riso insosso de uma plateia educada, que ri pra não deixar o piadista sem graça. O Programa do Jô merecia umas piadas mais bem elaboradas.

04 outubro 2009

soneto do amor imperfeito

Não quero mais buscar o amor perfeito
pra camuflar o sentimento em chama
e amortecer o que me dói no peito,
a mesma dor de todo ser que ama.

Que amar assim, eu sei, não é direito,
pois todo peito preso nesta trama
adoecido faz do olhar um leito
pra adormecer a fonte deste drama.

Vou procurar amar só o instante
um amor maior, porém um passageiro
tão transeunte quanto o amante

que tenha amores pelo mundo inteiro
e ao invés da dor o peito sempre cante
o imperfeito amor que é o verdadeiro.

Paulo Franco

24 setembro 2009

depois de passar a noite tecendo culpas e florindo lágrimas, amanheço murcha, farta, morta de cansaço, de tristeza. a vontade de ir embora, de me esconder do mundo me consome e mata minhas esperanças de um futuro do teu lado. é triste, profundamente triste, constatar que tudo acabou, que tudo morreu, algo de um viço imenso.


choro enquanto escrevo isso que não adianta mais nada, não faz o tempo voltar, não reedifica o sentimento. meus olhos vermelhos não querem ver mais teu rosto ríspido, meus ouvidos estão surdos às tuas palavras duras, minha mão ainda guarda a quentura da tua, do teu corpo. é a lembrança boa que fica em mim: teu calor. tento esconder meu choro das pessoas que me cercam, mas meu soluço me denuncia e estou mais uma vez sendo interrogada e os motivos e a realidade se voltam com toda a força sobre mim.


o desejo que guardo tão profundamente em mim não é o suficente pra te fazer voltar e rever nos meus olhos e nas minhas mãos quanto amor eu ainda tenho, quanto carinho guardado, abafado, na ânsia de te dar.


quando meus olhos secam, minha alma se inunda de pranto e por dentro eu choro. estou magoada, me sinto só. a felicidade que parecia nunca acabar, foi embora sem mais e o que restou foram ruínas dentro de mim. sinto saudade, sinto falta e meu amor está longe e dentro de mim. sei que essa dor passa, mas não consigo me privar de senti-la, de esquecê-la, ao menos. fico sonhando e esperando que tudo seja um pesadelo, que vou acordar e viver novamente aquela felicidade de outrora, mas a realidade me chama e grita bem alto meu nome.


não sei por que motivo você consegue afastar as pessoas que te amam. sei que o amor não é brinquedo, não é coisa que se viva como quem vive um caso sem propósitos. mas não consigo entender como um sentimento tão forte, com raízes tão fundas, acaba. como essas raízes podem ser arrancadas sem machucar a terra em que elas se fincaram por tanto tempo? como pode uma planta tão vistosa, morrer seca e só? são os segredos da natureza. e como todo segredo, ninguém sabe, ninguém viu.


eu não sei, eu não vi como você foi saindo assim da minha vida...

17 setembro 2009



CANÇÃO DE OUTONO


Perdoa-me, folha seca,
não posso cuidar de ti.
Vim para amar neste mundo,
e até do amor me perdi.

De que serviu tecer flores
pelas areias do chão,
se havia gente dormindo
sobre o própro coração?

E não pude levantá-la!
Choro pelo que não fiz.
E pela minha fraqueza
é que sou triste e infeliz.

Perdoa-me, folha seca!
Meus olhos sem força estão
velando e rogando àqueles
que não se levantarão...


Tu és a folha de outono
voante pelo jardim.
Deixo-te a minha saudade
- a melhor parte de mim.
Certa de que tudo é vão.
Que tudo é menos que o vento,
menos que as folhas do chão...

Cecília Meireles
Cecília Meireles

epigrama n.2


És precária e veloz, Felicidade.
Custas a vir e, quando vens, não te demoras. Foste tu que ensinaste aos homens que havia tempo,
e, para te medir, se inventaram as horas.
Felicidade, és coisa estranha e dolorosa:
Fizeste para sempre a vida ficar triste:
Porque um dia se vê que as horas todas passam,
e um tempo despovoado e profundo, persiste.
Cecília Meireles

nem tudo é fácil...

É difícil fazer alguém feliz,
Assim como é fácil fazer triste.
É difícil dizer eu te amo,
Assim como é fácil não dizer nada.
É difícil ser fiel,
Assim como é fácil se aventurar.
É difícil valorizar um amor,
Assim como é fácil perdê-lo para sempre.
É difícil agradecer por hoje,
Assim como é fácil viver mais um dia.
É difícil abrir os olhos e enxergar o que de bom a vida te deu,
Assim como é fácil fechar os olhos e atravessar a rua.
É difícil se convencer de que se é feliz,
Assim como é fácil achar que sempre falta algo.
É difícil fazer alguém sorrir,
Assim como é fácil fazer chorar.
É difícil se pôr no lugar de alguém,
Assim como é fácil olhar para o próprio umbigo.
Se você errou, peça desculpas...
É difícil pedir perdão?
Mas quem disse que é fácil ser perdoado?!
Se alguém errou com você, perdoa-o...
É difícil perdoar?
Mas quem disse que é fácil se arrepender?!
Se você sente algo, diga...
É difícil se abrir?
Mas quem disse que é fácil encontrar alguém que queira escutar?!
Se alguém reclama de você, ouça...
É difícil ouvir certas coisas?
Mas quem disse que é fácil ouvir você?!
Se alguém te ama, ame-o...
É difícil se entregar?
Mas quem disse que é fácil ser feliz?!
Nem tudo é fácil na vida...
Mas, com certeza, nada é impossível...
Precisamos acreditar, ter fé
E lutar para que não apenas sonhemos,
Mas também tornemostodos estes Sonhos
Realidade...!
Este texto é de Glácia Daibert, e não de Cecília Meireles, como circula por aí.

31 julho 2009

música para ouvir


Música para ouvir abriu o show de ontem de Arnaldo Antunes e Edgar Scandurra no Teatro 4 de Setembro. O teatro lotou! Gente por todos os lados! Cantando, gritando, pulando, urrando... uma verdadeira loucura! E foi tudo muito bom. O repertório foi composto de músicas feitas em parceria entre os dois. Houve apenas a exceção de Judiaria (do Lupicínio). Muita gente saiu dizendo que o show foi do Edgar... Outros, devotos de são Arnaldo, é claro que apregoavam o contrário, mas acho que o show foi bem medido e bem pesado. Os dois foram ótimos! A guitarra forte do Scandurra complementava a voz igualmente forte de Arnaldo e ambos fizeram o show.

Pediram pro Arnaldo assanhar o cabelo... e ele assanhou!
Pediram pra ele cantar Fora de si... e ele cantou!
Scandurra pedia pra todo mundo bater palmas, estalar dedos... e todo mundo obedecia!

Há muito tempo eu não gostava tanto de um show do projeto 6h30!! Isso sim é música para ouvir, música para ouvir, música para ouvir!!

Estou na espera por Moska!


21 julho 2009

Dear Prudence

Dear Prudence won't you come out to play
Dear Prudence greet the brand new day
The sun is up the sky is blue
It's beautiful and so are you
Dear Prudence won't you come out to play

Dear Prudence open up your eyes
Dear Prudence see the sunny skies
The wind is low the birds will sing
That you are part of everything
Dear Prudence, won't you open up your eyes

Look around round
Look around round round
Look around

Dear Prudence let me see your smile
Dear Prudence like a little child
The clouds will be a daisy chain
So let me see your smile again

Dear Prudence won't you let me see you smile
Dear Prudence won't you come out to play
Dear Prudence greet the brand new day
The sun is up the sky is blue
It's beautiful and so are you
Dear Prudence won't you come out to play

The Beatles

20 julho 2009

nem tão óbvio assim...

os clássicos

são clássicos

por imortalizarem (pela primeira vez)

o óbvio.

Puedo escribir los versos más tristes esta noche...

Puedo escribir los versos más tristes esta noche.
Escribir, por ejemplo: "La noche está estrellada,
y tiritan, azules, los astros, a lo lejos".

El viento de la noche gira en el cielo y canta.

Puedo escribir los versos más tristes esta noche.
Yo la quise, y a veces ella también me quiso.

En las noches como ésta la tuve entre mis brazos.
La besé tantas veces bajo el cielo infinito.

Ella me quiso, a veces yo también la queria.
Como no haber amado sus grandes ojos fijos.

Puedo escribir los versos más tristes esta noche.
Pensar que no la tengo. Sentir que la he perdido.

Oir la noche inmensa, más inmensa sin ella.
Y el verso cae al alma como al pasto el rocio.

Qué importa que mi amor no pudiera guardarla.
La noche está estrellada y ella no está conmigo.

Eso és todo. A lo lejos alguien canta. A lo lejos.
Mi alma no se contenta con haberla perdido.

Como para acercarla mi mirada la busca.
Mi corazón la busca, y ella no está conmigo.

La misma noche que hace blanquear los mismos árboles.
Nosotros, los de entonces, ya no somos los mismos.

Ya no la quiero, es cierto, pero cuanto la quise.
Mi voz buscaba el viento para tocar su oído.

De otro. Será de otro. Como antes de mis besos.
Su voz, su cuerpo claro. Sus ojos infinitos.

Ya no la quiero, es cierto, pero tal vez la quiero.
Es tan corto el amor, y es tan largo el olvido.

Porque en noches como ésta la tuve entre mis brazos,
mi alma no se contenta con haberla perdido.
Aunque éste sea el último dolor que ella me causa,
y éstos sean los últimos versos que yo le escribo.

Pablo Neruda (Poema XX)

17 julho 2009

O paciente inglês


Outro filme que me faz pensar a dialética amorosa é O paciente inglês. baseado no romance homônimo de Michael Ondaatje, conta uma história de amor tão bela quanto confusa, profunda e intensa. São duas histórias em uma: a do paciente resgatado no deserto com o corpo consumido pelo fogo e a dedicação exclusiva que a enfermeira Hana dedica ele e a outra que revela o amor que matou Almasy e K. a Katherine do conde. romance proibido pelo casamento de Katherine. pelo menos no início, ela disfarça o amor que ele já começa a mostrar com pequenos gestos e às vezes confusos, beirando a grosseria. a cena de amor que acontece entre eles no meio de uma comemoração de natal é uma das mais quentes e bem feitas que já vi. o contraste da selvageria dos dois escondidos, enquanto todos, na celebração, cantam noite feliz, acompanhados do marido de K. que está vestido de Papai Noel.

o modo como a narrativa se desenrola é instigante. apesar de algumas pessoas taxarem o filme de cansativo e monótono, acho que o cotidiano de um homem encontrado semi-morto no deserto não pode ser diferente. e é essa realidade que é tratada no início. o filme é extremamente verossímil e por isso, termina por atrair críticas desse tipo. a narrativa evolui a medida em que o diário de Almasy vai sendo lido pela enfermeira depois que os dois abrigaram-se da guerra num mosteiro e alguns personagens começam a aparecer, como por exemplo Kip e Caravaggio.

a história de Almasy e Katherine não é uma história bonitinha, organizada. a personagem chega a dizer que não é uma esposa normal. claro! ama o marido e não sabe se desvencilhar daquele que provocará, de certo modo, sua morte. a paixão cega os dois a ponto de não saberem mais respeitar as fronteiras que os separam: uma sociedade machista, na qual a posição dela seria a mais fragilizada.

Depois de ter passado a noite das bodas de papel com o amante, K. resolve terminar o caso e fazer que o marido não saiba nada que aconteceu entre eles, mas é tarde, pois Geoffrey já sabe e tenta matar os dois com o avião. força K. entrar no avião que ele está pilotando e tenta atropelar Almasy. Geoffrey morre e fere K. Almasy se safa e tenta salvar sua amante da morte, levando-a p/ uma das cavernas recém descoberta por eles e atravessa o deserto a pé em busca de ajuda. por uma série de zebras, nada acontece como o planejado e K. morre sozinha na caverna. Almasy, ao final do filme, assume a culpa pela morte da mulher que amou tanto. ele já era dela. logo ele que dizia odiar a posse, queria possuir K. mais do que qualquer coisa e sua morte foi o pior castigo por todo esse tempo que ele passou tentando fugir das contradições do amor. final trágico??? não. tendo em vista que, no final da vida, Almasy abdicou da morfina e morreu ouvindo a enfermeira ler as últimas palavras escritas por K. no livro de Homero. eles morreram juntos e essa foi uma forma bastante inteligente de deixá-los juntos, já que a união em vida seria, no mínimo complicada.

o que mais me chama a atenção é o comportamento às vezes doentio de Almasy, aquele pesquisador outrora equilibrado e racional. aquele mesmo tão exato em suas palavras, não usava adjetivos, queria possuir a amante, queria mesmo dar um nome e estabelecer a posse de uma parte do corpo de K. no jogo amoroso brincar com a posse faz parte de uma retórica preestabelecida há tempos. quando isso ultrapassa a barreira do jogo linguístico característico da relação amorosa, a coisa muda de figura. ele queria possuir. ele também queria ser possuído. essa é a grande contradição do personagem Almasy: ele queria possuir aquela que já o possuía sem fazer muito esforço.

por isso, os dois filmes mexem muito com o meu imaginário: são histórias de amor real, vivido e sofrido. nessas histórias qualquer um pode se reconhecer em alguma parte de sua vida, ou não. a mim basta apenas ter a esperança de um dia ser tão amada quanto K. e Ada (do post anterior), nem que seja apenas nas densas páginas de um romance ou nas breves páginas de um conto.


O piano


não sou cinéfila (nem sei também se existe a flexão de gênero pra esse substantivo, mas, de qualquer forma, está aí), mas não poderia deixar de escrever hoje sobre dois filmes que admiro muito. observações de ordem técnica, vocês, camaradas cinéfilos, não encontrarão em minhas palavras. minha observação cinematográfica é de cunho extremamente pessoal, por isso peço licença, mais uma vez.

pra não ficar mais chato do que já está, começo por dizer que O Piano e O Paciente Inglês são os dois filmes que, até hoje, mais me tocam, principalmente no que diz respeito à história de amor que ambos carregam. uma boa história de amor nunca termina bem. parece trágico? não... quando digo que ela não termina bem não quero dizer que o par romântico deva morrer, ou ficarem exilados um do outro. Longe disso!

em O Piano, não temos um final tão feliz assim... a impressão que tenho cada vez que revejo o filme é que os acontecimentos se sobrepunham aos personagens de um modo tão intenso e assustador que a única saída era aquela. Ada inicia seu sofrimento quando sabe que terá que partir para se casar com um homem que nunca viu. depois sofre com o descaso do marido pelo seu único objeto de devoção: o piano. mais tarde, o marido verifica que teria sido melhor para todos ter cedido e voltado pra buscá-lo na praia o quanto antes. quem tomou a atitude que o marido deveria ter tomado foi Baines, que, usando de meios duvidosos, termina por conquistar Ada e conseguir o que o marido nunca conseguira: seu amor, seu desejo. A tragédica começa a ser esboçada quando o marido enciumado corta com um machado o dedo indicador de Ada como forma de puni-la pelas tentativas de encontrar Baines. e então, reconhecendo que sua esposa nunca seria de fato sua mulher, Stewart se rende e pede que ela se vá com a filha, o amanta e o "maldito" piano. me furtarei de contar mais detalhes como forma de aguçar a curiosidade dos que ainda não assistiram ao filme. agora, por que digo que o final não foi tão feliz assim, se os amantes ficaram juntos? bom, ficaram por conta do esforço de uma das partes. Baines decide abandonar a profunda floresta da Nova Zelândia como forma de compensar o estrago feito na vida de Ada e também como forma de realizar o amor entre os dois. Mas na viagem de volta, feita por eles e vários nativos em uma pequena embarcação onde o piano também era tripulante, Ada vê a possibilidade de pôr fim ao seu sofrimento, afundando no mar junto ao seu piano. ela deixa seu pé ser envolvido pelas cordas que estavam presas ao piano que foi jogado a seu pedido. e por quê? por que o fardo amoroso não suporta longos tempos. Ada é salva por Baines e os outros nativos que mergulham ao mar para resgatá-la. ela então, torna-se a sobrevivente do próprio suicídio. apesar do amor intenso que viveram nos poucos dias que passaram juntos, ela não suportaria a idéia de passar por tudo novamente. teria ela medo de que tudo se repetisse? o medo de que a proibição de tocar o piano e de ser quem ela é poderia voltar e instalar o descontentamento, mesmo que fosse sugerida uma nova vida, num novo lugar, com outro homem?? Ada vive a plenitude amorosa com dúvidas. passa a lecionar, a ter aulas para voltar a falar e ganha um protótipo de dedo feito por Baines. mas isso tudo passa pelo medo terrível de magoar e ser magoada novamente. as personagens são permeadas de dúvidas, mas Ada é a que mais duvida de um final feliz. ela não vê em Baines sua tábua de salvação, não o considera aquele que a tirará do caos e instalará a plenitude. Ada tem medo do que os homens (não só os homens, mas os homens...) possam fazer mais uma vez com ela. por isso (e por várias outras coisas que eu ainda nem sei) O Piano é visceral, por trabalhar a dialética amorosa. nada é decisivo no amor, nada é eterno (desculpem o clichê), as boas recordações de uma relação são poucas e amplificadas pelo sentimento nutrido pelos amantes. pode-se viver de boas recordações o resto da vida, mudá-la nem sempre é possível. Só pra provar que não sou a amarga da história, admito que Baines é perfeito em seu sentimento. fiel até a última instância aos seus desejos, capaz de burlar qualquer contrato, qualquer convenção em nome do que sente. sua maior vitória é provar à Ada que o que sente é sincero e fazê-la sentir o mesmo por ele. o filme é fantástico por fazer das incertezas a única certeza possível.

08 julho 2009

ausência


"Instalo-me sozinho num café; alguns vêm me cumprimentar; sinto-me acolhido, requisitado, lisonjeado. Mas o outro está ausente; evoco-o em mim mesmo para que ele me retenha na beira dessa complacência mudana que me espreita. Apelo para sua "verdade" (para a verdade cuja sensação ele me dá) contra a histeria de sedução para a qual me sinto resvalar. Torno a ausência do outro responsável por minha mundanidade: invoco sua proteção, sua volta: que o outro apareça, que me retire, como uma mãe que vem buscar o filho, do brilho mundano, da fatuidade social, que me devolva "a intimidade religiosa, a gravidade" do mundo amoroso" (...) "A ausência do outro segura minha cabeça debaixo da água; pouco a pouco, sufoco, meu ar se rarefaz: é por essa asfixia que reconstituo minha "verdade" e preparo o Intratável do amor."


Roland Barthes (Fragmentos de um discurso amoroso)

02 julho 2009

a felicidade...


A princípio, bastaria ter saúde, dinheiro e amor, o que já é um pacote louvável, mas nossos desejos são ainda mais complexos. Não basta que a gente esteja sem febre: queremos, além de saúde, ser magérrimos, sarados, irresistíveis.
Dinheiro? Não basta termos para pagar o aluguel, a comida e o cinema: queremos a piscina olímpica e uma temporada num spa cinco estrelas. E quanto ao amor? Ah, o amor... não basta termos alguém com quem podemos conversar, dividir uma pizza e fazer sexo de vez em quando. Isso é pensar pequeno: queremos AMOR, todinho maiúsculo. Queremos estar visceralmente apaixonados, queremos ser surpreendidos por declarações e presentes inesperados, queremos jantar à luz de velas de segunda a domingo, queremos sexo selvagem e diário, queremos ser felizes assim e não de outro jeito. É o que dá ver tanta televisão.
Simplesmente esquecemos de tentar ser felizes de uma forma mais realista. Ter um parceiro constante, pode ou não, ser sinônimo de felicidade. Você pode ser feliz solteiro, feliz com uns romances ocasionais, feliz com um parceiro, feliz sem nenhum. Não existe amor minúsculo, principalmente quando se trata de amor-próprio.
Dinheiro é uma benção. Quem tem, precisa aproveitá-lo, gastá-lo,usufruí-lo. Não perder tempo juntando, juntando, juntando. Apenas o suficiente para se sentir seguro, mas não aprisionado. E se a gente tem pouco, é com este pouco que vai tentar segurar a onda, buscando coisas que saiam de graça, como um pouco de humor, um pouco de fé e um pouco de criatividade.
Ser feliz de uma forma realista é fazer o possível e aceitar o improvável. Fazer exercícios sem almejar passarelas, trabalhar sem almejar o estrelato, amar sem almejar o eterno. Olhe para o relógio: hora de acordar. É importante pensar-se ao extremo, buscar lá dentro o que nos mobiliza, instiga e conduz mas sem exigir-se desumanamente. A vida não é um jogo onde só quem testa seus limites é que leva o prêmio. Não sejamos vítimas ingênuas desta tal competitividade.
Se a meta está alta demais, reduza-a. Se você não está de acordo com as regras, demita-se.
Invente seu próprio jogo. Faça o que for necessário para ser feliz. Mas não se esqueça que a felicidade é um sentimento simples, você pode encontrá-la e deixá-la ir embora por não perceber sua simplicidade. Ela transmite paz e não sentimentos fortes, que nos atormenta e provoca inquietude no nosso coração. Isso pode ser alegria, paixão, entusiasmo, mas não felicidade.


Martha Medeiros

poema




eu hoje tive um pesadelo
e levantei atento, a tempo
eu acordei com medo
e procurei no escuro
alguém com o seu carinho
e lembrei de um tempo

porque o passado me traz uma lembrança
do tempo que eu era ainda criança
e o medo era motivo de choro
desculpa pra um abraço ou consolo


hoje eu acordei com medo
mas não chorei, nem reclamei abrigo
do escuro, eu via o infinito
sem presente, passado ou futuro
senti um abraço forte, já não era medo
era uma coisa sua que ficou em mim
e que não tem fim

de repente, a gente vê que perdeu
ou está perdendo alguma coisa
morna e ingênua que vai ficando no caminho
que é escuro e frio, mas também bonito porque é iluminado
pela beleza do que aconteceu há minutos atrás...

Cazuza




17 junho 2009

a torre e as ilhas

faço aqui menos que um desabafo. isso que faço agora é apenas um lamento. sem platéia e sem público, quero apenas tirar de dentro de mim a dor que não sufoca, mas mata lenta e dolorosamente e eu não quero morrer naturalmente, como as lagartas que se fecham em seus casulos e esperam o tempo certo para se transformarem. quero mesmo morrer como as borboletas suicidas que se deixam levar pelo vento e se perdem dos seus e se chocam contra tudo à sua frente.
lembro de você dizer da contradição de não haver diálogo num meio em que ele se fazia fundamental. você lamentava como alguém disposto a iniciar esse diálogo, como alguém que não se recusaria a estabelecê-lo, caso acontecesse. mas e agora? você na sua torre não nota as ilhas ao redor. fica cega à própria realidade. o que acontece quando o ideal se aproxima? você se nega a pegá-lo, a agarrá-lo e deixa as ilhas perdidas na iminência do desaparecimento. de vez em quando você desce da sua torre e observa os acontecimentos: só você sofre, só você chora, só você enxerga o melhor e o melhor é sempre pra você, a razão é sempre a sua e você sempre se fecha para a pluralidade de sentimentos, para a fonte de subjetividade que é o outro, que são os outros que não são (nem nunca serão) iguais a você.
você é seca e seca tudo a sua volta, imprime em cada um que cruza seu caminho a aridez típica da terra que te pariu. é conhecedora de outros mundos, mas vive num mundo de trevas, onde portas e janelas são fechadas à luz natural do dia. acostumou-se com um dia cinza, pintado às pressas com a tinta alheia: sua única maneira de ser feliz.
você fala de felicidade, mas como a habitante solitária de uma torre de vidro pode saber o que é felicidade? se nunca viu outra pessoa feliz, se as paredes espelhadas da sua torre mostram apenas um rosto pálido, sem brilho. um rosto sem expressão, uma boca que não mostra sorrisos nem solta palavras que não sejam de reprovação e insatisfação?
enquanto isso, as ilhas bóiam sob o olhar desatento, desorientador de uma torre de vidro prestes a ruir.

12 junho 2009

a saudade

A saudade é um trem de metrô:
subterrâneo
obscuro
escuro
claro é um trem de metrô.
a saudade é feito parafuso
quanto mais aperta
tanto mais difícil arrancar.
a saudade é um filme sem cor
que meu coração quer ver colorido...

música do Baleiro para Ana...

o impossível carinho

Escuta, eu não quero contar-te o meu desejo
Quero apenas contar-te a minha ternura
Ah se em troca de tanta felicidade que me dás
Eu te pudesse repor
- Eu soubesse repor -
No coração despedaçado
As mais puras alegrias de tua infância!

Manuel Bandeira

especial dia dos namorados :)

03 junho 2009

sobre o parnahyba, o sol e a cajuína cristalina em therezina

por she

sobre o céu

por she

"voltei a cantar porque senti saudade..."

cortei o cabelo, Ana. bem curto. acho que você não lembra (foi tão rápido aquele nosso olhar...), mas eu tinha longos cabelos cacheados. um dia me contaram uma lenda indígena que me explicava o motivo das mulheres manterem os cabelos tão longos: os fios formavam uma teia que encantava e prendia o homem amado. por isso mantinha o meu bem longo e bem firme. mas um dia cortei aquelas mechas imensas que sugavam minha energia, minha beleza, meu viço. foi doloroso ver toda aquela vida no chão, a mão de outra pessoa matando aquilo que era tão meu. mas aí senti a leveza do pescoço nu, dos ombros limpos. o medo de perder tinha ido embora junto com as madeichas. eu era livre, enfim... e meu amor também.