"o resto é mar. é tudo o que eu não sei contar..."

28 fevereiro 2011

Poema inconjunto (1913-1915)

Falas de civilização, e de não dever ser,
Ou de não dever ser assim.
Dizes que todos sofrem, ou a maioria de todos,
Com as coisas humanas postas desta maneira,
Dizes que se fossem diferentes, sofreriam menos.
Dizes que se fossem como tu queres, seriam melhor.
Escuto sem te ouvir.
Para que te quereria eu ouvir?
Ouvindo-te nada ficaria sabendo.
Se as coisas fossem diferentes, seriam diferentes: eis tudo.
Se as coisas fossem como tu queres, seriam só como tu queres.
Ai de ti e de todos que levam a vida
A querer inventar a máquina de fazer felicidade!

Alberto Caeiro (o sábio e mestre de Fernando Pessoa e seus demais heterônimos).
Meu mestre também.

Sofística



Lanço meu olhar ao céu
Que, através da janela,
Não passa de um quadrado.
E nesse pequeno sólido,
Formado de minha limitação,
Deixo de perceber as estrelas
Apagadas pelas nuvens.
Choro a morte de cada uma delas:
Pelo seu brilho apagado,
Pelos caminhos escurecidos,
Pela ausência de sua luz.
Mas, tão tola e tão míope,
Aos poucos me apercebo
Olhando o céu novamente
Em busca de suas pontas.
É quando me dou conta que
Acima das nuvens elas estão
e riem da minha lógica humana:
“não crer naquilo que não se vê.”
Minhas mãos têm ânsia tamanha em tocar.
Meus olhos são ávidos por ver.
Meus ouvidos aguçam-se para ouvir.
Mas minhas mãos não sabem esperar.
Meus olhos não aprenderam ver além.
Meus ouvidos jamais se habituam ao silêncio.
E assim, me entregando toda
Ao toque, ao som e às cores
Vou perdendo a poesia do negro silêncio impalpável
Das coisas que não precisam de outras para existir.
Vou seguindo, humana,
A tropeçar e cair para me reerguer
E me entregar às minhas ideias fracas
sem o brilho das estrelas.

27 fevereiro 2011

Pra você eu conto, Moacyr Scliar



"(...)
Era um hotel. Casa já não tinha mais, e a professora de Ciências, que poderia hospedá-la, há muito se mudara para São Paulo. Um hotel bem modesto; pelo jeito, o dinheiro não lhe sobrava.
Mas nada daquilo importava. Ignorando o olhar suspeitoso do homem da portaria, subi de dois em dois os degraus da estreita escada que levava ao segundo pavimento. Ofegante, bati à porta. Já vou, disse uma voz abafada lá dentro. Uns segundos depois a porta se abriu e ali estava ela, diante de mim, a Marta.
A mesma Marta: o mesmo olhar penetrante, os mesmos cabelos ruivos, se bem que cortados curtos. Não, não era a mesma Marta; o tempo fora cruel com ela, rugas profundas marcavam-lhe a face, a boca apresentava-se caída. Sim, era a mesma Marta, o mesmo brilho nos olhos. Não -
Que importava? Abraçamo-nos chorando. De repente, o tempo detinha-se; não, o tempo voltava atrás; eu já não era o jovem empresário casado, com um filho; eu era o adolescente despertando para sua primeira paixão, tremendo de desejo como tremera da primeira vez em que a beijara.
Conduzi-a até a cama. Tentou protestar, debilmente; mas desta vez eu não aceitaria recusas; e nem ela queria recusar, acho. De qualquer modo, deixou-se levar. Deitamo-nos. A velha cama, de ferro, estreita, rangia a cada movimento; começamos a rir. Ríamos às gargalhadas, ríamos tanto que as lágrimas nos vinham aos olhos. E então ficamos subitamente sérios; ela me olhou e puxou-me para si, e fizemos amor, suavemente a princípio, furiosamente depois; possuídos não apenas pela paixão, como também pela nostalgia de algo que não sabíamos bem o que era, mas pelo qual ansiávamos desesperadamente.
(...)
Não, de mim eu não queria falar. Para quê? Tudo que me tinha acontecido, tudo o que eu tinha feito não importava; todos aqueles anos correspondiam a uma espécie de existência suspensa, congelada, um longo intervalo entre momentos de real paixão. Ela me ensinara a amar, e me ensinara como tudo deve ser ensinado: sem esforço, por sua simples presença. Como um farol guia o barco perdido, assim me guiara... E agora que a tinha encontrado, não mais a abandonaria. E foi o que eu lhe disse: que pretendia ficar com ela para sempre."

Moacyr Scliar. Pra você eu conto (1990)

Foi com muita tristeza que recebi a notícia da morte deste escritor. Suas palavras simples conduziram meus primeiros passos na tentativa de compreender nossas atitudes. Nós, seres humanos, tão cegos às vezes. Tão imediatistas quase sempre. Não sabemos o que o tempo faz conosco, com nosso corpo e nossa alma. Entregar as aflições nas mãos do tempo não é tarefa das mais fáceis, mas é a única atitude possível para se viver um pouco mais levemente, mais livremente, mais amavelmente.

25 fevereiro 2011

TENÉIS QUE OÍRME

(...)
Parecían los hombres
enemigos,
pero la misma noche
los cubría
y era una sola claridad
la que los despertaba:
la claridad del mundo.

Yo entré en las casas cuando
comían en la mesa,

venían de las fábricas,
reían o lloraban.

Todos eran iguales.

Todos tenían ojos
hacia la luz, buscaban
los caminos.

Todos tenían boca,
cantaban
hacia la primavera.

Todos.

Por eso
yo busqué entre las uvas
y el viento
lo mejor de los hombres.

Ahora tenéis que oírme.

Pablo Neruda Las uvas y el viento

PUEDO escribir los versos más tristes esta noche.



PUEDO escribir los versos más tristes esta noche.

Escribir, por ejemplo: "La noche está estrellada,
y tiritan, azules, los astros, a lo lejos".

El viento de la noche gira en el cielo y canta.

Puedo escribir los versos más tristes esta noche.
Yo la quise, y a veces ella también me quiso.

En las noches como ésta la tuve entre mis brazos.
La besé tantas veces bajo el cielo infinito.

Ella me quiso, a veces yo también la quería.
Cómo no haber amado sus grandes ojos fijos.

Puedo escribir los versos más tristes esta noche.
Pensar que no la tengo. Sentir que la he perdido.

Oir la noche inmensa, más inmensa sin ella.
Y el verso cae al alma como al pasto el rocío.

Qué importa que mi amor no pudiera guardarla.
La noche está estrellada y ella no está conmigo.

Eso es todo. A lo lejos alguien canta. A lo lejos.
Mi alma no se contenta con haberla perdido.

Como para acercarla mi mirada la busca.
Mi corazón la busca, y ella no está conmigo.

La misma noche que hace blanquear los mismos árboles.
Nosotros, los de entonces, ya no somos los mismos.

Ya no la quiero, es cierto, pero cuánto la quise.
Mi voz buscaba el viento para tocar su oído.

De otro. Será de otro. Como antes de mis besos.
Su voz, su cuerpo claro. Sus ojos infinitos.

Ya no la quiero, es cierto, pero tal vez la quiero.
Es tan corto el amor, y es tan largo el olvido.

Porque en noches como ésta la tuve entre mis brazos,
mi alma no se contenta con haberla perdido.

Aunque éste sea el último dolor que ella me causa,
y éstos sean los últimos versos que yo le escribo.

Pablo Neruda. Veinte poemas de amor y una canción desesperada
Link do site da Universidade do Chile que contém uma antologia da obra de Neruda: http://www.neruda.uchile.cl/obra/obra2.htm

antes que seja tarde

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"na verdade, continuo sob a mesma condição: distraindo a verdade e enganando o coração... e retomo a porta aberta dos perigos."

apenas mais uma fotografia desbotada



meu olhar se deixa estar sobre a fotografia. contemplar sua imagem perdendo a cor, o brilho, o viço não faz mais tanta diferença. no início, meus olhos choravam, não entendiam o percurso natural até o fim. hoje, um nó na garganta se forma e depois se transforma. vira nada. ou qualquer coisa que eu ainda não sei o nome. mas não incomoda mais. ou incomoda de um jeito diferente, como quando esquecemos algo que não costumamos carregar.
na fotografia havia um sorriso, mãos dadas, céu e sol. e hoje, o que eu vejo são minhas mãos dadas ao vento e, como você desaparecesse, consigo ver através de sua imagem, aos poucos desbotada, a selva de pedras escondida. cada pedra guarda um encanto. e esse encanto é caro demais pra quem não sabe poupar as mãos de suas pontas.
meu olhar cansado se afasta do centro da fotografia. repousa no telhado que vai escurecendo aos poucos à meia-luz do crepúsculo até chegar a noite fechada. vou lembrando devagar o que é ser. não me apresso em ter respostas, imagens nítidas de mim. uma lágrima distraída cai. então eu levanto, molho meu rosto, ponho os óculos e vou tentar enxergar as coisas mais de perto, sem saber que mais perto nunca é dentro. enxergar as coisas mais de perto sempre será enxergar nada.
a fotografia desbota na gaveta enquanto meus olhos brincam de ver e meu coração finge entender todas as cores do mundo.

23 fevereiro 2011

Extraño

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O que eu sinto a respeito dos homens é estranho
É estranho como é frio
É estranho como eu perdi a fé
Éestranho como é estranho
Perguntar o nome

O que eu sinto a respeito de nós é estranho
É estranho como é triste
É estranho como olhar pra trás
É estranho como é estranho
Esquecer um nome

Eu amei e acho que algumas vezes
Ela também me amou
Só que o prazer é tão curto
Eu amei e acho que algumas vezes
Ela também me amou
Só que esquecimento é tão longo

O que penso a respeito de tudo é tão estranho
É estranho como é simples
É estranho como essa canção
É estranho como é estranho
Sussurrar um nome

Nenhum de Nós (1990)

A versão original de Extraño é um primor! Mas essa também tem seu encanto, principalmente pela repetição de "eu amei..." Principalmente? Sim. Eu explico o motivo da preferência: Numa das aulas de Teoria das Comunicações II do curso de Letras-UFPI(isso foi no início da década passada, quando a profa. Anecy ainda aterrorisava por lá...), no meio de um seminário, uma colega leu um poema de Pablo Neruda e (qual não foi minha surpresa!!??) lá estavam os versinhos mais lindos e verdadeiros sobre o amor: "Eu a amei e por vezes ela também me amou.(...)Ela amou-me, por vezes eu também a amava.(...) Já não a amo, é verdade, mas talvez a ame ainda. É tão curto o amor, tão longo o esquecimento." Já publiquei todo o poema recentemente, mas ainda não consegui descobrir em que livro ele está. Quem souber, por favor, deixe aqui essa referência e me fará muito feliz!

Meu mundo e nada mais

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Quando eu fui ferido
Vi tudo mudar
Das verdades
Que eu sabia...

Só sobraram restos
Que eu não esqueci
Toda aquela paz
Que eu tinha...

Eu que tinha tudo
Hoje estou mudo
Estou mudado
À meia-noite, à meia luz
Pensando!
Daria tudo, por um modo
De esquecer...

Eu queria tanto
Estar no escuro do meu quarto
À meia-noite, à meia luz
Sonhando!
Daria tudo, por meu mundo
E nada mais...

Não estou bem certo
Que ainda vou sorrir
Sem um travo de amargura...

Como ser mais livre
Como ser capaz
De enxergar um novo dia...

Guilherme Arantes (1976)

Letra linda,
Música linda,
Guitarra do Scandurra perfeita!!

21 fevereiro 2011

Carta a uma amiga distante



Amiga,

Quisera poder escrever as mais doces palavras e dirigi-las a você sem que lhe cause nenhum constrangimento, nenhuma dor a mais, além desta que você há tanto tempo está a sentir. Tenho acompanhado de perto essa montanha russa que são seus sentimentos: profundezas íngremes seguidas de loopings nauseantes. Aí você para, retoma o fôlego e decide voltar e repetir as acrobacias tão caras a seu estômago e a sua mente. Olho esse comportamento e me encho de vontade de ir aí pra perto, pegar você pelos ombros e dar uma boa sacudida. Ou gritar aos seus ouvidos bem alto, com toda a força dos meus pulmões. Pegar cada pálbebra sua com as unhas e abrir seus olhos, seus lindos olhinhos míopes. Mas não posso fazer isso e você sabe o motivo.

Mas hoje resolvi que falaria a você de qualquer jeito.

Primeiro: você precisa saber que não existem culpados. Se as coisas acontecem, elas acontecem e só. Se nada sai como planejamos é por que não dependiam somente de nós. Tudo o que envolve duas ou mais pessoas é imprevisível. E não pense que digo isso por que estou do outro lado. Saiba que estou do seu lado. O mesmíssimo lado.

Segundo: se não depende mais de nós, não adianta escrever e reescrever a mesma lamúria, o mesmo lamento, com as mesmas palavras apenas com ordem invertida. Veja além, perceba o quão egoístas nós somos, olhando-nos vaidosamente ao espelho, orgulhando-nos das nossas lágrimas, nos achando as maiores sofredoras do mundo, achando que ninguém nunca sofreu tanto sofrimento, que ninguém nunca chorou tanto choro, que nenhuma tristeza foi tão triste. Abre os olhos, amiga, o mundo é maior. E como você mesma diria, Deus é mais!

Terceiro: se alguém nos faz sofrer é por que nós deixamos isso acontecer. Isso de amor "conservador e progressista" não existe, bebê... Minha mãe sempre me diz o seguinte: o caminho só se faz quando os dois caminham juntos. Pare um pouco pra pensar: quem caminhava com você era a mesma pessoa com a qual você caminhava? A pergunta parece tola, mas você verá que faz todo o sentido!

Quarto: o que passou, realmente passou. E tudo passa e se repete debaixo do sol. Inútil querer entender, chorar por que não entende e condenar o mundo pela nossa incompreensão. Inútil mais ainda se ferir e machucar o próprio coração pensando em tudo aquilo que poderia ter sido e que não foi, como diria Bandeira. O que foi, foi. Somente o futuro está nas nossas mãos e ele depende do hoje, do agora. O que fizemos é de domínio do esquecimento. Cedo ou tarde ele chega.

Quinto (e não menos importante): viva, amiga. Deixe de olhar pra trás, de querer ter aquilo que você nunca teve. Olhe adiante! Repare no céu: veja quantas estrelas brilham e não precisam de você! Veja como as flores estão cada dia mais coloridas e não precisam de você para serem assim! Veja como as pessoas seguem banais, bobas, cotidianamente absorvidas pelos mais frugais afazeres. Ande pelo mundo de olhos e nariz abertos: prove novas cores, novos aromas, novos sabores... Conheça, permita-se conhecer a si própria! Retire um pouco a maquiagem e experimente a cara limpa. Permita-se errar mais uma vez.

E por último, leve o que escrevi em consideração. Não pense que quero saber mais do que me é permitido. Isso que escrevi, também estou tentando praticar. Não é fácil. Você bem sabe. Mas quem disse que viver é fácil? Não lembro de alguém já ter me prometido isso. Viver tem suas consequências e o amor é uma delas. Infelizmente, há muito amor desperdiçado por aí, mas eu prefiro acreditar que as ações do coração nunca são em vão. Apesar da péssima rima pobríssima, essa é a verdade. Mas quem disse que a verdade é bela sempre, mesmo quando há amor? Quem disse que a vida é bela sempre? Quem um dia disse isso, mentiu. E mentiu feio, amiga. E nós aprendemos apenas assim: apanhando na cara. No início dói. Mas depois a gente esquece, pra lembrar de vez em quando. Muito de vez em quando.

20 fevereiro 2011

Conclusões de Aninha



Estavam ali parados. Marido e mulher.
Esperavam o carro. E foi que veio aquela da roça
tímida, humilde, sofrida.
Contou que o fogo, lá longe, tinha queimado seu rancho,
e tudo que tinha dentro.
Estava ali no comércio pedindo um auxílio para levantar
novo rancho e comprar suas pobrezinhas.


O homem ouviu. Abriu a carteira tirou uma cédula,
entregou sem palavra.
A mulher ouviu. Perguntou, indagou, especulou, aconselhou,
se comoveu e disse que Nossa Senhora havia de ajudar
E não abriu a bolsa.
Qual dos dois ajudou mais?


Donde se infere que o homem ajuda sem participar
e a mulher participa sem ajudar.
Da mesma forma aquela sentença:
"A quem te pedir um peixe, dá uma vara de pescar."
Pensando bem, não só a vara de pescar, também a linhada,
o anzol, a chumbada, a isca, apontar um poço piscoso
e ensinar a paciência do pescador.
Você faria isso, Leitor?
Antes que tudo isso se fizesse
o desvalido não morreria de fome?
Conclusão:
Na prática, a teoria é outra.

Cora Coralina
http://www.releituras.com/coracoralina_menu.asp

Arte Poética



Que el verso sea como una llave
que abra mil puertas.
Una hoja cae; algo pasa volando;
cuanto miren los ojos creado sea,
y el alma del oyente quede temblando.

Inventa mundos nuevos y cuida tu palabra;
el adjetivo, cuando no da vida, mata.

Estamos en el ciclo de los nervios.
El músculo cuelga,
como recuerdo en los museos;
mas no por eso tenemos menos fuerza:
el vigor verdadero
reside en la cabeza.

Por qué cantáis la rosa, ¡oh, Poetas!
Hacedla florecer en el poema.

Sólo para nosotros
viven todas las cosas bajo el Sol.

El poeta es un pequeño Dios.

HUIDOBRO, Vicente. Antología poética. Org. de Hugo Montes. Madrid: Castalia, 1990.

a dança



pousas assim tão leve
a mão no meu quadril
e me conduzes através da melodia.
teus passos cadenciados
me ajudam a esquecer os meus,
desenfreados.

e vou me deixando guiar:
às vezes olhando pra trás,
aquele medo de cair;
às vezes olhando
o castanho dos teus olhos,
o âmbar que guarda fielmente
as esperanças do porvir.

18 fevereiro 2011

Le premier bonheur du jour - Françoise Hardy & Sacha Distel

video

Le premier bonheur du jour
C’est un ruban de soleil
Qui s’enroule sur ta main
Et caresse mon épaule.

C’est la souffle de la mer
Et la plage qui attend
C’est l’oiseau qui a chantée
Sur la branche du figuier.

La premier chagrin du jour
C’est la porte qui se ferme
La voiture qui s’en va
Le silence qui s'instale.

Mais bien vite tu reviens
Et ma vie reprend son cours
Le dernier bonheur du jour
C’est la lampe qui s’éteint.

Françoise Hardy (1963)

Linda, linda, linda...

17 fevereiro 2011

ego

já fui anjo caído
na terra das auréolas.
quis gritar
onde o silêncio era ordem.
olhei a fundo
a superfície negra, camuflada.

já senti raiva
por meu irmão, meu igual.
condenei, não avaliei,
não amei o bastante meu semelhante.
repeti impropérios,
me feri nas minhas verdades.

construi poços rasos dentro de mim,
edifiquei muros ao meu redor,
montei barricadas, uma proteção.
instalei guarda contra mim,
abafei gritos de vitória,
não acenei a bandeira branca.

e fui deixando passar meu melhor:
aquilo que não conheço
e que floresce, apesar do muro,
apesar do fosso cultivado com esmero.
apesar de mim,
as plantas crescem no jardim.

apesar do mundo, apesar de tudo,
as flores brotam do asfalto.
atrás do muro caído
alguém reclama abrigo, abraço, conforto.
e não sou só eu,
não apenas eu...

o mundo é maior.
não cabe nas pontas de meus dedos.
o mundo não cabe nem no meu coração.
e alguém já disse isso.
e as coisas não mudaram...
"nada de novo debaixo do sol."

já fiz tudo errado -
e nem posso dizer nunca mais.
já disse tudo, até o que não podia.
atrás dos olhos vermelhos
alguém reclama abrigo, abraço, conforto.
e não sou só eu,
não apenas eu...

15 fevereiro 2011



meu olho
insiste
no papel em branco.

em branco, meu olho.
no papel insiste
o branco do meu olho.

por dentro do negro
por fora do claro
do meu cego olho.

meu branco cego
insiste no olho do papel...
em branco.

haicai nervoso

páginas lacradas
dedos nervosos
páginas rasgadas

Alegria



Eu vou te dar alegria
Eu vou parar de chorar
Eu vou raiar o novo dia
Eu vou sair do fundo do mar
Eu vou sair da beira do abismo
E dançar e dançar e dançar
A tristeza é uma forma de egoísmo
Eu vou te dar eu vou te dar eu vou...

Hoje tem goiabada,
Hoje tem marmelada,
Hoje tem palhaçada,
O circo chegou.

Hoje tem batucada,
Hoje tem gargalhada,
Riso e risada
Do meu amor

Arnaldo Antunes

14 fevereiro 2011

A propósito do dia dos namorados, algo sobre o fim das relações amorosas

"(...)se é verdade que não podemos ser responsáveis pela felicidade dos outros, então também não é menos verdade que, mesmo involuntariamente, podemos ser responsáveis pela infelicidade dos outros. Quero eu dizer com isto que a nossa felicidade ou infelicidade depende essencialmente de nós e dos outros, a não ser que queiramos ser uns eremitas, anacoretas, solitários solteirões. Mas não vale a pena desesperar, porque podemos sempre voltar a ser felizes, é claro, com a mesma ou com outra pessoa qualquer."

Jaime Bulhosa

Diretamente da Pó dos Livros: http://livrariapodoslivros.blogspot.com/2011/02/proposito-do-dia-dos-namorados-algo.html

11 fevereiro 2011

eu sei, mas não devia...



Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.
A gente se acostuma a morar em apartamento de fundos
e a não ter outra vista que não seja as janelas ao redor.

E porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora.
E porque não olha para fora logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas.
E porque não abre as cortinas logo se acostuma acender mais cedo a luz.
E a medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora.
A tomar café correndo porque está atrasado.
A ler jornal no ônibus porque não pode perder tempo da viagem.
A comer sanduíche porque não dá pra almoçar.
A sair do trabalho porque já é noite.
A cochilar no ônibus porque está cansado.
A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra.
E aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja número para os mortos.
E aceitando os números aceita não acreditar nas negociações de paz,
aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir.
A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta.
A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.
A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita.
A lutar para ganhar o dinheiro com que pagar.

E a ganhar menos do que precisa.
E a fazer filas para pagar.
E a pagar mais do que as coisas valem.
E a saber que cada vez pagará mais.
E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas que se cobra.

A gente se acostuma a andar na rua e a ver cartazes.
A abrir as revistas e a ver anúncios.
A ligar a televisão e a ver comerciais.
A ir ao cinema e engolir publicidade.
A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.
A gente se acostuma à poluição.

As salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro.
A luz artificial de ligeiro tremor.
Ao choque que os olhos levam na luz natural.
Às bactérias da água potável.
A contaminação da água do mar.
A lenta morte dos rios.

Se acostuma a não ouvir o passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães,
a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.
A gente se acostuma a coisas demais para não sofrer.

Em doses pequenas, tentando não perceber, vai se afastando uma dor aqui,
um ressentimento ali, uma revolta acolá.
Se o cinema está cheio a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço.
Se a praia está contaminada a gente só molha os pés e sua no resto do corpo.

Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana.
E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo
e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.

A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele.
Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se
da faca e da baioneta, para poupar o peito.
A gente se acostuma para poupar a vida que aos poucos se gasta e, que gasta,
de tanto acostumar, se perde de si mesma.

Marina Colasanti

fonte: http://www.astormentas.com/colasanti.htm

10 fevereiro 2011

Andrea Doria

Essa música da Legião Urbana, presente no Dois (1986), me faz sentir acompanhada na solidão.



Este da pintura é Andrea Doria, almirante genovês que viveu em pleno Renascimento (1466-1560). Personificando Netuno, deus romano dos mares, a tela é uma homenagem do pintor florentino Agnolo Bronzino (1503-1572), forma de exaltar os dotes marítimos de Doria.

Mas a letra da canção de Renato não comenta grandes feitos do nosso historicamente notável Doria. A letra conta decepções, frustrações e um desejo de não mudar, apesar das dores. Retomando a metáfora náutica tão típica no século XVII, somos apenas frágeis baixeis humanos, expostos ao sabor dos ventos e à bravura dos mares.

Às vezes parecia
Que de tanto acreditar
Em tudo que achávamos
Tão certo...

Teríamos o mundo inteiro
E até um pouco mais
Faríamos floresta do deserto
E diamantes de pedaços
De vidro...

Mas percebo agora
Que o teu sorriso
Vem diferente
Quase parecendo te ferir...

Não queria te ver assim
Quero a tua força
Como era antes
O que tens é só teu
E de nada vale fugir
E não sentir mais nada...

Às vezes parecia
Que era só improvisar
E o mundo então seria
Um livro aberto...

Até chegar o dia
Em que tentamos ter demais
Vendendo fácil
O que não tinha preço...

Eu sei é tudo sem sentido
Quero ter alguém
Com quem conversar
Alguém que depois
Não use o que eu disse
Contra mim...

Nada mais vai me ferir
É que eu já me acostumei
Com a estrada errada
Que eu segui
E com a minha própria lei...

Tenho o que ficou
E tenho sorte até demais
Como sei que tens também...

Trecho de entrevista com Renato Russo e o relato de composição da letra:

"(...) a música é um diálogo entre uma menina que era cheia de vida, alegria e planos e que sempre me deu força e que nesse instante é quem está derrubada. Aí então sou eu falando para ela. Tem coisas que fala para mim e tem coisas que falo para ela: "Às vezes parecia que de tanto acreditar em tudo que achávamos tão certo/ Teríamos o mundo inteiro e até um pouco mais". É aquela coisa dos planos, o mundo está horrível mas nós vamos conseguir, vamos juntos etc. Aí no meio do caminho: "Mas percebo agora que o seu sorriso vem diferente/ Quase parecendo te ferir". Quando você entra no mundo adulto se não tomar cuidado deixa entrar o cinismo, fica "jaded".

E a música é uma conversa em cima disso: "Olha, realmente a coisa é difícil, mas não é por aí". Termina justamente falando: "A gente tem toda a sorte do mundo", sem especificar, que bem ou mal a gente não é favelado, não morre de fome. "Sei que tenho sorte, como sei que tens também". Uma das grandes temáticas das letras é exatamente essa, só que são sempre pequenas situações, colocadas de um certo jeito que a pessoa interpreta de outra maneira. Sempre tem uma historinha, uma mitologia."

fonte: http://ainagaki.sites.uol.com.br/textos/rrusso.htm

09 fevereiro 2011

sobre lembranças



uma lembrança pousa na lapela ou na aba do chapéu. ela pesa. então você passa a mão rudemente, como forma de se livrar do peso, do incômodo que gera a lembrança. mas ela não sai, não cai. e isso te faz pensar em parar e sacudir a lapela, tirar o chapéu. mas, no fundo, tu sabes que nada fará esse peso sair de tuas mãos, de tua cabeça e de teu coração. o que resta a ti é caminhar com os pés acorrentados, as mãos ocupadas pelo vácuo. o que resta é continuar a caminhar imaginando ser a lembrança uma rosa agarrada ao teu chapéu ou à tua lapela. e, como toda rosa, essa que aí vai indolente, surda ao teu desespero, será lançada ao chão, naturalmente, cumprindo um ciclo banal, trivial.
talvez a rosa morra no teu chapéu, talvez faça de tua lapela o túmulo onde repousará. restará a ti, no início, o pranto que visita os olhos numa noite profunda. depois, soluços abafados, lágrimas secas, será apenas um lugar vazio, sem mancha de lembrança ou rosa. sem espinhos. sem perfume. teu chapéu voltará a ser um chapéu. tua lapela voltará a ser uma lapela. e teu peito, apenas teu peito.

uma lágrima não pode ser apenas uma lágrima



às vezes, chorar é a melhor solução:
lubrifica os olhos,
limpa a pele à base de água e sal,
diminui as toneladas que a alma carrega.

uma lágrima não pode ser apenas uma lágrima.
ela é o sumo da fruta espremida,
ela é a gota de sangue de uma ferida.
a lágrima é o que nos torna um pouco
menos rudes, um pouco mais humanos.

04 fevereiro 2011



de onde vem tua força?
seria tua fé as colunas
desse monumento?

de onde vem tua força?
ou ela não vem,
acontece em teu peito, simplesmente?

de onde vem tua força
gritada pelos teus olhos
docemente castanhos?

se tamanha fortaleza
ser doada pudesse às almas
fracas, feitas de lágrimas,

eu seria a primeira
a tecer petições a meu favor,
como forma de me salvar de mim.

mas não há como doar essência,
alma, espírito, coração...
um abraço me basta.

um abraço me basta
para encostar meu peito ao teu
e sentir tua fortaleza pulsando
...
pulsando
...
pulsando
...

01 fevereiro 2011

mensageiro dos ventos


meu mensageiro dos ventos
anuncia a tempestade se formando lá fora.
vento e muita água
afogarão os duendes do meu jardim,
arrancarão, pela raiz,
as plantas recém-nascidas
e levarão o adubo diluido
que escoará ao longo das ruas.

eu poderia suspender a caneta
e os pensamentos
e ir socorrer meu pobre jardim escurecido.
mas eu sei que do improvável
é que surgem as mais doces verdades
com sabor de trigo fresco nas manhãs,
luz matinal sobre a mesa
e brisa leve ondulando a toalha branca de renda
tingida pelo arco íris filho da tempestade
anunciada pelo meu mensageiro dos ventos.


ontem, sob o negro silêncio da noite, cresceram plantas na parede do meu quarto. o lodo firmou-se em camada por toda parte. posso ver agora as raízes alongando-se e firmando-se por entre os vincos. vou seguindo com os olhos o verde pisado crescer pelo chão e formar marcas digitais. da sombra surgem o frio e a vontade de chorar pelo passado ensolarado.
essas plantas que crescem na escuridão do meu quarto procuram desastrosamente o meu pequeno sol apagado. essas plantas suicidas crescem para dentro e não buscam o grande sol verdadeiro. sou vida e morte desses seres repletos de esperança no nada.


sufoquei um pássaro em minhas mãos.
a brisa de suas asas
marcou sulcos no coração.


para não morrer de ódio:
vaze do dedo indicador
gotículas de sangue
por dia.

para não morrer de dor:
vaze os olhos.