"o resto é mar. é tudo o que eu não sei contar..."

23 março 2011

gerânio

letra e música lindas!
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e agora a história por trás da composição:
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A letra: (Composição: Nando Reis, Marisa Monte, Jennifer Gomes)

Ela que descobriu o mundo
E sabe vê-lo do ângulo mais bonito
Canta e melhora a vida, descobre sensações diferentes
Sente e vive intensamente
Aprende e continua aprendiz
Ensina muito e reboca os maiores amigos
Faz dança, cozinha, se balança na rede
E adormece em frente à bela vista
Despreocupa-se e pensa no essencial
Dorme e acorda
Conhece a Índia e o Japão e a dança haitiana
Fala inglês e canta em inglês
Escreve diários, pinta lâmpadas, troca pneus
E lava os cabelos com shampoos diferentes
Faz amor e anda de bicicleta dentro de casa
E corre quando quer
Cozinha tudo, costura, já fez boneco de pano
E brinco para a orelha, bolsa de couro, namora e é amiga
Tem computador e rede, rede para dois
Gosta de eletrodomésticos, toca piano e violão
Procura o amor e quer ser mãe, tem lençóis e tem irmãs
Vai ao teatro, mas prefere cinema
Sabe espantar o tédio
Cortar cabelo e nadar no mar
Tédio não passa nem por perto, é infinita, sensível, linda
Estou com saudades e penso tanto em você
Despreocupa-se e pensa no essencial
Dorme e acorda.

e isso é um pouco de mim também...

22 março 2011

primeiro mandamento do amor para sempre

ser de quem é meu;
amar a quem me ama;
querer quem me quer.*




*sem ressalvas, nem mas, nem porém.

quanto amor

que contra-senso
essa vida de bom senso.
eu aqui pensando nela
e ela lá pensando nele.
e onde está o bom senso?
talvez esquecido
feito papel no bolso da calça.
talvez afogado junto com a água suja,
na pia de louças por lavar.
talvez jogado debaixo do tapete
ou atrás da porta.
e onde está o bom senso?
eu aqui pensando nela
e ela lá pensando nele.

21 março 2011

é doce ser azul

é doce ser azul.
não obstante a palidez dos desmaios,
não se cansar dos fulminantes desejos.
e guardar na unha o segredo dos vultos,
e o perfume de nuvem solta.

é doce ser azul.
e velar o pasto tranquilo de beijos
guardados para a quimera em flor.
para além do bem e do mal,
amar as ruínas do inconstante ser.

é doce ser azul.
e se deixar guiar por cores várias,
e se deixar cegar pela lucidez.
e se deixar levar pelo azul do azul do azul...
e parir azul.
é doce ser azul.

La branche



Assim como na tela do Chagall, sou um galho.
De vez em quando, algum pássaro pousa por aqui
e me conta coisas de outros mundos...
e eu conto da felicidade que é ter raízes,
dar frutos e sombra.
Sei ser um bom galho.

é o que acontece sempre a essas boas almas românticas



(...) É o que acontece sempre a essas boas almas românticas. Vestem as pessoas com penas de pavão real, até o último instante contam com o bem e não com o mal, ainda que imaginem o reverso da medalha, por nada deste mundo dizem de antemão a palavra justa; só o terem de pensar nisso lhes custa; diante da verdade tapam os olhos com as mãos, até que o homem que imaginaram aparece e é ele próprio quem lhes abre os olhos.(...)

Dostoiévski. Crime e Castigo

20 março 2011

doce conformismo? ou da derrocada da poesia para a história

As coisas são como são
E não como deveriam ser
Penar por elas é em vão
E ultrapassa o próprio viver.

Cláudio Carvalho Fernandes
Ela não sabia chupar minha língua.
Que moça mais contida, a minha.
Ela sugava meus lábios até nem mais poder.
Mas não sabia chupar minha língua.

Quando seus lábios eram dos meus,
Os olhos semi-abertos flagravam a língua
Escapando da boca, a lamber a saliva
Daquele beijo sem chupões de língua.

Quando ela me puxava pelo braço,
Eu sabia que ela ia se pendurar em meu pescoço
E ia me dar mais um beijo sem chupões de língua.

Quando nos beijamos pela última vez,
Ela ainda quis realizar o desejo tão banal, sem saber
Que eu amava aquele beijo, mesmo sem chupões de língua.

* Esse texto deve ter uns 4 anos... Apesar do tema "erótico", acho tão singelo...

18 março 2011

sobre coisas e pessoas

as coisas são o que são. as pessoas não...

resposta inconsequente

- Não, a realidade não é isso que você vê. Você bem sabe...

17 março 2011

Círculo vicioso




Bailando no ar, gemia inquieto vaga-lume:
-"Quem me dera que fosse aquela loura estrela,
que arde no eterno azul, como uma eterna vela!"
Mas a estrela, fitando a lua, com ciúme:

-"Pudesse eu copiar o transparente lume,
que, da grega coluna à gótica janela,
contemplou, suspirosa, a fronte amada e bela!"
Mas a lua, fitando o sol, com azedume:

-"Mísera! tivesse eu aquela enorme, aquela
claridade imortal, que toda a luz resume!"
Mas o sol, inclinando a rútila capela:

-"Pesa-me esta brilhante auréola de nume...
Enfara-me esta azul e desmedida umbela...
Por que não nasci eu um simples vaga-lume?"

Machado de Assis

o que me dá mais prazer



lokaz-tirinhas

retirado de: http://www.jacarebanguela.com.br/

essa é minha tirinha! rsrsrsr e minha trilha sonora "ilegal, imoral ou engorda"!!!

16 março 2011

sobre a dor

o cigarro não suprime minha dor;
a cachaça não suprime minha dor;
todos os pós e pedras não suprimem minha dor;
a erva mais fina e daninha não suprime minha dor;
as drogas artificiais forjadas pela medicina
andam longe de suprimir minha dor;
a fé não suprime minha dor...

...mas, quem disse que quero suprimir minha dor?
quando bebo da água renovada que brota de teus olhos
não sinto o sal entranhado em sua substância,
sinto apenas a quentura que nasce do teu corpo
e nela construo minha casa, meu lar.

tiro meus sapatos e deito em tua cama,
confortado pelo calor que do teu corpo surge.
algo de imenso cresce em meu peito e sinto
cada vez mais perto de mim teu amplo amor

por coisas sem explicação e pessoas loucas.
tua sina: amar o perdido. o esquecido.
parece ser mais vivo sofrer, parece ser mais quente
se deixar estar e se deixar levar, assim tão imprudentemente.

te dou a chave do meu mundo para que faças tua casa
em mim, no meu peito ainda fraco de menino.
te dou meus mais longos olhares, minha mão mais suave,
pela quentura de uma lágrima tua caindo em minha face.

10 março 2011

o artesão de sonhos

ele me olhava ávido pelo presente e eu só sabia entregar um olhar distante. suas mãos seguravam as minhas com força, como se me resguardasse de um tufão e seus braços me envolviam com tanto calor que frio jamais passou entre nós. ele me resguardava do gelo e eu me protegia de nós. suas mãos fabricavam um cotidiano colorido, arranjado às pressas para nos contentar e fazer brotar risos de nossas bocas e esperanças em meu peito árido.
toda reconstrução demanda esforço, tempo e paciência e ele, insistente, trabalhava dia e noite na reedificação dos meus sonhos, dos meus desejos e anseios. ele não se cansava e não existia barreira ou tempo ruim que o fizesse parar, recuar. ele seguia me guiando pelos destroços, carregando o que podia ser aproveitado, o que era importante. ele nunca se ocupou de inutilidades, exceto daquela que ele carregava pela mão. mas ele amava e o amor protege o corpo contra qualquer dor e, apesar do peito desprotegido, ele não se feria por que ele sabia o que queria.
e assim nós seguíamos pela seara queimada dos meus amores: ele regando toda a plantação estorricada, lançando sementes ao chão, cultivando o pequeno solo infértil com o cuidado de um artesão que sabe que molda o barro para a última peça e, exausto, adormece ao fim do dia para recomeçar outro dia, e outra lida.
ele não deixava de me olhar, não soltava minha mão, não desistia de me guiar e continuava a encarar o fogo, a aridez, os destroços e minha descrença com as únicas armas das quais dispunha: esperança, esforço e paciência.

apesar de lágrimas e lamentos

eu poderia falar mais uma vez de mim. poderia tecer elegias sobre o seu adeus. poderia mesmo lembrar com ternura nossos doces momentos e derramar sobre eles meu pranto de saudade. poderia deixar meu tempo escorrer pelas mãos ao chorar por aquele dia cinza, obscuro. poderia lamentar minha falta de tato e me pintar culpada, carrasca. poderia, inclusive, manchar minhas mãos com o sangue do teu peito inerte aos meus apelos, frio em frente ao meu calor.
eu poderia fazer isso e um pouco mais. mas minhas mãos estão cansadas de sustentar um peso imenso e que nem me é de responsabilidade. eu poderia, como mártir do sentimentos desperdiçados, hastear a bandeira do amor em vão e me orgulhar de morrer em combate. eu poderia ser e fazer tudo isso. mas isso tudo não me faria melhor do que ninguém, nem traria conforto às minhas mãos cansadas, nem você de volta. e a volta, se é que existe plenamente, não seria a solução para meus pormenores, minhas singularidades, minhas carências, meus afetos. e tudo isso que eu poderia ter feito não significaria nada e tantas palavras seriam uma simples página em branco que o tempo trata de empalidecer e corroer, apesar de lágrimas e lamentos.

04 março 2011

uma balzaquiana...



"Hay que endurecer, pero sin perder la ternura jamás" - a gente tenta...

01 março 2011

a vida é sonho

"Eu sonho que estou aqui
de correntes carregado
e sonhei que noutro estado
mais lisongeiro me vi.
Que é a vida? Um frenesi.
Que é a vida? Uma ilusão,
uma sombra, uma ficção;
o maior bem é tristonho,
porque toda a vida é sonho,
e os sonhos, sonhos são."

Trecho da fala final do príncipe Segismundo, personagem principal da peça A vida é sonho, de Calderón de la Barca(1600-1681).
quem diz que carrega uma dor
não sabe o que é sofrer.
dor não se carrega a lugar algum.
ela nos leva no seu colo de mãe,
acalenta na noite fria,
ouve os lamentos,
vela a angústia.
dor, sendo dor, não abandona seu filho.
consola no relento,
acompanha no porre,
deixa marcas nas mãos.
dor, a dor, de torcer entranhas
não se deixa tocar.
toda ela povoa o ser
e o carrega por onde for.