"o resto é mar. é tudo o que eu não sei contar..."

29 novembro 2011

Elegia a José

Quando você se foi
as raízes daquele lar
mudaram de rumo:
a laranjeira murchou;
dos seus galhos apenas
uma parca sombra aproveitada
pelos cães que rondam
famintos o aposento que era seu.
Como era bom ver a laranjeira em flor:
grande, robusta, verde, carregada.

Desde quando você se foi
os bichos vêm morrendo à míngua,
de fome, de tristeza e do pior mal:
o descaso. As vacas exibem
seus couros e ossos languidamente
pela caatinga vermelha do inverno.
E como era bom ver Jaibara e suas crias:
gordas, viçosas, imponentes, prenhes de vida.

Quando você se foi
as terras pelas quais você trabalhou
ficaram minúsculas.
Os frutos do ventre da sua esposa
dilapidaram ferozmente todo seu resquício.
E todo aquele chão que abrigou sua família
já não leva mais o nome rocha, tão seu.
Era bom ver um pouco de nós ali.

Quando você se foi
a pobreza devastou cada um de nós.
E antes fosse a pobreza de vinténs,
que estes se vão, mas podem (sempre podem) voltar.
O que nos assolou foi uma pobreza tamanha
de espírito, de caráter.
A mesquinhez corroeu nossos melhores atos,
os mais enobrecedores sentimentos.

Desde que você se foi
percebemos como tudo era melhor, mais fácil
menos doloroso, menos dificultoso.
Percebemos que não sabíamos nada:
o valor da Laranjeira em flor,
o valor da Jaibara e suas crias,
O valor do nosso lar
o valor da nossa terra, rocha,
tão dessemelhante a nós.
Mas isso tudo eu só pude saber hoje:
Depois que você se foi.

20 novembro 2011

Remembranças



Olho o céu sem lua durante toda a noite
e nenhuma estrela me distrai.
Tento lembrar um dia, uma data
e o que me ocorre são fragmentos de memória,
pequenas peças de um imenso quebra-cabeças.
Então, preencho com sonhos, impressões,
desejos que eu não sei se foram realizados,
as lacunas que se desenham na memória minha.
E me pergunto: é isso o que fica?
Um ponto branco no breu da lembrança?
Percebo o céu mais uma vez
e me vejo uma estrela:
brilho intensamente antes de apagar,
e viro lembrança nos olhos de quem me viu.

Se eu quiser falar com Deus

Se eu fosse um padre

Mário Quintana

Se eu fosse um padre, eu, nos meus sermões,
não falaria em Deus nem no Pecado
— muito menos no Anjo Rebelado
e os encantos das suas seduções,

não citaria santos e profetas:
nada das suas celestiais promessas
ou das suas terríveis maldições...
Se eu fosse um padre eu citaria os poetas,

Rezaria seus versos, os mais belos,
desses que desde a infância me embalaram
e quem me dera que alguns fossem meus!

Porque a poesia purifica a alma
...e um belo poema — ainda que de Deus se aparte —
um belo poema sempre leva a Deus!


Texto extraído do livro "Nova Antologia Poética", Editora Globo - São Paulo, 1998, pág. 105. video

17 novembro 2011

A ponte



Entre a ponte e a terra firme
penso suspensa, distante, parada.
Não sei se atravesso e me faço brilhar o olho,
refletindo as virgens descobertas.
Ou se fico e me apoio na certeza chã,
que me ampara e me protege de mim
e dos sonhos que me esperam.

Entre a ponte a terra firme
existem cores, ventos e perfumes
outros que minha mente teme conhecer.
Mas sigo, apesar da dor de deixar
minhas claras certezas. Apesar do medo
de não encontrar o que quis. Apesar
de mim, atravesso a ponte que me mata.

E me renasce. A ponte, essa, dolorosa,
me atravessa e eu a ela. E somos uma:
Prenhe de dúvidas, incertezas
e sem convicção alguma sobre a escolha.
Posso voltar, posso seguir ou ficar
no meio do caminho. Sem pedra.
As pontes se cruzam e na travessia
o que vale é não se deixar levar.

31 agosto 2011

Bela



depois que fazemos amor, eu gosto de tocar o pescoço suado, envolvido pela sua imensa cabeleira. é uma bela mulher. não a mais bela, mas é minha nessa cama, nua, adormecida. eu poderia passar toda a noite inteira conduzindo meus dedos por entre todos aqueles sinais. beijava um por um e sentia o perfume quente e forte: minha saliva na sua pele forma nossa fragrância. seus fios espalhados pela cama, cuido em colhê-los todos para formar de seus cachos minha fortuna.
ela dorme enquanto eu velo. é bom perceber seu corpo em repouso, depois de vê-lo em tão ávidos movimentos. seus pequeninos pés repousados sobre a cama caminhavam até mim há poucos minutos e se erguiam no beijo que ela me dava encostada à parede. suas pernas, seus braços morenos me envolviam em seu calor. dos seus lábios, melodias se transfiguravam e eu via nossas cores, nossos sons misturados. ela era minha e era bela.
seu ventre agora guarda meu futuro e, dentro dele, nossa vida. sou dela e trago em meu pulso a força da qual ela precisa para gestar-nos.

a morte não dói

a morte dói mais nos vivos.
nós, ainda tão vivos,
nós, ainda simples corpo,
nós amamos a alma
ou o que dela resta na lembrança.
e insistimos em sentir pena
de quem partiu,
e insistimos em chorar copiosamente
sobre cada túmulo recém-fechado,
e insistimos no preto,
um luto anunciado que revela bem menos
do que, de fato, é.

a morte nem dói.
nós ainda não sabemos.
mas a morte não dói.

12 agosto 2011



a prata lunar derramada sobre a rua
não me traz a saudade de outros tempos.
não me fala coisas de amor, nem de dor.
a lua banha a rua de prata e só.

02 julho 2011

sobre a certeza II



para Nero

se a loucura, um dia,
dominasse a mim e enchesse
minha casa com sua certeza
e, plena e prenhe do desconhecido
eu vivesse, eu saberia o que é ter
o mundo em minhas mãos.
e erraria o mesmo erro, soltando-o
numa grande fogueira.

sobre a certeza



certezas nunca povoaram minha mente.
essa certeza pura, límpida,
jamais me contagiou.
essa certeza divina, angelical,
dificilmente me acolheria
antes do desfiladeiro.
essa certeza cristã e superior
não abarcaria meu desejo
por coisas e criaturas menores,
ínfimas em sua existência.
a certeza só existe para os loucos
e para as traças.

imagem: Alegoria do Triunfo de Vênus de Angelo Bronzino.

13 junho 2011

papinho inconsequente

- Ela me disse isso.
- Não acredito. Logo ela?
- Tô dizendo... E ainda me disse mais...
- Não quero saber mais. Ela perdeu meu respeito.
- Mas você nunca a respeitou!
- Pois é, mas antes eu não tinha motivos.

31 maio 2011

deus



como as árvores
que se erguem para o céu
e abrem seus galhos
num longo e permanente abraço,
ergo-me em direção
ao fluxo desconhecido
que brilha
e me chama ao alto.

20 maio 2011

carta aos professores

para Amanda Gurgel

O mundo não cabe nas minhas mãos. Nem mesmo o país, ou meu estado cabem nas minhas mãos. Talvez, se eu me multiplicasse - miraculosamente - minha cidade coubesse em minhas mãos. Mas, sendo uma, o que me resta é minha casa e a profissão que escolhi pra mim. Vejo estudiosos a discutir métodos, técnicas, teorias que fogem às cores reais dessa tela cansada da educação. Vejo nossos dirigentes perdidos em sua tarefa de solucionar tais questões. E me vejo de mãos atadas, solta, largada, com a missão
de salvar o futuro, enquanto meu presente perece todo dia. Não foi essa missão que escolhi. Não basta apenas dom, vontade... Não basta amor pela profissão... Professor é gente com necessidades, anseios, desejos... e amor: aos livros, aos estudos, aos alunos. Mas não apenas isso. A gente quer viver, não apenas sobreviver. A gente quer sonhar e poder realizar e não apenas envelhecer sem ver outros sóis. A gente quer ter esperança de fazer acontecer e não apenas tê-la e fim. A gente quer viver e ser professor.

09 maio 2011

eu não sou da sua rua



Eu não sou da sua rua,
Não sou o seu vizinho.
Eu moro muito longe, sozinho.
Estou aqui de passagem.

Eu não sou da sua rua,
Eu não falo a sua língua,
Minha vida é diferente da sua.
Estou aqui de passagem.
Esse mundo não é meu,
esse mundo não é seu.

(Arnaldo Antunes e Branco Melo)

02 maio 2011



se-pa-rar:
esperar para sarar

recado



Olha, deixa eu te dizer:
nada há no mundo que me possa compreender.
exceto as rimas pobres que teimo em compor
para recompor meu prazer.

Olha, deixa eu te mostrar:
tolice querer imaginar
minhas faltas, minhas exigências
e querer me compensar os desejos negados.

Olha, o melhor pra ti
é ir viver nesse mundo novo,
cheirando a leite,
e me deixar aqui.

cheia de palavras velhas,
de velhas vontades,
de velhos sonhos.
cheia de mim. toda repleta em mim.

sem ânsia por rima ou melodia.
contente e satisfeita com minha pequenez,
com minha estreiteza, meu egoísmo.
não quero compreender.

e se o castigo for a incompreensão,
que venha o troco na mesma moeda.
chorar não vou, nem lamentar.
olha, isso aqui sou eu.

foste tu quem pediste pra mostrar.

01 maio 2011

1o de maio

trabalho
serviço
emprego
ocupação
...

no dia do trabalho, mais trabalho - não importa que nome tenha!
e não importa que se comemore,
que se manifestem os trabalhadores!
tudo sempre foi assim: formigas carregando o osso do descontentamento.

pequeno conto trágico



um rosto sisudo olha pela janela o cortejo de momo passar e pensa como seria o carnaval sem cores, sem festa nem fantasia. e aquela barulheira toda não existiria e sua rua não seria suja com confetes e serpentinas e plumas e paetês.

o rosto sisudo não sabia que vivia em permanente quarta-feira de cinzas.

29 abril 2011

fosso



"Que poder teria lançado esta luz nos olhos tristes e sonhadores desta mocinha? Quem fez subir o sangue às suas faces pálidas e murchas, quem fez com que o seu rosto suave mostre agora uma tal paixão? Por que o seu peito arfa? Quem foi que, assim tão de repente, trouxe força e vida e beleza ao rosto da pobre menina, cujo sorriso suave brilha agora e se transforma num riso ardente?" E olhamos à nossa volta, procuramos alguém e começamos a perguntar e a adivinhar... Mas esse momento é passageiro e talvez no dia seguinte voltemos a encontrar o mesmo lânguido olhar anterior, a ver de novo o pálido rosto e a mesma indolência e simplicidade de movimentos, e até talvez alguma coisa nova, uma espécie de desgosto, como sinal de arrependimento e de enfado por aquele breve instante de alegre animação... E então lastimamos que a beleza tenha desaparecido tão breve e irrevogavelmente, que tenha brilhado diante dos nossos olhos com uma luz tão falsa e enganadora... tristeza por não termos chegado sequer a tomar-lhe o gosto..."

Trecho da obra Noites Brancas(1848), de Fiódor Dostoiévski.
Imagem: La Nièce du peintre Assisse(1932), de André Durain.

18 abril 2011

O quase é tão cheio de tudo

Aquele que não foi amado é o que mais ama.

(...) Ai, como dói quem espera amar. Quem dedica uma vida à disciplina da paciência, torcendo para o sexo melhorar o casamento, torcendo para o casamento melhorar o sexo, torcendo para que o marido não fique bêbado ao menos uma vez, torcendo para que a esposa não reclame ao menos uma vez, dormindo e esquecendo a tristeza, acordando e repondo a esperança, aqueles que resistem e talvez envelheçam sem completar seus sonhos, que respeitam as pequenas alegrias porque podem ser as únicas, que não decidiram se diminuem a expectativa para sair da solidão ou aumentam as exigências para justificá-la.


Como eu amo quem se importa em amar, apesar de tudo. Apesar de tudo. (...)

Fabrício Carpinejar

16 abril 2011

Ecclesiastes de Salamam - Capitolo III



1. Todallas cousas tem seu çerto tempo, e todas passam debaixo do çeo per seus espaços.
2. Tempo de naçer, e tempo de morrer. Tempo de prantar, e tempo d'arrancar o prantado.
3. Tempo de mattar, e tempo de sarar. Tempo de destruir, e tempo de edificar.
4. Tempo de chorar, e tempo de rir. Tempo de tristeza, e tempo d'alegria.
5. Tempo d'espalhar pedras, e tempo de as colher. Tempo d'abraçar, e tempo de s'alongar dos braços.
6. Tempo de acquirir, e tempo de perder. Tempo de guardar, e tempo de despender.
7. Tempo de talhar, e tempo de coser. Tempo de fallar, e tempo de callar.
8. Tempo d'amar, e tempo d'aborreçer. Tempo de guerra, e tempo de paz.

Trecho da tradução do humanista português Damião de Góis do livro bíblico de Eclesiastes, 1538.

Não é por acaso que é chamado O Livro da Sabedoria.

Imagem: A Persistência da Memória, Salvador Dalí, 1931.

10 abril 2011

"Deixe-se guiar pelas fadas"



Recomendação do Fauno à princesa Moanna, em "El laberinto del fauno".

03 abril 2011

na penumbra

na penumbra,
negro olho iluminava
o breu da dúvida.
arfar ligeiro
vibrava o peito
na única noite
daquelas duas almas.
paralelas cruzavam-se,
como a música
um dia soou aos ouvidos.
minutos caindo lentos
na noite, pingando
no telhado improvisado
que os abrigava.
dois. apenas. sós. unidos.
sem passado, sem por vir.
na penumbra,
o que era certo foi sentido.
os sentidos certificavam.
as mãos se conheciam
e permitiam-se intimamente.
como se soubessem do adeus,
as mãos guardaram
e amaram o perfume recendido
na penumbra daquela única noite
que caiu sobre as duas almas.

lamento à Capitu

a inocência atrás dos olhos da menina me perturba. não que o leite derramado do peito não deva ser chorado, mas forjar inocência é um crime, assim como fingir amor. não estou aqui para dizer o certo e condenar o errado. acho até que essas duas palavras são dois equívocos grandiosos, principalmente quando reconheço a impossibilidade de enquadrar todas ações em apenas duas caixas tão pequenas.

os olhos da menina me perturbam por que eu queria que ela visse o que eu não consigo ver, nem descrever. meu defeito é acomodável apenas a mim. quando o vejo tão confortável em outra pessoa, uma sanha eriça meus pelos e o ciúme me enche de vontade de afiar as unhas em qualquer pescoço. somente eu posso ser sem ser de fato.

os olhos da menina são de um castanho impossível de pintar. suas pálbebras formam um ângulo inusitado quando questionada, como se quisesse dormir para fugir de uma obrigação, mas ao mesmo tempo, quer estar acordada para verificar as ações do seu interlocutor. os olhos dela estão longe dos meus cuidados, dos meus apelos e de minha mão que quer cercá-la de qualquer modo.

sei que os olhos dela sempre foram assim e que não foi por mim que ela aprendeu a fingir tão bem. conto todos os segundos que ela passa, distraida, a olhar o nada e a se perder no seu mundo, sem que eu possa acompanhá-la. seus olhos serão minha lembrança quando, já cansado de ter tentado entendê-la, o passado for minha única companhia e terá seu nome no vento que soprará ao meu ouvido.

23 março 2011

gerânio

letra e música lindas!
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e agora a história por trás da composição:
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A letra: (Composição: Nando Reis, Marisa Monte, Jennifer Gomes)

Ela que descobriu o mundo
E sabe vê-lo do ângulo mais bonito
Canta e melhora a vida, descobre sensações diferentes
Sente e vive intensamente
Aprende e continua aprendiz
Ensina muito e reboca os maiores amigos
Faz dança, cozinha, se balança na rede
E adormece em frente à bela vista
Despreocupa-se e pensa no essencial
Dorme e acorda
Conhece a Índia e o Japão e a dança haitiana
Fala inglês e canta em inglês
Escreve diários, pinta lâmpadas, troca pneus
E lava os cabelos com shampoos diferentes
Faz amor e anda de bicicleta dentro de casa
E corre quando quer
Cozinha tudo, costura, já fez boneco de pano
E brinco para a orelha, bolsa de couro, namora e é amiga
Tem computador e rede, rede para dois
Gosta de eletrodomésticos, toca piano e violão
Procura o amor e quer ser mãe, tem lençóis e tem irmãs
Vai ao teatro, mas prefere cinema
Sabe espantar o tédio
Cortar cabelo e nadar no mar
Tédio não passa nem por perto, é infinita, sensível, linda
Estou com saudades e penso tanto em você
Despreocupa-se e pensa no essencial
Dorme e acorda.

e isso é um pouco de mim também...

22 março 2011

primeiro mandamento do amor para sempre

ser de quem é meu;
amar a quem me ama;
querer quem me quer.*




*sem ressalvas, nem mas, nem porém.

quanto amor

que contra-senso
essa vida de bom senso.
eu aqui pensando nela
e ela lá pensando nele.
e onde está o bom senso?
talvez esquecido
feito papel no bolso da calça.
talvez afogado junto com a água suja,
na pia de louças por lavar.
talvez jogado debaixo do tapete
ou atrás da porta.
e onde está o bom senso?
eu aqui pensando nela
e ela lá pensando nele.

21 março 2011

é doce ser azul

é doce ser azul.
não obstante a palidez dos desmaios,
não se cansar dos fulminantes desejos.
e guardar na unha o segredo dos vultos,
e o perfume de nuvem solta.

é doce ser azul.
e velar o pasto tranquilo de beijos
guardados para a quimera em flor.
para além do bem e do mal,
amar as ruínas do inconstante ser.

é doce ser azul.
e se deixar guiar por cores várias,
e se deixar cegar pela lucidez.
e se deixar levar pelo azul do azul do azul...
e parir azul.
é doce ser azul.

La branche



Assim como na tela do Chagall, sou um galho.
De vez em quando, algum pássaro pousa por aqui
e me conta coisas de outros mundos...
e eu conto da felicidade que é ter raízes,
dar frutos e sombra.
Sei ser um bom galho.

é o que acontece sempre a essas boas almas românticas



(...) É o que acontece sempre a essas boas almas românticas. Vestem as pessoas com penas de pavão real, até o último instante contam com o bem e não com o mal, ainda que imaginem o reverso da medalha, por nada deste mundo dizem de antemão a palavra justa; só o terem de pensar nisso lhes custa; diante da verdade tapam os olhos com as mãos, até que o homem que imaginaram aparece e é ele próprio quem lhes abre os olhos.(...)

Dostoiévski. Crime e Castigo

20 março 2011

doce conformismo? ou da derrocada da poesia para a história

As coisas são como são
E não como deveriam ser
Penar por elas é em vão
E ultrapassa o próprio viver.

Cláudio Carvalho Fernandes
Ela não sabia chupar minha língua.
Que moça mais contida, a minha.
Ela sugava meus lábios até nem mais poder.
Mas não sabia chupar minha língua.

Quando seus lábios eram dos meus,
Os olhos semi-abertos flagravam a língua
Escapando da boca, a lamber a saliva
Daquele beijo sem chupões de língua.

Quando ela me puxava pelo braço,
Eu sabia que ela ia se pendurar em meu pescoço
E ia me dar mais um beijo sem chupões de língua.

Quando nos beijamos pela última vez,
Ela ainda quis realizar o desejo tão banal, sem saber
Que eu amava aquele beijo, mesmo sem chupões de língua.

* Esse texto deve ter uns 4 anos... Apesar do tema "erótico", acho tão singelo...

18 março 2011

sobre coisas e pessoas

as coisas são o que são. as pessoas não...

resposta inconsequente

- Não, a realidade não é isso que você vê. Você bem sabe...

17 março 2011

Círculo vicioso




Bailando no ar, gemia inquieto vaga-lume:
-"Quem me dera que fosse aquela loura estrela,
que arde no eterno azul, como uma eterna vela!"
Mas a estrela, fitando a lua, com ciúme:

-"Pudesse eu copiar o transparente lume,
que, da grega coluna à gótica janela,
contemplou, suspirosa, a fronte amada e bela!"
Mas a lua, fitando o sol, com azedume:

-"Mísera! tivesse eu aquela enorme, aquela
claridade imortal, que toda a luz resume!"
Mas o sol, inclinando a rútila capela:

-"Pesa-me esta brilhante auréola de nume...
Enfara-me esta azul e desmedida umbela...
Por que não nasci eu um simples vaga-lume?"

Machado de Assis

o que me dá mais prazer



lokaz-tirinhas

retirado de: http://www.jacarebanguela.com.br/

essa é minha tirinha! rsrsrsr e minha trilha sonora "ilegal, imoral ou engorda"!!!

16 março 2011

sobre a dor

o cigarro não suprime minha dor;
a cachaça não suprime minha dor;
todos os pós e pedras não suprimem minha dor;
a erva mais fina e daninha não suprime minha dor;
as drogas artificiais forjadas pela medicina
andam longe de suprimir minha dor;
a fé não suprime minha dor...

...mas, quem disse que quero suprimir minha dor?
quando bebo da água renovada que brota de teus olhos
não sinto o sal entranhado em sua substância,
sinto apenas a quentura que nasce do teu corpo
e nela construo minha casa, meu lar.

tiro meus sapatos e deito em tua cama,
confortado pelo calor que do teu corpo surge.
algo de imenso cresce em meu peito e sinto
cada vez mais perto de mim teu amplo amor

por coisas sem explicação e pessoas loucas.
tua sina: amar o perdido. o esquecido.
parece ser mais vivo sofrer, parece ser mais quente
se deixar estar e se deixar levar, assim tão imprudentemente.

te dou a chave do meu mundo para que faças tua casa
em mim, no meu peito ainda fraco de menino.
te dou meus mais longos olhares, minha mão mais suave,
pela quentura de uma lágrima tua caindo em minha face.

10 março 2011

o artesão de sonhos

ele me olhava ávido pelo presente e eu só sabia entregar um olhar distante. suas mãos seguravam as minhas com força, como se me resguardasse de um tufão e seus braços me envolviam com tanto calor que frio jamais passou entre nós. ele me resguardava do gelo e eu me protegia de nós. suas mãos fabricavam um cotidiano colorido, arranjado às pressas para nos contentar e fazer brotar risos de nossas bocas e esperanças em meu peito árido.
toda reconstrução demanda esforço, tempo e paciência e ele, insistente, trabalhava dia e noite na reedificação dos meus sonhos, dos meus desejos e anseios. ele não se cansava e não existia barreira ou tempo ruim que o fizesse parar, recuar. ele seguia me guiando pelos destroços, carregando o que podia ser aproveitado, o que era importante. ele nunca se ocupou de inutilidades, exceto daquela que ele carregava pela mão. mas ele amava e o amor protege o corpo contra qualquer dor e, apesar do peito desprotegido, ele não se feria por que ele sabia o que queria.
e assim nós seguíamos pela seara queimada dos meus amores: ele regando toda a plantação estorricada, lançando sementes ao chão, cultivando o pequeno solo infértil com o cuidado de um artesão que sabe que molda o barro para a última peça e, exausto, adormece ao fim do dia para recomeçar outro dia, e outra lida.
ele não deixava de me olhar, não soltava minha mão, não desistia de me guiar e continuava a encarar o fogo, a aridez, os destroços e minha descrença com as únicas armas das quais dispunha: esperança, esforço e paciência.

apesar de lágrimas e lamentos

eu poderia falar mais uma vez de mim. poderia tecer elegias sobre o seu adeus. poderia mesmo lembrar com ternura nossos doces momentos e derramar sobre eles meu pranto de saudade. poderia deixar meu tempo escorrer pelas mãos ao chorar por aquele dia cinza, obscuro. poderia lamentar minha falta de tato e me pintar culpada, carrasca. poderia, inclusive, manchar minhas mãos com o sangue do teu peito inerte aos meus apelos, frio em frente ao meu calor.
eu poderia fazer isso e um pouco mais. mas minhas mãos estão cansadas de sustentar um peso imenso e que nem me é de responsabilidade. eu poderia, como mártir do sentimentos desperdiçados, hastear a bandeira do amor em vão e me orgulhar de morrer em combate. eu poderia ser e fazer tudo isso. mas isso tudo não me faria melhor do que ninguém, nem traria conforto às minhas mãos cansadas, nem você de volta. e a volta, se é que existe plenamente, não seria a solução para meus pormenores, minhas singularidades, minhas carências, meus afetos. e tudo isso que eu poderia ter feito não significaria nada e tantas palavras seriam uma simples página em branco que o tempo trata de empalidecer e corroer, apesar de lágrimas e lamentos.

04 março 2011

uma balzaquiana...



"Hay que endurecer, pero sin perder la ternura jamás" - a gente tenta...

01 março 2011

a vida é sonho

"Eu sonho que estou aqui
de correntes carregado
e sonhei que noutro estado
mais lisongeiro me vi.
Que é a vida? Um frenesi.
Que é a vida? Uma ilusão,
uma sombra, uma ficção;
o maior bem é tristonho,
porque toda a vida é sonho,
e os sonhos, sonhos são."

Trecho da fala final do príncipe Segismundo, personagem principal da peça A vida é sonho, de Calderón de la Barca(1600-1681).
quem diz que carrega uma dor
não sabe o que é sofrer.
dor não se carrega a lugar algum.
ela nos leva no seu colo de mãe,
acalenta na noite fria,
ouve os lamentos,
vela a angústia.
dor, sendo dor, não abandona seu filho.
consola no relento,
acompanha no porre,
deixa marcas nas mãos.
dor, a dor, de torcer entranhas
não se deixa tocar.
toda ela povoa o ser
e o carrega por onde for.

28 fevereiro 2011

Poema inconjunto (1913-1915)

Falas de civilização, e de não dever ser,
Ou de não dever ser assim.
Dizes que todos sofrem, ou a maioria de todos,
Com as coisas humanas postas desta maneira,
Dizes que se fossem diferentes, sofreriam menos.
Dizes que se fossem como tu queres, seriam melhor.
Escuto sem te ouvir.
Para que te quereria eu ouvir?
Ouvindo-te nada ficaria sabendo.
Se as coisas fossem diferentes, seriam diferentes: eis tudo.
Se as coisas fossem como tu queres, seriam só como tu queres.
Ai de ti e de todos que levam a vida
A querer inventar a máquina de fazer felicidade!

Alberto Caeiro (o sábio e mestre de Fernando Pessoa e seus demais heterônimos).
Meu mestre também.

Sofística



Lanço meu olhar ao céu
Que, através da janela,
Não passa de um quadrado.
E nesse pequeno sólido,
Formado de minha limitação,
Deixo de perceber as estrelas
Apagadas pelas nuvens.
Choro a morte de cada uma delas:
Pelo seu brilho apagado,
Pelos caminhos escurecidos,
Pela ausência de sua luz.
Mas, tão tola e tão míope,
Aos poucos me apercebo
Olhando o céu novamente
Em busca de suas pontas.
É quando me dou conta que
Acima das nuvens elas estão
e riem da minha lógica humana:
“não crer naquilo que não se vê.”
Minhas mãos têm ânsia tamanha em tocar.
Meus olhos são ávidos por ver.
Meus ouvidos aguçam-se para ouvir.
Mas minhas mãos não sabem esperar.
Meus olhos não aprenderam ver além.
Meus ouvidos jamais se habituam ao silêncio.
E assim, me entregando toda
Ao toque, ao som e às cores
Vou perdendo a poesia do negro silêncio impalpável
Das coisas que não precisam de outras para existir.
Vou seguindo, humana,
A tropeçar e cair para me reerguer
E me entregar às minhas ideias fracas
sem o brilho das estrelas.

27 fevereiro 2011

Pra você eu conto, Moacyr Scliar



"(...)
Era um hotel. Casa já não tinha mais, e a professora de Ciências, que poderia hospedá-la, há muito se mudara para São Paulo. Um hotel bem modesto; pelo jeito, o dinheiro não lhe sobrava.
Mas nada daquilo importava. Ignorando o olhar suspeitoso do homem da portaria, subi de dois em dois os degraus da estreita escada que levava ao segundo pavimento. Ofegante, bati à porta. Já vou, disse uma voz abafada lá dentro. Uns segundos depois a porta se abriu e ali estava ela, diante de mim, a Marta.
A mesma Marta: o mesmo olhar penetrante, os mesmos cabelos ruivos, se bem que cortados curtos. Não, não era a mesma Marta; o tempo fora cruel com ela, rugas profundas marcavam-lhe a face, a boca apresentava-se caída. Sim, era a mesma Marta, o mesmo brilho nos olhos. Não -
Que importava? Abraçamo-nos chorando. De repente, o tempo detinha-se; não, o tempo voltava atrás; eu já não era o jovem empresário casado, com um filho; eu era o adolescente despertando para sua primeira paixão, tremendo de desejo como tremera da primeira vez em que a beijara.
Conduzi-a até a cama. Tentou protestar, debilmente; mas desta vez eu não aceitaria recusas; e nem ela queria recusar, acho. De qualquer modo, deixou-se levar. Deitamo-nos. A velha cama, de ferro, estreita, rangia a cada movimento; começamos a rir. Ríamos às gargalhadas, ríamos tanto que as lágrimas nos vinham aos olhos. E então ficamos subitamente sérios; ela me olhou e puxou-me para si, e fizemos amor, suavemente a princípio, furiosamente depois; possuídos não apenas pela paixão, como também pela nostalgia de algo que não sabíamos bem o que era, mas pelo qual ansiávamos desesperadamente.
(...)
Não, de mim eu não queria falar. Para quê? Tudo que me tinha acontecido, tudo o que eu tinha feito não importava; todos aqueles anos correspondiam a uma espécie de existência suspensa, congelada, um longo intervalo entre momentos de real paixão. Ela me ensinara a amar, e me ensinara como tudo deve ser ensinado: sem esforço, por sua simples presença. Como um farol guia o barco perdido, assim me guiara... E agora que a tinha encontrado, não mais a abandonaria. E foi o que eu lhe disse: que pretendia ficar com ela para sempre."

Moacyr Scliar. Pra você eu conto (1990)

Foi com muita tristeza que recebi a notícia da morte deste escritor. Suas palavras simples conduziram meus primeiros passos na tentativa de compreender nossas atitudes. Nós, seres humanos, tão cegos às vezes. Tão imediatistas quase sempre. Não sabemos o que o tempo faz conosco, com nosso corpo e nossa alma. Entregar as aflições nas mãos do tempo não é tarefa das mais fáceis, mas é a única atitude possível para se viver um pouco mais levemente, mais livremente, mais amavelmente.

25 fevereiro 2011

TENÉIS QUE OÍRME

(...)
Parecían los hombres
enemigos,
pero la misma noche
los cubría
y era una sola claridad
la que los despertaba:
la claridad del mundo.

Yo entré en las casas cuando
comían en la mesa,

venían de las fábricas,
reían o lloraban.

Todos eran iguales.

Todos tenían ojos
hacia la luz, buscaban
los caminos.

Todos tenían boca,
cantaban
hacia la primavera.

Todos.

Por eso
yo busqué entre las uvas
y el viento
lo mejor de los hombres.

Ahora tenéis que oírme.

Pablo Neruda Las uvas y el viento

PUEDO escribir los versos más tristes esta noche.



PUEDO escribir los versos más tristes esta noche.

Escribir, por ejemplo: "La noche está estrellada,
y tiritan, azules, los astros, a lo lejos".

El viento de la noche gira en el cielo y canta.

Puedo escribir los versos más tristes esta noche.
Yo la quise, y a veces ella también me quiso.

En las noches como ésta la tuve entre mis brazos.
La besé tantas veces bajo el cielo infinito.

Ella me quiso, a veces yo también la quería.
Cómo no haber amado sus grandes ojos fijos.

Puedo escribir los versos más tristes esta noche.
Pensar que no la tengo. Sentir que la he perdido.

Oir la noche inmensa, más inmensa sin ella.
Y el verso cae al alma como al pasto el rocío.

Qué importa que mi amor no pudiera guardarla.
La noche está estrellada y ella no está conmigo.

Eso es todo. A lo lejos alguien canta. A lo lejos.
Mi alma no se contenta con haberla perdido.

Como para acercarla mi mirada la busca.
Mi corazón la busca, y ella no está conmigo.

La misma noche que hace blanquear los mismos árboles.
Nosotros, los de entonces, ya no somos los mismos.

Ya no la quiero, es cierto, pero cuánto la quise.
Mi voz buscaba el viento para tocar su oído.

De otro. Será de otro. Como antes de mis besos.
Su voz, su cuerpo claro. Sus ojos infinitos.

Ya no la quiero, es cierto, pero tal vez la quiero.
Es tan corto el amor, y es tan largo el olvido.

Porque en noches como ésta la tuve entre mis brazos,
mi alma no se contenta con haberla perdido.

Aunque éste sea el último dolor que ella me causa,
y éstos sean los últimos versos que yo le escribo.

Pablo Neruda. Veinte poemas de amor y una canción desesperada
Link do site da Universidade do Chile que contém uma antologia da obra de Neruda: http://www.neruda.uchile.cl/obra/obra2.htm

antes que seja tarde

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"na verdade, continuo sob a mesma condição: distraindo a verdade e enganando o coração... e retomo a porta aberta dos perigos."

apenas mais uma fotografia desbotada



meu olhar se deixa estar sobre a fotografia. contemplar sua imagem perdendo a cor, o brilho, o viço não faz mais tanta diferença. no início, meus olhos choravam, não entendiam o percurso natural até o fim. hoje, um nó na garganta se forma e depois se transforma. vira nada. ou qualquer coisa que eu ainda não sei o nome. mas não incomoda mais. ou incomoda de um jeito diferente, como quando esquecemos algo que não costumamos carregar.
na fotografia havia um sorriso, mãos dadas, céu e sol. e hoje, o que eu vejo são minhas mãos dadas ao vento e, como você desaparecesse, consigo ver através de sua imagem, aos poucos desbotada, a selva de pedras escondida. cada pedra guarda um encanto. e esse encanto é caro demais pra quem não sabe poupar as mãos de suas pontas.
meu olhar cansado se afasta do centro da fotografia. repousa no telhado que vai escurecendo aos poucos à meia-luz do crepúsculo até chegar a noite fechada. vou lembrando devagar o que é ser. não me apresso em ter respostas, imagens nítidas de mim. uma lágrima distraída cai. então eu levanto, molho meu rosto, ponho os óculos e vou tentar enxergar as coisas mais de perto, sem saber que mais perto nunca é dentro. enxergar as coisas mais de perto sempre será enxergar nada.
a fotografia desbota na gaveta enquanto meus olhos brincam de ver e meu coração finge entender todas as cores do mundo.

23 fevereiro 2011

Extraño

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O que eu sinto a respeito dos homens é estranho
É estranho como é frio
É estranho como eu perdi a fé
Éestranho como é estranho
Perguntar o nome

O que eu sinto a respeito de nós é estranho
É estranho como é triste
É estranho como olhar pra trás
É estranho como é estranho
Esquecer um nome

Eu amei e acho que algumas vezes
Ela também me amou
Só que o prazer é tão curto
Eu amei e acho que algumas vezes
Ela também me amou
Só que esquecimento é tão longo

O que penso a respeito de tudo é tão estranho
É estranho como é simples
É estranho como essa canção
É estranho como é estranho
Sussurrar um nome

Nenhum de Nós (1990)

A versão original de Extraño é um primor! Mas essa também tem seu encanto, principalmente pela repetição de "eu amei..." Principalmente? Sim. Eu explico o motivo da preferência: Numa das aulas de Teoria das Comunicações II do curso de Letras-UFPI(isso foi no início da década passada, quando a profa. Anecy ainda aterrorisava por lá...), no meio de um seminário, uma colega leu um poema de Pablo Neruda e (qual não foi minha surpresa!!??) lá estavam os versinhos mais lindos e verdadeiros sobre o amor: "Eu a amei e por vezes ela também me amou.(...)Ela amou-me, por vezes eu também a amava.(...) Já não a amo, é verdade, mas talvez a ame ainda. É tão curto o amor, tão longo o esquecimento." Já publiquei todo o poema recentemente, mas ainda não consegui descobrir em que livro ele está. Quem souber, por favor, deixe aqui essa referência e me fará muito feliz!

Meu mundo e nada mais

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Quando eu fui ferido
Vi tudo mudar
Das verdades
Que eu sabia...

Só sobraram restos
Que eu não esqueci
Toda aquela paz
Que eu tinha...

Eu que tinha tudo
Hoje estou mudo
Estou mudado
À meia-noite, à meia luz
Pensando!
Daria tudo, por um modo
De esquecer...

Eu queria tanto
Estar no escuro do meu quarto
À meia-noite, à meia luz
Sonhando!
Daria tudo, por meu mundo
E nada mais...

Não estou bem certo
Que ainda vou sorrir
Sem um travo de amargura...

Como ser mais livre
Como ser capaz
De enxergar um novo dia...

Guilherme Arantes (1976)

Letra linda,
Música linda,
Guitarra do Scandurra perfeita!!

21 fevereiro 2011

Carta a uma amiga distante



Amiga,

Quisera poder escrever as mais doces palavras e dirigi-las a você sem que lhe cause nenhum constrangimento, nenhuma dor a mais, além desta que você há tanto tempo está a sentir. Tenho acompanhado de perto essa montanha russa que são seus sentimentos: profundezas íngremes seguidas de loopings nauseantes. Aí você para, retoma o fôlego e decide voltar e repetir as acrobacias tão caras a seu estômago e a sua mente. Olho esse comportamento e me encho de vontade de ir aí pra perto, pegar você pelos ombros e dar uma boa sacudida. Ou gritar aos seus ouvidos bem alto, com toda a força dos meus pulmões. Pegar cada pálbebra sua com as unhas e abrir seus olhos, seus lindos olhinhos míopes. Mas não posso fazer isso e você sabe o motivo.

Mas hoje resolvi que falaria a você de qualquer jeito.

Primeiro: você precisa saber que não existem culpados. Se as coisas acontecem, elas acontecem e só. Se nada sai como planejamos é por que não dependiam somente de nós. Tudo o que envolve duas ou mais pessoas é imprevisível. E não pense que digo isso por que estou do outro lado. Saiba que estou do seu lado. O mesmíssimo lado.

Segundo: se não depende mais de nós, não adianta escrever e reescrever a mesma lamúria, o mesmo lamento, com as mesmas palavras apenas com ordem invertida. Veja além, perceba o quão egoístas nós somos, olhando-nos vaidosamente ao espelho, orgulhando-nos das nossas lágrimas, nos achando as maiores sofredoras do mundo, achando que ninguém nunca sofreu tanto sofrimento, que ninguém nunca chorou tanto choro, que nenhuma tristeza foi tão triste. Abre os olhos, amiga, o mundo é maior. E como você mesma diria, Deus é mais!

Terceiro: se alguém nos faz sofrer é por que nós deixamos isso acontecer. Isso de amor "conservador e progressista" não existe, bebê... Minha mãe sempre me diz o seguinte: o caminho só se faz quando os dois caminham juntos. Pare um pouco pra pensar: quem caminhava com você era a mesma pessoa com a qual você caminhava? A pergunta parece tola, mas você verá que faz todo o sentido!

Quarto: o que passou, realmente passou. E tudo passa e se repete debaixo do sol. Inútil querer entender, chorar por que não entende e condenar o mundo pela nossa incompreensão. Inútil mais ainda se ferir e machucar o próprio coração pensando em tudo aquilo que poderia ter sido e que não foi, como diria Bandeira. O que foi, foi. Somente o futuro está nas nossas mãos e ele depende do hoje, do agora. O que fizemos é de domínio do esquecimento. Cedo ou tarde ele chega.

Quinto (e não menos importante): viva, amiga. Deixe de olhar pra trás, de querer ter aquilo que você nunca teve. Olhe adiante! Repare no céu: veja quantas estrelas brilham e não precisam de você! Veja como as flores estão cada dia mais coloridas e não precisam de você para serem assim! Veja como as pessoas seguem banais, bobas, cotidianamente absorvidas pelos mais frugais afazeres. Ande pelo mundo de olhos e nariz abertos: prove novas cores, novos aromas, novos sabores... Conheça, permita-se conhecer a si própria! Retire um pouco a maquiagem e experimente a cara limpa. Permita-se errar mais uma vez.

E por último, leve o que escrevi em consideração. Não pense que quero saber mais do que me é permitido. Isso que escrevi, também estou tentando praticar. Não é fácil. Você bem sabe. Mas quem disse que viver é fácil? Não lembro de alguém já ter me prometido isso. Viver tem suas consequências e o amor é uma delas. Infelizmente, há muito amor desperdiçado por aí, mas eu prefiro acreditar que as ações do coração nunca são em vão. Apesar da péssima rima pobríssima, essa é a verdade. Mas quem disse que a verdade é bela sempre, mesmo quando há amor? Quem disse que a vida é bela sempre? Quem um dia disse isso, mentiu. E mentiu feio, amiga. E nós aprendemos apenas assim: apanhando na cara. No início dói. Mas depois a gente esquece, pra lembrar de vez em quando. Muito de vez em quando.

20 fevereiro 2011

Conclusões de Aninha



Estavam ali parados. Marido e mulher.
Esperavam o carro. E foi que veio aquela da roça
tímida, humilde, sofrida.
Contou que o fogo, lá longe, tinha queimado seu rancho,
e tudo que tinha dentro.
Estava ali no comércio pedindo um auxílio para levantar
novo rancho e comprar suas pobrezinhas.


O homem ouviu. Abriu a carteira tirou uma cédula,
entregou sem palavra.
A mulher ouviu. Perguntou, indagou, especulou, aconselhou,
se comoveu e disse que Nossa Senhora havia de ajudar
E não abriu a bolsa.
Qual dos dois ajudou mais?


Donde se infere que o homem ajuda sem participar
e a mulher participa sem ajudar.
Da mesma forma aquela sentença:
"A quem te pedir um peixe, dá uma vara de pescar."
Pensando bem, não só a vara de pescar, também a linhada,
o anzol, a chumbada, a isca, apontar um poço piscoso
e ensinar a paciência do pescador.
Você faria isso, Leitor?
Antes que tudo isso se fizesse
o desvalido não morreria de fome?
Conclusão:
Na prática, a teoria é outra.

Cora Coralina
http://www.releituras.com/coracoralina_menu.asp

Arte Poética



Que el verso sea como una llave
que abra mil puertas.
Una hoja cae; algo pasa volando;
cuanto miren los ojos creado sea,
y el alma del oyente quede temblando.

Inventa mundos nuevos y cuida tu palabra;
el adjetivo, cuando no da vida, mata.

Estamos en el ciclo de los nervios.
El músculo cuelga,
como recuerdo en los museos;
mas no por eso tenemos menos fuerza:
el vigor verdadero
reside en la cabeza.

Por qué cantáis la rosa, ¡oh, Poetas!
Hacedla florecer en el poema.

Sólo para nosotros
viven todas las cosas bajo el Sol.

El poeta es un pequeño Dios.

HUIDOBRO, Vicente. Antología poética. Org. de Hugo Montes. Madrid: Castalia, 1990.

a dança



pousas assim tão leve
a mão no meu quadril
e me conduzes através da melodia.
teus passos cadenciados
me ajudam a esquecer os meus,
desenfreados.

e vou me deixando guiar:
às vezes olhando pra trás,
aquele medo de cair;
às vezes olhando
o castanho dos teus olhos,
o âmbar que guarda fielmente
as esperanças do porvir.

18 fevereiro 2011

Le premier bonheur du jour - Françoise Hardy & Sacha Distel

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Le premier bonheur du jour
C’est un ruban de soleil
Qui s’enroule sur ta main
Et caresse mon épaule.

C’est la souffle de la mer
Et la plage qui attend
C’est l’oiseau qui a chantée
Sur la branche du figuier.

La premier chagrin du jour
C’est la porte qui se ferme
La voiture qui s’en va
Le silence qui s'instale.

Mais bien vite tu reviens
Et ma vie reprend son cours
Le dernier bonheur du jour
C’est la lampe qui s’éteint.

Françoise Hardy (1963)

Linda, linda, linda...

17 fevereiro 2011

ego

já fui anjo caído
na terra das auréolas.
quis gritar
onde o silêncio era ordem.
olhei a fundo
a superfície negra, camuflada.

já senti raiva
por meu irmão, meu igual.
condenei, não avaliei,
não amei o bastante meu semelhante.
repeti impropérios,
me feri nas minhas verdades.

construi poços rasos dentro de mim,
edifiquei muros ao meu redor,
montei barricadas, uma proteção.
instalei guarda contra mim,
abafei gritos de vitória,
não acenei a bandeira branca.

e fui deixando passar meu melhor:
aquilo que não conheço
e que floresce, apesar do muro,
apesar do fosso cultivado com esmero.
apesar de mim,
as plantas crescem no jardim.

apesar do mundo, apesar de tudo,
as flores brotam do asfalto.
atrás do muro caído
alguém reclama abrigo, abraço, conforto.
e não sou só eu,
não apenas eu...

o mundo é maior.
não cabe nas pontas de meus dedos.
o mundo não cabe nem no meu coração.
e alguém já disse isso.
e as coisas não mudaram...
"nada de novo debaixo do sol."

já fiz tudo errado -
e nem posso dizer nunca mais.
já disse tudo, até o que não podia.
atrás dos olhos vermelhos
alguém reclama abrigo, abraço, conforto.
e não sou só eu,
não apenas eu...

15 fevereiro 2011



meu olho
insiste
no papel em branco.

em branco, meu olho.
no papel insiste
o branco do meu olho.

por dentro do negro
por fora do claro
do meu cego olho.

meu branco cego
insiste no olho do papel...
em branco.

haicai nervoso

páginas lacradas
dedos nervosos
páginas rasgadas

Alegria



Eu vou te dar alegria
Eu vou parar de chorar
Eu vou raiar o novo dia
Eu vou sair do fundo do mar
Eu vou sair da beira do abismo
E dançar e dançar e dançar
A tristeza é uma forma de egoísmo
Eu vou te dar eu vou te dar eu vou...

Hoje tem goiabada,
Hoje tem marmelada,
Hoje tem palhaçada,
O circo chegou.

Hoje tem batucada,
Hoje tem gargalhada,
Riso e risada
Do meu amor

Arnaldo Antunes

14 fevereiro 2011

A propósito do dia dos namorados, algo sobre o fim das relações amorosas

"(...)se é verdade que não podemos ser responsáveis pela felicidade dos outros, então também não é menos verdade que, mesmo involuntariamente, podemos ser responsáveis pela infelicidade dos outros. Quero eu dizer com isto que a nossa felicidade ou infelicidade depende essencialmente de nós e dos outros, a não ser que queiramos ser uns eremitas, anacoretas, solitários solteirões. Mas não vale a pena desesperar, porque podemos sempre voltar a ser felizes, é claro, com a mesma ou com outra pessoa qualquer."

Jaime Bulhosa

Diretamente da Pó dos Livros: http://livrariapodoslivros.blogspot.com/2011/02/proposito-do-dia-dos-namorados-algo.html

11 fevereiro 2011

eu sei, mas não devia...



Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.
A gente se acostuma a morar em apartamento de fundos
e a não ter outra vista que não seja as janelas ao redor.

E porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora.
E porque não olha para fora logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas.
E porque não abre as cortinas logo se acostuma acender mais cedo a luz.
E a medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora.
A tomar café correndo porque está atrasado.
A ler jornal no ônibus porque não pode perder tempo da viagem.
A comer sanduíche porque não dá pra almoçar.
A sair do trabalho porque já é noite.
A cochilar no ônibus porque está cansado.
A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra.
E aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja número para os mortos.
E aceitando os números aceita não acreditar nas negociações de paz,
aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir.
A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta.
A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.
A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita.
A lutar para ganhar o dinheiro com que pagar.

E a ganhar menos do que precisa.
E a fazer filas para pagar.
E a pagar mais do que as coisas valem.
E a saber que cada vez pagará mais.
E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas que se cobra.

A gente se acostuma a andar na rua e a ver cartazes.
A abrir as revistas e a ver anúncios.
A ligar a televisão e a ver comerciais.
A ir ao cinema e engolir publicidade.
A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.
A gente se acostuma à poluição.

As salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro.
A luz artificial de ligeiro tremor.
Ao choque que os olhos levam na luz natural.
Às bactérias da água potável.
A contaminação da água do mar.
A lenta morte dos rios.

Se acostuma a não ouvir o passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães,
a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.
A gente se acostuma a coisas demais para não sofrer.

Em doses pequenas, tentando não perceber, vai se afastando uma dor aqui,
um ressentimento ali, uma revolta acolá.
Se o cinema está cheio a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço.
Se a praia está contaminada a gente só molha os pés e sua no resto do corpo.

Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana.
E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo
e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.

A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele.
Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se
da faca e da baioneta, para poupar o peito.
A gente se acostuma para poupar a vida que aos poucos se gasta e, que gasta,
de tanto acostumar, se perde de si mesma.

Marina Colasanti

fonte: http://www.astormentas.com/colasanti.htm

10 fevereiro 2011

Andrea Doria

Essa música da Legião Urbana, presente no Dois (1986), me faz sentir acompanhada na solidão.



Este da pintura é Andrea Doria, almirante genovês que viveu em pleno Renascimento (1466-1560). Personificando Netuno, deus romano dos mares, a tela é uma homenagem do pintor florentino Agnolo Bronzino (1503-1572), forma de exaltar os dotes marítimos de Doria.

Mas a letra da canção de Renato não comenta grandes feitos do nosso historicamente notável Doria. A letra conta decepções, frustrações e um desejo de não mudar, apesar das dores. Retomando a metáfora náutica tão típica no século XVII, somos apenas frágeis baixeis humanos, expostos ao sabor dos ventos e à bravura dos mares.

Às vezes parecia
Que de tanto acreditar
Em tudo que achávamos
Tão certo...

Teríamos o mundo inteiro
E até um pouco mais
Faríamos floresta do deserto
E diamantes de pedaços
De vidro...

Mas percebo agora
Que o teu sorriso
Vem diferente
Quase parecendo te ferir...

Não queria te ver assim
Quero a tua força
Como era antes
O que tens é só teu
E de nada vale fugir
E não sentir mais nada...

Às vezes parecia
Que era só improvisar
E o mundo então seria
Um livro aberto...

Até chegar o dia
Em que tentamos ter demais
Vendendo fácil
O que não tinha preço...

Eu sei é tudo sem sentido
Quero ter alguém
Com quem conversar
Alguém que depois
Não use o que eu disse
Contra mim...

Nada mais vai me ferir
É que eu já me acostumei
Com a estrada errada
Que eu segui
E com a minha própria lei...

Tenho o que ficou
E tenho sorte até demais
Como sei que tens também...

Trecho de entrevista com Renato Russo e o relato de composição da letra:

"(...) a música é um diálogo entre uma menina que era cheia de vida, alegria e planos e que sempre me deu força e que nesse instante é quem está derrubada. Aí então sou eu falando para ela. Tem coisas que fala para mim e tem coisas que falo para ela: "Às vezes parecia que de tanto acreditar em tudo que achávamos tão certo/ Teríamos o mundo inteiro e até um pouco mais". É aquela coisa dos planos, o mundo está horrível mas nós vamos conseguir, vamos juntos etc. Aí no meio do caminho: "Mas percebo agora que o seu sorriso vem diferente/ Quase parecendo te ferir". Quando você entra no mundo adulto se não tomar cuidado deixa entrar o cinismo, fica "jaded".

E a música é uma conversa em cima disso: "Olha, realmente a coisa é difícil, mas não é por aí". Termina justamente falando: "A gente tem toda a sorte do mundo", sem especificar, que bem ou mal a gente não é favelado, não morre de fome. "Sei que tenho sorte, como sei que tens também". Uma das grandes temáticas das letras é exatamente essa, só que são sempre pequenas situações, colocadas de um certo jeito que a pessoa interpreta de outra maneira. Sempre tem uma historinha, uma mitologia."

fonte: http://ainagaki.sites.uol.com.br/textos/rrusso.htm

09 fevereiro 2011

sobre lembranças



uma lembrança pousa na lapela ou na aba do chapéu. ela pesa. então você passa a mão rudemente, como forma de se livrar do peso, do incômodo que gera a lembrança. mas ela não sai, não cai. e isso te faz pensar em parar e sacudir a lapela, tirar o chapéu. mas, no fundo, tu sabes que nada fará esse peso sair de tuas mãos, de tua cabeça e de teu coração. o que resta a ti é caminhar com os pés acorrentados, as mãos ocupadas pelo vácuo. o que resta é continuar a caminhar imaginando ser a lembrança uma rosa agarrada ao teu chapéu ou à tua lapela. e, como toda rosa, essa que aí vai indolente, surda ao teu desespero, será lançada ao chão, naturalmente, cumprindo um ciclo banal, trivial.
talvez a rosa morra no teu chapéu, talvez faça de tua lapela o túmulo onde repousará. restará a ti, no início, o pranto que visita os olhos numa noite profunda. depois, soluços abafados, lágrimas secas, será apenas um lugar vazio, sem mancha de lembrança ou rosa. sem espinhos. sem perfume. teu chapéu voltará a ser um chapéu. tua lapela voltará a ser uma lapela. e teu peito, apenas teu peito.

uma lágrima não pode ser apenas uma lágrima



às vezes, chorar é a melhor solução:
lubrifica os olhos,
limpa a pele à base de água e sal,
diminui as toneladas que a alma carrega.

uma lágrima não pode ser apenas uma lágrima.
ela é o sumo da fruta espremida,
ela é a gota de sangue de uma ferida.
a lágrima é o que nos torna um pouco
menos rudes, um pouco mais humanos.

04 fevereiro 2011



de onde vem tua força?
seria tua fé as colunas
desse monumento?

de onde vem tua força?
ou ela não vem,
acontece em teu peito, simplesmente?

de onde vem tua força
gritada pelos teus olhos
docemente castanhos?

se tamanha fortaleza
ser doada pudesse às almas
fracas, feitas de lágrimas,

eu seria a primeira
a tecer petições a meu favor,
como forma de me salvar de mim.

mas não há como doar essência,
alma, espírito, coração...
um abraço me basta.

um abraço me basta
para encostar meu peito ao teu
e sentir tua fortaleza pulsando
...
pulsando
...
pulsando
...

01 fevereiro 2011

mensageiro dos ventos


meu mensageiro dos ventos
anuncia a tempestade se formando lá fora.
vento e muita água
afogarão os duendes do meu jardim,
arrancarão, pela raiz,
as plantas recém-nascidas
e levarão o adubo diluido
que escoará ao longo das ruas.

eu poderia suspender a caneta
e os pensamentos
e ir socorrer meu pobre jardim escurecido.
mas eu sei que do improvável
é que surgem as mais doces verdades
com sabor de trigo fresco nas manhãs,
luz matinal sobre a mesa
e brisa leve ondulando a toalha branca de renda
tingida pelo arco íris filho da tempestade
anunciada pelo meu mensageiro dos ventos.


ontem, sob o negro silêncio da noite, cresceram plantas na parede do meu quarto. o lodo firmou-se em camada por toda parte. posso ver agora as raízes alongando-se e firmando-se por entre os vincos. vou seguindo com os olhos o verde pisado crescer pelo chão e formar marcas digitais. da sombra surgem o frio e a vontade de chorar pelo passado ensolarado.
essas plantas que crescem na escuridão do meu quarto procuram desastrosamente o meu pequeno sol apagado. essas plantas suicidas crescem para dentro e não buscam o grande sol verdadeiro. sou vida e morte desses seres repletos de esperança no nada.


sufoquei um pássaro em minhas mãos.
a brisa de suas asas
marcou sulcos no coração.


para não morrer de ódio:
vaze do dedo indicador
gotículas de sangue
por dia.

para não morrer de dor:
vaze os olhos.

28 janeiro 2011

sobre o agora



meu momento acontece
agora.
meus dedos não aprenderam
roçar a eternidade.

27 janeiro 2011

Belfagor, o Arquidiabo (ou Fábula do diabo que se casou)



(...)
"Embora assumisse com certa má vontade essa missão, obrigado, contudo, por ordens de Plutão, Belfagor se dispôs a seguir quanto havia sido determinado pela assembléia e a se submeter às condições que haviam sido solenemente estabelecidas por todos. E as condições eram as seguintes: que imediatamente fosse entregue àquele que fosse delegado para essa missão e quantia de cem mil ducados; com esse dinheiro deveria vir ao mundo e, sob forma de homem, escolher uma mulher com quem se casar e viver com ela durante dez anos; depois, fingindo morrer, voltar ao inferno e, pela experiência adquirida, relatar a seus superiores quais eram os ônus e as inconveniências do matrimônio. Foi decidido ainda que, durante esse período, ele estaria sujeito a todas as dificuldades e a todos os males que afligem os homens e que deveria enfrentar a pobreza, as prisões, a doença e todos os demais infortúnios em que os homens incorrem, podendo deles liberar-se unicamente com arte ou astúcia."
(...)

Trecho inicial da fábula do italiano Nicolau Maquiavel (1469 - 1527).

Texto dotado de humor refinado e ácida crítica aos comportamentos humanos, principalmente ao comportamento feminino, por vezes encarado como frívolo, uma visão tipicamente medieval. O mote do conto é o seguinte: foi constatado que todos os homens que cruzavam os portões do inferno tinham em comum o fato de haverem se casado. Casar, portanto, era o motivo pelo qual esses homens foram condenados às chamas eternas. E Belfagor, o Arquidiabo, foi o escolhido para desvendar esse mistério.
A leitura vale a pena!!

25 janeiro 2011

Parabéns, São Paulo!

Há um ano eu estava lá: no meio daquele turbilhão de história viva! A emoção de conhecer uma cidade como São Paulo está em admirar sua beleza contraditória. Como disse Caetano, a cidade é o avesso do avesso do avesso...


um dos monumentos que existem em frente ao Teatro Municipal.


mais um dos monumentos. O maior. "Ao grande espírito brasileiro que conjugou o seu gênio com a itálica inspiração. A colonia italiana no estado de São Paulo. No primeiro centenário da independência do Brasil 7 de setembro de 1922."


artes antiga e nova, lado a lado,complementando-se.




Lá não é o céu que emoldura os prédios. São os prédios que emolduram o céu cinza de chuva e poluição...


A selva de pedras.

"Do povo oprimido nas filas, nas vilas, favelas,
da força da grana que ergue e destrói coisas belas,
da feia fumaça que sobe apagando as estrelas
eu vejo surgir teus poetas de campos e espaços,
tuas oficinas de florestas, teus deuses da chuva."

23 janeiro 2011

A morte dos amantes



Nós teremos leitos de rosas ligeiras,
E divãs profundos como campa ou mar,
E flores estranhas, sobre prateleiras
Sob os céus formosos a desabrochar.

Depois a queimar luzes verdadeiras
Nossos corações irão fulgurar,
E refletirão as suas fogueiras
Nestas nossas almas, este doce par

De espelhos. Porém por tarde mediúnica,
Iremos trocar uma flama única
Como um longo pranto que é um adeus cruel:

E mais tarde um anjo entreabrindo as portas
Virá reanimar feliz e fiel
Os espelhos foscos mais as chamas mortas.

Charles Baudelaire. (Poema integrante da obra As Flores do Mal, de 1857)
Imagem: A separação. Publicado em Playing With Light, por Rui de Almeida Cardoso, em 2007/01/08.
http://pwlproject.wordpress.com/

21 janeiro 2011

Canção do dia de sempre *




Tão bom viver dia a dia...
A vida assim, jamais cansa...

Viver tão só de momentos
Como estas nuvens no céu...

E só ganhar, toda a vida,
Inexperiência... esperança...

E a rosa louca dos ventos
Presa à copa do chapéu.

Nunca dês um nome a um rio:
Sempre é outro rio a passar.

Nada jamais continua,
Tudo vai recomeçar!

E sem nenhuma lembrança
Das outras vezes perdidas,
Atiro a rosa do sonho
Nas tuas mãos distraídas...

Mário Quintana

* Post dedicado ao meu amigo João Araújo que copiou(de memória!) esses versos de Quintana num guardanapo e me deu, em plena manhã de trabalho. Meu amigo, esse seu gesto transformou-se em talismã pra mim. Obrigada!

19 janeiro 2011

sobre a fragilidade dos percursos humanos


Íamos. Separados. Mas íamos. As águas tornaram-se turvas e violentas, ver qualquer perigo sob elas era impossível. A pequena embarcação completou a travessia com o casco rachado, a vela rota, o mastro quebrado. Íamos. Apenas. Marinheiros de última viagem, tontos e perdidos, orávamos por socorro remando cada um para um lado. Estrangeiros de nós. Apartados de nossa bússola e desesperados por atracar em qualquer porto.

Desejos de descoberta e terra firme tornaram-se apenas uma lembrança. Qualquer ilha fantasma nos bastava para atracar. E aquele ranço na boca, a falta d'água, nos secava por dentro. Nem ao menos simples palavras eram ditas. Somente o olhar declarava nossa morte lenta e acelerava o peito, guardião de memórias líquidas.

Terra. Pobre terra à vista. Meu pé nu, pisando o chão, tinha o conforto das fortalezas que se erguem à beira do mar: pedras, grandes e densas árvores alongando-se por toda a praia. Olhei pela última vez a precária embarcação destruída e lembrei de quando embarcamos. Sua fragilidade era visível, não pensávamos preservar nossas vidas. E cegos, adentramos o desconhecido para nos desconhecermos e nos afastarmos da outra margem e voltarmos a ser apenas tu e eu: para seguir teu adiante. Para seguir meu adiante.

Imagem: "Boats" por Valéria Pires dos Santos

http://www.redbubble.com/people/valeriart

17 janeiro 2011

posso escrever os versos mais tristes esta noite


Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Escrever, por exemplo: "A noite está estrelada,
e tiritam, azuis, os astros lá ao longe".
O vento da noite gira no céu e canta.

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Eu amei-a e por vezes ela também me amou.
Em noites como esta tive-a em meus braços.
Beijei-a tantas vezes sob o céu infinito.

Ela amou-me, por vezes eu também a amava.
Como não ter amado os seus grandes olhos fixos.
Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Pensar que não a tenho. Sentir que já a perdi.

Ouvir a noite imensa, mais imensa sem ela.
E o verso cai na alma como no pasto o orvalho.
Importa lá que o meu amor não pudesse guardá-la.
A noite está estrelada e ela não está comigo.

Isso é tudo. Ao longe alguém canta. Ao longe.
A minha alma não se contenta com havê-la perdido.
Como para chegá-la a mim o meu olhar procura-a.
O meu coração procura-a, ela não está comigo.

A mesma noite que faz branquejar as mesmas árvores.
Nós dois, os de então, já não somos os mesmos.
Já não a amo, é verdade, mas tanto que a amei.
Esta voz buscava o vento para tocar-lhe o ouvido.

De outro. Será de outro. Como antes dos meus beijos.
A voz, o corpo claro. Os seus olhos infinitos.
Já não a amo, é verdade, mas talvez a ame ainda.
É tão curto o amor, tão longo o esquecimento.

Porque em noites como esta tive-a em meus braços,
a minha alma não se contenta por havê-la perdido.
Embora seja a última dor que ela me causa,
e estes sejam os últimos versos que lhe escrevo.

Pablo Neruda
Imagem: Noite estrelada, Vincent Van Gogh