"o resto é mar. é tudo o que eu não sei contar..."

31 dezembro 2010

2011

que 2011 seja. que ele ultrapasse os planos e se faça na vida de cada um que sonha e realiza.

***

que deixe coisas pequenas na poeira do passado, detrás daquela porta que em breve estará fechada.

Receita de Ano Novo




Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)



Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.



Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

Carlos Drummond de Andrade

30 dezembro 2010

para 2011



leveza

viver: por Calligaris V

"Talvez haja covardia em não conseguir declarar que um amor terminou, assim como talvez haja covardia na incapacidade de escutar essa declaração. Há a covardia de quem some e também de quem sobra, quando ambos parecem precisar do sumiço de um dos dois para aceitar que a história chegou ao fim.

Há covardia também em fingir que a relação continua, quando ela já morreu. Alguém, aliás, pode sumir para fugir de sua própria covardia, que o mantém calado, ou para fugir da covardia do outro, que não quer ouvir uma frase de despedida.
(...)

Seja como for, muitas vezes, alguém acaba uma relação e some porque o que era (e talvez ainda seja) seu desejo se transformou numa exigência intolerável.

(...)

Meu voto para o Ano Novo: que nos preocupemos menos em mudar nossas vidas e encontremos jeitos de conseguir desejar o que já desejamos sem transformar nosso desejo em obrigação."

http://contardocalligaris.blogspot.com/

29 dezembro 2010

O segundo sexo - Simone de Beauvoir



É bem mais fácil ser uma mulher que obedece regras preestabelecidas do que ser aquela que cria as próprias regras.

"No momento em que as mulheres começam a tomar parte na elaboração do mundo, esse mundo é ainda um mundo que pertence aos homens. Eles bem o sabem, elas mal duvidam. Recusar ser o Outro, recusar a cumplicidade com o homem seria para elas renunciar a todas as vantagens que a aliança com a casta superior pode conferir-lhes. O homem suserano protegerá materialmente a mulher vassala e se encarregará de lhe justificar a existência: com o risco econômico, ela esquiva o risco metafísico de uma liberdade que deve inventar seus fins sem auxílios. Efetivamente, ao lado da pretensão de todo indivíduo de se afirmar como sujeito, que é uma pretensão ética, há também a tentação de fugir de sua liberdade e de constituir-se em coisa. É um caminho nefasto porque passivo, alienado, perdido, e então esse indivíduo é presa de vontades estranhas, cortado de sua transcendência, frustrado de todo valor. Mas é um caminho fácil: evitam-se com ele a angústia e a tensão da existência autenticamente assumida."

ser ou não ser: eis a questão.



doente é a mente de quem pensa que o homem é um ser estanque e sem o mínimo de subjetividade a ponto de nunca mudar de opinião só por que deus quer que seja assim.

Em Hamlet, Shakespeare empresta uma excelente reflexão sobre "ser" à jovem, porém sábia, Ofélia. E ela acentua exatamente a dicotomia essência/aparência. Quantas vezes já nos deparamos com pessoas tão moralistas no discurso e tão pouco éticas e retas nas atitudes? Julgar os outros é muito fácil. Difícil é olhar pra dentro e admitir a podridão dos próprios sentimentos.

"Meu bom irmão, não faças como alguns pastores impostores que ensinam o áspero e espinhoso caminho do céu, enquanto, fazendo pouco caso dos próprios juramentos, libertinos jactansiosos e indiferentes, pisam na senda florida dos prazeres, distantes da própria doutrina que proferiram."

Imagem: Ophelia (1851–1852), pintura a óleo de autoria do artista inglês John Everett Millais.

28 dezembro 2010

3x4



Por que a fotografia 3x4 da carteira de identidade incomoda?
Apesar de perseguirmos a vida estável, sentimos a necessidade constante de mudança. Mudar, para muitos, significa evoluir. E a fotografia no R.G. guarda, congelada, uma vida que já passou, qual fruta que cai do pé.
A fotografia no R.G. nos lembra, a todo momento, o quanto fomos imperfeitos, situação pretensamente distante da atual em que sempre será melhor, pelo menos visualmente, nossa aparência e, às vezes, nosso caráter.
A fotografia do R.G. apresenta-nos aos outros de uma maneira tão terrível que a escondemos como uma mancha, como uma nódoa.
E ai de quem ousar abrir essa caixa de pandora sem nosso consentimento.

amor próprio



"Sem o amor-próprio nenhuma vida é possível, nem sequer a mais leve decisão, só desespero e rigidez."

Hugo Hofmannsthal

Escultura: Impassibilidade. Auguste Puttemans (1866-1927), escultor belga. Obra pertencente ao acervo da Pinacoteca do Estado de São Paulo.

Quatro faxinas que você precisa fazer antes de acabar o ano




"Não se contente com aquilo que não está bom. Mas acredite que o primeiro coração que deve estar forte, nutrido e ser amado é o seu. Assim, invista no seu amor-próprio.

http://estilo.uol.com.br/comportamento/ultnot/2010/12/27/quatro-faxinas-que-voce-precisa-fazer-antes-de-acabar-o-ano.jhtm

25 dezembro 2010

Noite feliz

Vesti a calça jeans, camiseta branca, calcei uma sandália e saí. Eram onze horas da noite e eu saía pela rua como se onze da manhã. Saí por não agüentar a casa repleta de vozes, corpos e conversas que eu não conseguia distinguir. Minha presença não fazia diferença.

Segui até o mirante deserto. Subi as escadas e, enquanto subia olhava para baixo, tentando distrair-me com alguém que passava, mas tudo o que vi foi um cachorro deitado na praça, creio que dormia, tão quieto estava. Subi, cheguei ao topo, deitei. Olhei para o céu e senti as estrelas perto de mim, o céu, quase colado ao meu peito, sem lua e o cheiro bom da madrugada chegando.

Tentei não pensar, mas sempre lembrava algo e me perguntava a razão de existir. Era Natal e eu ali. Sozinha, iluminada pelas luzes do mirante, o enfeite de Natal. Deixara minha casa, os convidados, as comidas e as bebidas. Precisava de paz. Sozinha, remoia o passado sempre presente e sentia angústia por não me compreender. No Natal, todos esperam a ceia, meia hora depois, saem de volta para suas casas, em qualquer outro lugar. E o que fica? Louça suja.

Não sentia vontade de chorar nem de voltar para casa. Só queria estar ali o tempo necessário para me encontrar e o remédio para a dor que eu sentia. Logo, logo amanheceria e eu continuaria com a mesma dor e ainda teria que voltar para casa. Sozinha.

Começo a me convencer de que somos sós. Amamos gratuitamente, suamos e batalhamos para nós e a vida acaba sendo um jogo que você joga sozinho. A casa estava cheia e eu só. Agora estou vazia ao meu redor e cheia de mim aqui dentro. Estou cansada, mas não tão entorpecida que me faça dormir. Quisera ter o sono pesado para não pensar e dormir sem sonhar.

Meia-noite ouvi “Noite feliz” bem longe. Saberia aquela mulher o que a cantiga quer dizer? Repetimos como papagaios uma ladainha sem sentido. Quisera ter a ignorância da maioria, talvez estes questionamentos não existissem em mim. Dói pensar. Sou medíocre, mediana, tudo pela metade: a vida, os sonhos, os projetos. Tudo artificialmente colorido, e o miolo se esconde incolor.

Quisera ser o cachorro dormindo quieto na praça. Sem se incomodar com a noite feliz, sem sentir o ronco da sua barriga, as pulgas a sugar seu sangue anêmico. Seria ele satisfeito com o que tinha? Seria tão infeliz quanto eu? Seria tão injusto quanto eu?
Os primeiros raios de sol iluminavam o cantinho de céu, o cheiro bom da madrugada há muito tinha se ido e tivera eu a impressão de que acabara de chegar e deitar.

Levantei, olhei para baixo e uma vertigem me fez segurar firme a barra de ferro em que me apoiava. Fechei os olhos e tornei a abri-los bem devagar. Olhei a praça e lá estava o cachorro: tranqüilo e deitado no mesmo lugar. Desci devagar, olhando os degraus. Ninguém por perto, nem no mirante, nem na rua que dividia a praça. E o cachorro lá. Fui em direção a ele, parei ao seu lado e ele não acordou. Bati o pé e nada. Estava tão doce sua expressão... Estava morto.

23 dezembro 2010

dois

quero alguém que me queira tanto
a ponto de me provar que vale a pena
remendar minha alma.

alguém que me queira tanto
a ponto de desfazer meus defeitos
como desfaria o simples laço do meu vestido.

alguém que me queira tanto
a ponto de me guardar e
cuidar dos meus olhos como se fossem seus.

alguém capaz de construir pontes
entre nossos mundos e derrubar qualquer parede,
muro ou fortaleza entre nós.

alguém que, mesmo distante, se faça presente
ao lembrar um botão ou agulha,
mesmo nas maiores lonjuras.

alguém sem medo da entrega, do desconhecido.
alguém disposto a ser dois em um e
em cada um, ao mesmo tempo, dois.

22 dezembro 2010

sobre o amor e o tempo

(...)
O primeiro remédio que dizíamos, é o tempo. Tudo cura o tempo, tudo faz esquecer, tudo gasta, tudo digere, tudo acaba. Atreve-se o tempo a colunas de mármore, quanto mais a corações de cera? São as afeições como as vidas, que não há mais certo de haverem de durar pouco, que terem durado muito. São como as linhas que partem do centro para a circunferência, que tanto mais continuadas, tanto menos unidas. Por isso os Antigos sabiamente pintaram o amor menino; porque não há amor tão robusto que chegue a ser velho. De todos os instrumentos com que o armou natureza,o desarma o tempo. Afrouxa-lhe o arco, com que já não atira; embota-lhe as setas, com que já não fere; abre-lhe os olhos, com que vê o que não via; e faz-lhe crescer as asas, com que voa e foge. A razão natural de toda esta diferença, é porque o tempo tira a novidade às cousas, descobre-lhe defeitos, enfastia-lhe o gosto, e basta que sejam usadas para não serem as mesmas. Gasta-se o ferro com o uso, quanto mais amor? O mesmo amor é a causa de não amar, e o de ter amado muito, de amar menos.
(...)

Antônio Vieira (1608 - 1697), jesuíta português.

La maison en petits cubes



Curta metragem vencedor do Óscar de melhor curta animação em 2008. Dirigido por Kunio Katô, La Maison en petits cubes também ganha mérito pela trilha sonora de Kenji Kondo.

O curta mostra a importância de uma vida bem vivida no período jovem/adulto para nosso possível futuro: a velhice. O que resta são lembranças e quando são boas, fica bem mais fácil conviver com a solidão.

21 dezembro 2010

A arte da prudência

LXXXIX
Compreensão de si:
no gênio, no engenho, em ditames e afetos. Não pode ser senhor de si quem antes não se compreende. Há espelhos do rosto, não os há da alma; seja-o a discreta reflexão sobre si; e, quando alguém se esqueça da imagem exterior, conserve a interior para emendá-la, para melhorá-la. Conheça cada um a força de sua prudência e sutileza para o empreender; pondere cada um seu afã para empenhar-se; meça cada um seu fundo e pese seu cabedal para tudo.

Baltasar Gracián(1601-1658), jesuíta espanhol.

18 dezembro 2010

quem quer?

quem sabe cantar a cor do dia?
eu não sei
e sei que nunca saberei.

quem sabe conter o choro e a dor?
eu não sei
e sei que nunca saberei.

quem sabe, roto de esperanças,
olhar verde
e respirar branca paz em meio a destroços?

quem sabe, aprendiz humilde de pequenas coisas vitais,
olhar outras vidas diversas da sua
e admirar outro rosto que não o seu?

quem sabe olhar, ver, compreender
a beleza do inexato, da incerteza, da escuridão
que guia nossos passos pelo mundo?

quem está disposto a provar o sabor e saber
que a vida não é como quiseram,
rosa projetada no jardim?

quem quer olhar a estrada, além daquilo que ela mostra?
quem quer acordar para outros sentimentos e, no calor da vida,
pintar novas cores, sentir outros toques
e espalhar novos aromas? quem quer?

15 dezembro 2010

Dissolução



Escurece, enão me seduz
tatear sequer uma lâmpada.
Pois que aprouve ao dia findar,
aceito a noite.

E com ela aceito que brote
uma ordem outra de seres
e coisas não figuradas.
Braços cruzados.

Vazio de quanto amávamos,
mais vasto é o céu. Povoações
surgem do vácuo.
Habito alguma?

E nem destaco minha pele
da confluente escuridão.
Um fim unânime concentra-se
e pousa no ar. Hesitando.

E aquele agressivo espírito
que o dia carrega consigo,
já não oprime. Assim a paz,
destroçada.

Vai durar mil anos, ou
extinguir-se na cor do galo?
Esta rosa é definitiva,
ainda que pobre.

Imaginação, falsa demente,
já te desprezo. E tu, palavra.
No mundo, perene trânsito,
calamo-nos.
E sem alma, corpo, és suave.

Poema: Carlos Drummond de Andrade (Claro Enigma)
Imagem: La femme et le roses, Marc Chagall

sobre poetas pequenos poetas

quem se angustia com o esconderijo de uma rima e não consegue completar sua existência não pode se chamar poeta. o poeta é criador de impossíveis: gerar mundos improváveis é sua sina.
se se contentar com o mundo e com tudo o que nele existe fosse destino de poetas, precisaríamos de mentes tolas para equilibrar tanta idiotice que haveria no mundo.
não fujo dos meus demônios:
conheço um a um pelo nome.
de que adianta incendiar,
se a tempestade sempre vem
e rebrota verde
por todo canto,
no recôndito mais longínquo?

conheço meus demônios um a um
e se os matar,
talvez mate um pouco minha inocência
e meu desejo de brincar com o proibido,
expôr as asas ao corte.
matá-los não seria solução.
seria, talvez, apenas versos
de uma canção,
rimas de um poema banal.

12 dezembro 2010

a fotografia e fotos na estante

os dois posts anteriores são o resultado de um elo que acabei de fazer. a música do skank (que acabei de ouvir na fm) me fez lembrar esse contículo meu. há muito o escrevi, em terceira pessoa, com eu lírico masculino: minha forma de tentar compreender algumas atitudes masculinas (se bem que algumas delas se excluem de explicações e compreensões.)
quem, um dia, é deixado, só quer explicações. nada mais. embora não haja nada que explique o amor, a fuga, a falta de amor...

"nosso amor quebrou como objeto"

a fotografia

Logo que entrou na sala percebeu o porta-retrato vazio em cima do sofá. Foi em direção ao quarto, abriu a parte dela no guarda-roupa: também estava vazia. Exceto por uma aranha que prendia em sua teia uma traça. Desfez a teia com o dedo e matou a aranha com a palma da mão. Sentou na cama e fitou o chão, o gaurda-roupa, o espelho... esperando perceber algo esquecido para poder ter a desculpa de procurá-la.

Quis chorar, quis gritar, quis ligar para ela e dizer desaforos, ameaças, pedir para ela voltar. Voltou à sala, ligou a tv, segurou o porta-retrato deitou-se no sofá, assistiu a última programação e dormiu a segurá-lo. Na manhã do outro dia ainda se fazia chuva e o frio congelava os ossos. Arrumou a casa como fazia sempre antes, guardou o vazio na última gaveta da estante. Decidiu viver e esperar o dia.

Os dias passam e com eles os ventos, os meses, as chuvas. Ela voltou. Sem a mala que levara, mas voltou. Tinha esquecido algo, não sabia onde. Um vestido. Foram procurar, e no lado dele (o dela continuava vazio desde o dia) lá estava uma renda alva empacotada em um transparente, embaixo de vários outros pacotes.

Ela chorou, gritou, disse desaforos, ameaças, pediu para voltar. Ele abriu os braços. Naquele dia os dois dormiram como há muito não dormiam e sonharam e sorriram e fizeram o que jamais haviam feito. Ela trouxe de volta tudo o que levou embora, menos a fotografia dos dois no dia do casamento.

Ele perdoou e colocou outra fotografia e o levou à prateleira mais alta da estante, mas o que era cicatriz se abriu em flor e verteu nectar em sangue e o que era uma dor longe, só lembrança, voltou ao latejar dos primeiros dias. Um dia, bem cedo, ele preparou a bandeja do café com tudo o que ela gostava, uma rosa e um bilhete.

Ele, que não fumava, não voltou mais. Levou somente a roupa do corpo e deixou na casa tudo o que era dela.

fotos na estante



Sem mais nem menos
Sem remédio, sem desculpa
Em horas tortas
Horas tímidas, ocultas
Pelas esquinas
De olhares indiscretos
O nosso amor
Amor claro de objeto
Sem dor ou crime
Amor simples e direto
Entre os pássaros de barro descansando na estante
Pelas costas amarelas dessas fotos insinceras
Descobri lindas mentiras tão terríveis quanto belas
Digo o que fazer então, são memórias tão reais
Do que nunca aconteceu

Desenhei miragens tolas
Nas margens do seu deserto
E uma verdade impossível
Só pra ter você por perto.

Skank

Nel mezzo del camin...



Cheguei. Chegaste. Vinhas fatigada
E triste, e triste e fatigado eu vinha.
Tinhas a alma de sonhos povoada,
E a alma de sonhos povoada eu tinha...

E paramos de súbito na estrada
Da vida: longos anos, presa à minha
A tua mão, a vista deslumbrada
Tive da luz que teu olhar continha.

Hoje, segues de novo... Na partida
Nem o pranto os teus olhos umedece,
Nem te comove a dor da despedida.

E eu, solitário, volto a face, e tremo,
Vendo o teu vulto que desaparece
Na extrema curva do caminho extremo.

Olavo Bilac

Este soneto deu origem ao poema irônico de Drummond: No meio do caminho... Os motivos modernistas para "zoar" com os parnasianos eram legítimos. Isso, de certo modo, é incontestável. Mas incontestável também é a beleza do soneto de Bilac: de fato, é um pequeno som, mas muito belo e profundo, principalmente por conta das reflexões sugeridas sobre chegadas e partidas, enlaces e desenlaces vividos por qualquer um de nós nesse "caminho extremo". Além das origens dantescas, é claro.

Escultura do italiano Antonio Canova, Eros e Psiquê (1793).

relação conturbada

11 dezembro 2010

venha ver o pôr do sol



"Ah, Raquel, olha um pouco para esta tarde! Deprimente por quê? Não sei onde foi que eu li, a beleza não está nem na luz da manhã nem na sombra da tarde, está no crepúsculo, nesse meio-tom, nessa ambiguidade. Estou lhe dando um crepúsculo numa bandeja e você se queixa."

trecho da fala do personagem Ricardo do conto Venha ver o pôr do sol de Lígia Fagundes Telles.

imagem: pôr do sol às margens do rio Marataoã, na cidade de Barras-PI.

assim caminha a humanidade - por Milo Manara



Milo Manara (1945)- desenhista italiano mais conhecido pela vertente erótica da sua obra.

Freud explica...

08 dezembro 2010

liberdade na vida é...

ter um amor pra se prender.

Fabrício Carpinejar

Diretamente da Pó dos Livros

Pesadelo de criança

Na minha infância acontecia-me não pregar olho durante várias noites, tinha a sensação de que o tempo se concentrava todo em mim, como se o presente se perpetuasse e permanecesse eterno. Ficava ali, deitado, pressagiando a desgraça que me esperava. Agora adulto, continuo a não pregar olho e durante várias noites repito as sensações da minha infância, apesar de saber que: «uma infelicidade pressagiada é dez, cem vezes mais dura de suportar do que uma infelicidade que não esperávamos». *

Jaime Bulhosa

* E. M. Cioran

http://livrariapodoslivros.blogspot.com/

05 dezembro 2010

você dormia



lembro uma noite:
você dormia, eu lia.
num quarto de hotel,
a cama apertada
comportava seus sonhos
e meus livros.

era bom ouvir
sua respiração calma.

eu te olhava,
você dormia.
eu te amava,
você dormia.
eu gritava,
você dormia.

eu suplicava amor,
você continuava a dormir
e sonhava que me fazia feliz,
enquanto eu tecia
minha manhã
pobre de andorinhas.

03 dezembro 2010




"E veio, veio à tarde, sem as palavras de Romeu, sem as ideias, ao menos de toda a gente, vulgar, casmurro, quase sem maneiras; veio, e Cecília, que almoçara e jantara com Romeu, lera a peça ainda uma vez durante o dia, para saborear a música da véspera. Cecília apertou-lhe a mão comovida, tão-somente porque o amava. Isto quer dizer que todo amado vale um Romeu. Casaram-se meses depois; têm agora dous filhos, parece que muito bonitos e inteligentes. Saem a ela."

Último parágrafo do conto Curta História, de Machado de Assis. Mais um que compreende "o que querem as mulheres". Ou seja, nem tudo está perdido... (ops! Machado já morreu!!!! Acho que tudo está perdido sim...)

Vale a pena conferir o texto na íntegra.

02 dezembro 2010

A dor é inevitável. O sofrimento é opcional



"A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência egoísta que nada arrisca e que, esquivando-nos do sofrimento, perdemos também a felicidade.

A dor é inevitável. O sofrimento é opcional."

Carlos Drummond de Andrade

30 novembro 2010

sobre o medo e o tempo

o que me move é o medo.
o medo das certezas estanques,
dos rótulos,
dos adjetivos,
dos olhares.
o que me move é bem menos
do que vaidade,
verdade
ou vontade
cravadas em meus olhos,
bombeando meu sangue.
o que me move são as incertezas.

***

não tenho mais tempo
para parar.
o mundo não vai parar
de girar pra eu me encontrar.
ninguém pode ser responsabilizado
pelas escolhas que fiz.
não posso culpar ninguém
pelo que acontece no meu mundo.
não sou melhor do que ninguém,
mas também não sou pior.
atravesso meus dias com os olhos
no além do horizonte que pintei.
e, apesar das negativas,
sou uma afirmativa a tudo o que é vida,
a tudo o que viceja.
não tenho pulso de lustrar algo opaco por natureza.
pior do que não ter pulso, não quero ter pulso
para perder tempo lutando contra a natureza.
minha natureza não me permite
ir de encontro a outras naturezas.
não preciso da morte para dar valor à vida,
para saber o que é vida.

28 novembro 2010

cordão




Letra de Chico Buarque, presente no álbum Construção de 1971. Uma ótima reflexão sobre a vida e sobre os sentimentos que esquecemos de cultivar.

Ninguém
Ninguém vai me segurar
Ninguém há de me fechar
As portas do coração
Ninguém
Ninguém vai me sujeitar
A trancar no peito a minha paixão

Eu não
Eu não vou desesperar
Eu não vou renunciar
Fugir
Ninguém
Ninguém vai me acorrentar
Enquanto eu puder cantar
Enquanto eu puder sorrir

Ninguém
Ninguém vai me ver sofrer
Ninguém vai me surpreender
Na noite da solidão
Pois quem
Tiver nada pra perder
Vai formar comigo o imenso cordão


E então
Quero ver o vendaval
Quero ver o carnaval
Sair
Ninguém
Ninguém vai me acorrentar
Enquanto eu puder cantar
Enquanto eu puder sorrir
Enquanto eu puder cantar
Alguém vai ter que me ouvir
Enquanto eu puder cantar
Enquanto eu puder seguir
Enquanto eu puder cantar
Enquanto eu puder sorrir

27 novembro 2010

minha canção



Ela vinha sem muita conversa. Beijava como se nunca. Beijava e me deixava sem saber mais de mim. E olhava. Olhava minha boca, meus olhos, pescoço, cabelo e eu perguntava o que foi e ela erguia as sobrancelhas, esboçando o sorriso dos olhos. Pegava minhas mãos, tocava minhas unhas, media meus calos e comparava aos seus. Ela olhava mais, como se não conseguisse dizer nada sobre o que estava sentindo, como se o coração fosse os olhos e olhar fosse amar.

Eu queria ler os pensamentos dela, adentrar no canto do olho e me ler no reflexo negro de suas pupilas. Às vezes, quando olhava fixamente para o nada, a obsessão me invadia a alma e me tomava de fúria disfarçada com a voz branda, esgarçada de dor, quando perguntava o que ela pensava e me respondia umas palavras tolas, não era nada, e eu sabia que era algo sim.

Ela tinha o péssimo hábito de quebrar minha expectativa. Enquanto eu confessava meus botões, ela vinha com umas palavras novas, com músicas novas e até sobre meu nome ela especulava. Ela me distraía e eu só soube quando ela me disse.

Eu sonhava com noites e dias de perdição, contrariando minha orientação cristã, e ela me mostrava e escondia, me dava e tomava de minhas mãos, acordava e sacudia o pequeno demônio que eu relutava em matar, esconder, esquecer e que morava em meu peito e se espalhava por meus braços e mãos ao agarrá-la.

Ela teimava, não me dizia o que eu queria ouvir. Ela só confessava a loucura de nossas vidas quando eu, enlouquecido, gritava e pedia que ela também gritasse, desvairada. Eu pedia pra ela descer do muro e ela só me olhava, feito felina acuada, enfurecidamente domesticada, precisando do conforto dos meus braços, sem querer confessar.

Fiz uma música sem refrão, sem rimas ricas, acompanhado pelo violão. Eu, compositor bissexto, me animava com a inspiração e fazia imitações de músicas que já existiram e era êmulo de minha própria criação. Eu,perfeccionista e entendedor de tudo, vocação de professor, errava e mostrava meu erro quantas vezes ela pedisse. Mas ela não pedia.

Ela mentia, dizia do cansaço, repetia nãos com o peito ecoando sins, desconversava, olhava e nada dizia, só pra me ouvir insistir depois de tantas recusas. Por que eu sabia que ela me queria, embora ela não desse ouvidos à minha canção que pedia que ela ficasse comigo. Só comigo.

nada como o tempo




Quando depositamos muita confiança ou expectativas em uma pessoa, o risco de se decepcionar é grande. As pessoas não estão neste mundo para satisfazer as nossas expectativas, assim como não estamos aqui, para satisfazer as dela. Temos que nos bastar... nos bastar sempre e quando procuramos estar com alguém, temos que nos conscientizar de que estamos juntos porque gostamos, porque queremos e nos sentimos bem, nunca por precisar de alguém. As pessoas não se precisam, elas se completam... não por serem metades, mas por serem inteiras, dispostas a dividir objetivos comuns, alegrias e vida. Com o tempo, você vai percebendo que para ser feliz com a outra pessoa, você precisa em primeiro lugar, não precisar dela. Percebe também que aquela pessoa que você ama (ou acha que ama) e que não quer nada com você, definitivamente, não é o homem ou a mulher de sua vida. Você aprende a gostar de você, a cuidar de você, e principalmente a gostar de quem gosta de você. O segredo é não cuidar das borboletas e sim cuidar do jardim para que elas venham até você. No final das contas, você vai achar não quem você estava procurando, mas quem estava procurando por você!

* Este texto tem um pequeno probleminha de autoria: É repetido aí na rede que é de Mário Quintana, mas não é. A suposta autora é Kátia Cruz. Digo suposta por que muito se especula em relação a isso, mas a certeza é de que não é de Quintana.
Mesmo com essa confusão, o texto não deixa de fazer uma boa reflexão sobre o amor.
Imagem: Escultura de Camille Claudel - Valsa

amor é síntese




Por favor, não me analise
Não fique procurando
cada ponto fraco meu
Se ninguém resiste a uma análise
profunda, quanto mais eu!
Ciumenta, exigente, insegura, carente
toda cheia de marcas que a vida deixou:
Veja em cada exigência
um grito de carência,
um pedido de amor!

Amor, amor é síntese,
uma integração de dados:
não há que tirar nem pôr.
Não me corte em fatias,
(ninguém abraça um pedaço),
me envolva todo em seus braços
E eu serei perfeita, amor!

(Do livro "Bom dia amor!", Mirthes Mathias, Juerp, 1990)

cara valente!

Música (perfeita!) do Marcelo Camelo. Interpretação de Maria Rita (quando ela se afasta do fantasma da mãe, consegue ser uma boa cantora).
Não, ele não vai mais dobrar
Pode até se acostumar
Ele vai viver sozinho
Desaprendeu a dividir...
Foi escolher o mal-me-quer
Entre o amor de uma mulher
E as certezas do caminho
Ele não pôde se entregar
E agora vai ter de pagar
Com o coração Olha lá!
Ele não é feliz
Sempre diz
Que é do tipo
Cara Valente
Mas veja só
A gente sabe...
Esse humor
É coisa de um rapaz
Que sem ter proteção
Foi se esconder atrás
Da cara de vilão
Então, não faz assim rapaz
Não bota esse cartaz
A gente não cai não...
Ê! Ê! Ele não é de nada
Oiá!!! Essa cara amarrada É só!
Um jeito de viver na pior
Ê! Ê! Ele não é de nada
Oiá!!! Essa cara amarrada É só!
Um jeito de viver
Nesse mundo de mágoas...

26 novembro 2010

sobre a felicidade

"felicidade é agora!"

sábias palavras de mamãe...

viver: por Calligaris IV

"Posso respeitar a tenacidade corajosa de quem se mantém fiel a suas convicções, mas no que ela difere da teima de quem se esconde atrás dessa fidelidade porque não sabe negociar com quem pensa diferente e com o emaranhado das circunstâncias que mudam? Aplicar princípios e nunca se afastar deles é uma prova de coragem? Ou é a covardice de quem evita se sujar com as nuances da vida concreta?"

"A coerência é o último refúgio de quem tem pouca fantasia e, talvez, de quem tem pouca coragem."

http://contardocalligaris.blogspot.com/2010/11/coerencia-e-um-valor-moral.html

24 novembro 2010

sobre a liberdade

tanta tinta vertida
na vã tentativa
de descrever
a liberdade...

posso dizer
que serei apenas mais uma
a investir meu tempo
sobre os conceitos do ar.

de ar se faz a liberdade,
seu verbo é voar -
sempre no infinitivo -
pronta para toda conjugação.

não é artigo que se compre,
em ponta de estoque
de liquidação,
embora esteja ao alcance das mãos.

não é artigo que se ganhe
num abraço, num olhar -
essas coisas dos sentidos
aprisionam a verdadeira liberdade.

por ser ar, podemos tê-la
no peito -
encher plenamente os pulmões
é o pleno exercício de liberdade.

por ser ar, dá vida,
gera o fogo, sustenta o voo dos pássaros -
únicos dotados desde nascença
da arte do ar.

por ser ar, suprime a vida,
se nos falta.
não há como substituí-lo
de nossa constituição.

há quem pense em encher os pulmões
de amor,
de dinheiro,
de fama.

sem saber que as chaves da prisão
têm vários nomes,
e que liberdade mesmo
só existe no ar.

não posso pegá-la,
guardá-la,
escondê-la dos invejosos.
a mim, só me resta viver.

encho os pulmões na manhã cinzenta
e percorro os mesmos caminhos,
quantas vezes sentir vontade -
a pulsão para o ar.

essa minha liberdade:
errar, tentando acertar.
saber ter o ar
que me cerca, me envolve

e me lança
sobre abismos,
vales,
planícies.

22 novembro 2010

amor: estrada de fazer o sonho acontecer

Uma bela canção de amor cura qualquer dor de cotovelo. A alegria de estar bem, apesar de tudo, me faz mais forte. E quando penso no que já vivi, só posso sorrir. É quando percebo que olhar pra trás é um folhear incessante do álbum de retratos esquecido. E meus olhos tornam a colorir o mundo.

Salve, Milton Nascimento!

durante a viagem,
quem se detém a apenas um dos lados da estrada
termina perdendo todo o outro lado.

18 novembro 2010

hoje descobri que somente os pombos vivem de migalhas.
e que eu só posso sobreviver com migalhas.

hoje descobri, meio sem querer, que as pequenas vontades
são nossos maiores desejos reduzidos a poucas frações,
pois realizá-los inteiros nos parece muito longe
e na pressa de ter e chegar a algum lugar, nos contentamos
com a sombra do pouco desejo abafado.

hoje descobri, em meio ao choro, que não devo mais seguir
se não posso mais sonhar.
que a vida é ruim e que se não for a pulsão de uma paixão,
morre-se um pouco a cada passo do nem tão longo caminho.

hoje descobri que as piores mentiras são aquelas susurradas no escuro,
de olhos fechados. e que o pior adeus é dito com o olhar, num piscar de olhos
displicente, em meio a bocejos e silêncios castradores.

hoje, manhã cinza e molhada, chorava pelo meu sono quebrado,
fatigado e empobrecido, casa de solidão, pulso enfraquecido.
hoje descobri que eu não vi nada além do que queria ver.

17 novembro 2010

a beleza dela era uns pardais nos fios elétricos,
chiando,
interrompendo o silêncio da manhã.
e assim, dissonante, ela povoou
os mais silenciosos pensamentos
dele.
com esse sol
e esse céu
não me iludo.

onde pingou um dia
cairão nuvens
sobre meu luto.

não adianta

Não adianta,
Não adianta nada ver a banda
Tocando “A Banda” em frente da varanda.
Não adianta o mar,
E nem a sua dor.

Não adianta,
Não adianta o bonde, a esperança,
E nem voltar um dia a ser criança.
O sonho acabou.
E o que adiantou?

Não tenho pressa,
Mas tenho um preço,
E todos têm um preço.
E tenho um canto,
um velho endereço.
O resto é com vocês,
O resto não tem vez.

O que importa,
É que já não me importa, o que importa,
É que ninguém bateu em minha porta,
É que ninguém morreu, ninguém morreu por mim.

Não quero nada,
Não deixo nada, que não tenho nada,
Só tenho o que me falta e o que me basta,
No mais é ficar só,
Eu quero ficar só.

Não adianta,
Não adianta, que não adianta,
Não é preciso, que não é preciso,
Então pra que chorar?
Então pra que chorar?
Quem está no fogo, está pra se queimar,
Então pra que chorar?

Sérgio Sampaio

10 novembro 2010

beijos, blues e poesia

"Eu lembro beijos, blues e poesia.
O sal na pele, você me lambia
E eu dizia: "Oh baby, I love you"

Eu lembro a cara que você fazia
Será que eu lembro o que não existia?
Você dizia: "Oh baby, I love you"

K-sis

eu tive um professor que dizia que a música é a arte mais completa por que "pega o ouvinte por trás"... e eu concordo com ele. há muito tempo ouvia essa musiquinha, mas só entendia o "Baby, I love you". Nada extraordinário, uma das frases em inglês mais repetidas por aí. Mas não era a frase, em si, que me chamava a atenção, era o jeito lânguido daquela voz tão feminina dizer "Baby, I love you". Aí, hoje, conversando com uma amiga numa sorveteria, um sujeito sentou à mesa ao lado da nossa, ligou o celular e ouviu a música umas 3 vezes... aquilo me incomodou de um jeito, que eu não conseguia mais prestar atenção na nossa conversa. e a voz feminina no meu ouvido: "E eu dizia; "Baby, I love you"... Vim procurar a letra e me deparei com essas imagens: "o sal na pele, você me lambia"... quantas músicas dizem essa mesma coisa, mas de maneira vulgar? Eis a diferença!

08 novembro 2010

palavra é afago pra quem quer sublimar uma falta.
qualquer palavra.
mesmo fora do lugar,
mesmo noutro lugar.
a palavra é afago para quem quer ser perdoado.

29 outubro 2010

razão. ou não...

ela olhava insistentemente a página em branco do novo e.mail, mas não conseguia escrever nada. esboçava os dois primeiros períodos, com verbos no passado, e desculpas pelo tom de memória e tristeza. Fez por volta de dez esboços e, embora as palavras fossem outras, o sentido era o mesmo.
ela não conseguia eliminar de sua memória o beijo dado em meio a euforias e culpas. ela sabia que desejava aquele homem, mas perdera a aposta consigo mesma de resistir plenamente a qualquer investida, como forma de provar que era, de fato, mais razão do que emoção. perdera a disputa travada de si para si, sem lembrar que com isso não se joga, que com isso não se brinca.
antes do beijo, ela pensava que a química não surgiria ao toque dos lábios dele, que o cheiro, o clima e o perfume não favoreceriam a entrega e, por isso, ela estava segura de suas mais delicadas ações. mas paixão é traiçoeira e dá o bote pelas costas da vítima, que sucumbe em pouco tempo, rendendo-se, entregando-se e querendo viver, mesmo sentindo o veneno entopir suas veias.
ela já não sabia mais nada de si. então, decidiu começar definitivamente o e.mail pela centésima vez, para apagar o início mais uma vez. deixou a lamúria de lado e começou a despejar substantivos fortes, dispostos lado a lado, que enchiam a página em branco de um significado cor de desejo, vermelho: vontade, querer, sede...
a partir de então não havia mais o que planejar ou calcular. ela assumiu as tintas que queria dar à tela em branco e seguiu a escrever sem razão. sem querer ter razão.

28 outubro 2010

A teoria do terceiro encontro

"Ninguém é interessante além do terceiro encontro, eu disse certa vez para o meu antigo analista antes de trocá-lo pela literatura. As pessoas reservam suas ideias mais interessantes, suas táticas sedutoras, o melhor de si, para os três primeiros encontros. Depois, deixam transparecer aos poucos os pequenos defeitos, a sujeira debaixo do tapete, os detalhes sórdidos, as esquisitices. E o que era lindo fica feio. A perfeição se revela frágil. De longe, qualquer um pode ser lindo. Mas de perto, assim, bem de pertinho, ninguém é normal. E só se consegue chegar perto, furar a muralha que cada um constrói ao redor de si, depois do terceiro encontro. Essa muralha é feita de verdades muito bem selecionadas, ou meias verdades, ou mesmo mentiras."

por Fernando Paiva

Isso é só o começo. Continue a leitura em:
http://www.cronopios.com.br/site/prosa.asp?id=4752

Logical song (clip com filmes) ótimo!



Odeio filas!
De qualquer espécie.
Mas, ultimamente, não tenho tido muita sorte...
Ao chegar em qualquer lugar, lá está ela.
Imponentemente parada.
Me aborreço,
Expresso em voz alta minha insatisfação,
A fila não anda,
O tempo passa
E nem paciência pra ler e tentar me distrair eu consigo ter.
Aí eu viro um bicho!
Resmungo,
Troco a bolsa de braço,
Bato o pé direito,
bato o pé esquerdo...
E depois volto a esperar.
Quietinha. Amável. Domesticável. Um vegetalzinho.
Como diz o Skank, a nossa indignação é uma mosca sem asas: não ultrapassa as janelas de nossas casas.

25 outubro 2010

logical song (Breakfast in America, 1979)



the logical song, da banda inglesa Supertramp, é um clássico por motivos óbvios: sinaliza a fragilidade das relações humanas, enfatiza a importância dada às aparências e, acima de tudo, mostra o homem incapaz de compreender-se num mundo em que as pessoas esperam muito dos seus companheiros, menos aquilo o que eles realmente são.
além da música, que é perfeita! cheia de altos e baixos emocionantes e um refrão excepcional tanto pela reflexão imposta a quem ouve (There are times when all the world's asleep the questions run too deep for such a simple man), quanto pela guitarra melodiosa que a emoldura. isso sem falar no solo de sax, perfeito, uma das marcas registradas da banda.

The Logical Song

When I was young
It seemed that life was so wonderful
A miracle, oh it was beautiful, magical
And all the birds in the trees
Well they'd be singing so happily
Oh joyfully, oh playfully watching me
But then they sent me away
To teach me how to be sensible
Logical, oh responsible, practical
And they showed me a world
Where I could be so dependable
Oh clinical, oh intellectual, cynical

There are times when all the world's asleep
The questions run too deep
For such a simple man
Won't you please, please tell me what we've learned
I know it sounds absurd
But please tell me who I am

Now watch what you say
Or they'll be calling you a radical
A liberal, oh fanatical, criminal
Oh won't you sign up your name
We'd like to feel you're
Acceptable, respectable, oh presentable, a vegetable

At night when all the world's asleep
The questions run soo deep
For such a simple man
Won't you please, please tell me what we've learned
I know it sounds absurd
But please tell me who I am, who I am, who I am, who I am

A Canção Lógica

Quando eu era jovem
Parecia que a vida era tão maravilhosa
Um milagre, oh ela era tão bonita, mágica
E todos os pássaros nas árvores
Estavam cantando tão felizes
Oh alegres, brincalhões, me observando
Mas aí eles me mandaram embora
Para me ensinar a ser sensato
Lógico, oh responsável, prático
E me mostraram um mundo
Onde eu poderia ser muito confiável,
impessoal, intelectual, cético.

Algumas vezes, quando todo o mundo dorme
As questões seguem profundas demais
Para um homem tão simples
Por favor, me diga o que aprendemos
Eu sei que soa absurdo
Mas por favor me diga quem eu sou

Agora cuidado com o que você diz
Ou eles vão te chamar de radical
Um liberal, oh fanático, criminoso
Você não vai assinar seu nome?
Gostaríamos de sentir que você é
Aceitável, respeitável, apresentável, um vegetal!

A noite, quando todo o mundo dorme,
As questões seguem tão profundas
Para um homem tão simples
Por favor, me diga o que aprendemos
Eu sei que soa absurdo
Mas por favor me diga quem eu sou

link p/ o vídeo no Youtube: http://www.youtube.com/watch?v=RcX1qA1Etc8&NR=1

23 outubro 2010

(nada...)
nunca haveremos de ser
o bem e o belo classicamente repetidos para nós.
da perfeição ando longe.

mas, se você quiser lágrimas e suor
me veja e me note assim:
imperfeita,
sem pretensões divinas.
cheia de pequenos vícios fúteis,
banais,
cansados de existirem ininterruptamente
em todas as pessoas, por aí.

não me excluo dos defeitos,
nem sei distingui-los das brancas ações.
me faço esquecida entre o turvo
de algumas trevas que dissipo meio sem querer.
crio, no dia de sol, milhares de pequenas tempestades:
bebo a água que cai do céu
e que não me abençoa, que não me ilumina.
ela apenas me molha, como se fosse sua
a tarefa de me fazer mais humana e distante da virtuose dos escolhidos.

16 outubro 2010

sobre flores e cactos

enquanto vida eu tiver em minhas veias
flores e cactos viverão lado a lado.

não há porquês nem senões a justificar
a distância entre o que fere e o perfume.

a mesma gota d'água os molhará e os reviverá na seca.
no calor, abrandará as ondas de chama a cada hora.

ambos far-se-ão companhia, encostados no muro,
pressionado por pedras por todos os lado.

eles se suportarão: flores e cactos.
como irmãos. como amantes que se amam sem certeza,
sem sonhos futuros, sem se dar conta de que se completam,
de que precisam um do outro. e de que já vivem
sem dor, acostumados com o espaço pequeno para desenvolverem
suas particularidades e manias e trejeitos e tiques.
flores e cactos, então, serão um só, compondo a singela
paisagem do meu jardim.
Quem se acomoda, em geral, vive melhor mas, como dizia Leonardo Da Vinci, não passam de meros condutores de comida, não deixando rastro algum de sua passagem pelo mundo exceto latrinas cheias...

http://www.culturabrasil.pro.br/desobedienciacivil.htm

15 outubro 2010

ela olhava os carros atravessarem a ponte. olhava firmemente, mas não sabia se se jogava entre eles ou prolongava por mais algumas horas a angústia do abutre esgarçando o fígado.
'ninguém aguenta tanta dor sem pensar na morte'...
solução?
não. dificilmente haverá solução para a vida.

às vezes, há rima
...
revivo, através da fotografia, aquela tarde azul numa praça desconhecida. o céu fazia de sua camisa uma rápida extensão de tons e de calor. lembro seu olhar para o nada, cristalizado no close de perfil que apreendi, sem saber que seria a única imagem que me restaria depois de tanto tempo.
depois de tanto tempo, já queimei cartas, fotografias, memórias de perfumes e noites em que alternávamos frio e calor. mas o close no seu perfil evidenciava o infinito do seu olhar: foi o que ficou. a única memória que permaneceu foi aquilo que eu não soube entender, mistério indevassável.
tentava preencher lacunas de sentimentos e pensamentos. tentava interpretar cada jovem ruga que percebia ou inventava no seu rosto. tentava manipular no computador a imagem diversas vezes aproximada para achar um brilho no olhar, um reflexo na pupila castanha e cristalina que me revelasse você. que desnudasse algo.
depois de tanto tempo tentando achar razão para aquele olhar perdido, resolvi inventar uma: eu. e minha máquina. você simplesmente posava para se deixar fotografar: era a única maneira de você se entregar a mim, de eu ter você. era o único momento em que a plenitude da entrega acontecia. você, esfinge. você, reticente. você, distante, longe de mim sempre, mesmo em fotografia. você, mesmo ao entregar-se, esquiva-se. você, mesmo ao dizer que ama, assinala o tempo, destruidor de todas as coisas.
é assim que aquela fotografia permanece e me faz refém de algo que só entendo ao reinventá-lo. algo que me faz imaginar possibilidades várias, nunca concretizadas. possibilidades que, contudo, me salvam do desejo no qual imergi naquela tarde azul.

11 outubro 2010

danço eu, dança você na dança da solidão

se não nascer em mim a compreensão do outro, onde ela nascerá?
eu, humana, não devo ouvir o outro, meu semelhante?
eu, racional e esclarecida, poderia fechar meus olhos para os mendigos nas calçadas?
eu, atenta e sensível, nem imagino a dor alheia e já digo que sofro
que choro
que sou incompreendida.
reclamo de tudo e mais um pouco: se chove, quero sol; se faz sol, bendigo a chuva. se ganho, não era exatamente aquilo; se perco, o mundo está contra mim.
não tenho amigos. nem a mim mesmo faço companhia.
alguém já disse: "o mal do século é a solidão".
mas antes, alguém já havia universalizado: "desilusão, desilusão... danço eu, dança você na dança da solidão..."

no século XXI, isso se chama caos: todos falam, ninguém escuta. todos olham, ninguém vê.
no amor como na morte, andamos sós. contamos nossos passos na areia de uma ampulheta fadada a acabar, acabar e acabar somente para um dos lados.

o amor

amor...
amor???
esse dissílabo potente que enche a boca e povoa os dedos de desvairados por aí!!

26 setembro 2010

25 setembro 2010

autoritário é...

...aquele que não admite ser questionado.

23 setembro 2010

sobre o tédio

o tédio é a manifestação clara da falta de si mesmo.
aquele que se diz entediado não se conhece
nem nunca procurou conhecer-se, pois é incapaz
de procurar em si aquilo que de fato existe.

nota: o entediado é um, o insatisfeito, outro.

todo mundo morre de amor...

...e ressuscita no terceiro dia.

22 setembro 2010

se lembrar um amor antigo fosse construtivo, ela com certeza o teria esquecido. então sua mente se ocupa vorazmente dessas desnecessidades. ela não se importa em ser jogada para baixo do tapete, pó de gente que é. ela não liga se não ligam para seus ais, sarjeta cheia de lama. ela nem gente é: esqueceram de comunicar isso a ela.
ela vinha caminhando
e tropeçava a cada nova pedra.
ela vinha sonhando
e criava novos gestos.
ela ofertava o coração
exposto nas mãos calejadas.
ela nem sabia nada,
mas fingia-se lida e vivida.
ela nem era mais menina,
mas pedia colo, cafuné.
ela era ela:
pássaro desaprendendo a voar.

16 setembro 2010

nosso mal-estar amoroso

"Homens e mulheres, desistimos da laboriosa construção de afetos nobres e duradouros para satisfazer nossa "vergonhosa" sede de prazeres imediatos."

Contardo Calligaris

15 setembro 2010

é ou não é??

quando o crepúsculo tinge de vermelho
o céu de Teresina, lamento não ser Van Gogh.
quando um bem-ti-vi canta alto e forte,
lamento não ter pulmão de Leila Pinheiro.
quando as coisas se confundem em minha cabeça,
lamento não ser Alberto Caeiro.
ah! quem dera ser outro!
ah! se isso me bastasse!
"Se eu me chamasse Raimundo seria uma rima, não seria uma solução!
Mundo, mundo, vasto mundo! Mais vasto é meu coração!"
lamento não ser Drummond.

um arremedo para Geraldo Azevedo

não queria ter que pegar canção dos outros pra dizer o que sinto,
mas minha mente infértil, meu engenho roto e minha agudeza senil
me fazem repetir sem vermelho nenhum nas faces:
é bonita! é bonita!
eu digo e ela não credita:
ela é bonita demais!

07 setembro 2010

ainda sem saber o que fazer...




De Jealous guy (1971)

"I didn't mean to hurt you
I'm sorry that I made you cry
Oh no, I didn't want to hurt you
I'm just a jealous guy"

a The Reason (2004)

"I'm sorry that I hurt you
It's something I must live with everyday
And all the pain I put you through
I wish that I could take it all away
And be the one who catches all your tears"

nada mudou...

22 agosto 2010

A bíblia apresenta um histórico de preferências de deus em relação aos irmãos mais novos, em detrimento dos mais velhos: Caim e Abel, Esaú e Jacó, Lia e Raquel... e por aí vai.
É que o irmão mais novo já veio lapidado e os erros cometidos com o primogênito não serão repetidos com o caçula, que tem para si os maiores cuidados, às vezes tem a sorte de conviver com os pais no seu melhor período mental, enfim... mas isso também não diz muita coisa.
O que eu quero dizer com isso tudo é o seguinte: minha irmã mais nova escreve bem pra caramba! Eu sou aspirante a escritora e não consigo chegar nem perto de uma crônica que ela escreve. Ela, que nem liga e nem se importa (ou finge???) com esse lance de escrever e entender... Seria a famosa falsa modéstia?? Começo a acreditar que sim.
Seu eu acreditasse em tudo o que gênesis afirma, eu diria que ela está entre os preferidos de deus. E até mataria minha irmã!! Mas como eu não quero ser presa e uma tragédia dessas me privaria de bons textos, fica tudo como está. Não me importo mais se um dia quis escrever bem. Ela já faz isso. E a mim, isso me basta.

http://raizaluiza.wordpress.com

18 agosto 2010

Nós

(...)

A impressão doutros tempos, sempre viva,
Dá estremeções no meu passado morto,
E inda viajo, muita vez, absorto,
Pelas várzeas da minha retentiva.

Então recordo a paz familiar,
Todo um painel pacífico d'enganos!
E a distância fatal duns poucos anos
É uma lente convexa, d'aumentar.

(...)

Trecho do poema Nós do poeta português Cesário Verde.

Sempre gostei desse trecho, desde a primeira vez que li o poema. O passado é assim mesmo: de bom só a lembrança e esta, por mais nítida que seja, é sempre um painel pacífico de enganos esboçado pelo passar dos anos, pelo cansaço da nossa vista que insiste em aumentar coisas pequenas e criar a felicidade onde houve nada.

02 agosto 2010

corazón partío



¿Quién me va a entregar sus emociones?
¿Quién me va a pedir que nunca le abandone?
¿Quién me tapará esta noche si hace frío?
¿Quién me va a curar el corazón partío?

uma andorinha só não faz verão

29 julho 2010

conflito de gerações

sobre a afeição

O dicionário diz que afeição é uma ligação sentimental. Porém, existem homens que são extremamente ligados a algo ou alguém sem qualquer espécie de sentimento. Devo, então, jogar fora, queimar e relegar à prateleira do esquecimento um dicionário tão displicente com os conceitos?
Não.
O problema não está no dicionário, mas nos homens. Estes, se lhes dessem outra oportunidade para nascerem e refazerem sua afeição, eles errariam mais uma vez. E mais outra e mais outra e quantas vezes fossem-lhes dadas novas chances de conhecerem a afeição. Por quê?
Porque poucas pessoas conseguiriam viver situações afetivas. Uma caneta, um brinquedo, um livro, um filme, uma canção, uma lembrança... tudo isso são objetos de afeição. E todos os homens já passaram, passam e passarão ao redor de cada uma dessas coisas. Mas não se deixam tocar. É como se qualquer tipo de sentimento possa prejudicar o distanciamento planejado, regulado e preestabelecido.
Esses homens não sabem o que é cultivar afeição por nada, nem ninguém. Não sabem, sequer, demonstrar um carinho, pois é sinônimo de fraqueza. Não, é preciso nem mesmo envergar, posto que há a possibilidade de quebrar.
Por isso, a afeição é uma palavra que nem aparece mais nas bocas das pessoas. Estamos nos bestializando. O primeiro sintoma é esquecer a afeição. Por isso, muitas vezes, é preciso lembrar mansamente do que nos fez humanos.

26 julho 2010

canção de muito longe

você, que plantou esperança nos meus olhos,
que encheu minhas mãos de segurança,
que inventou palavras e versos
para colorir meu peito, que cantou e ensaiou uma dança,
(você que não gosta de festas), vai embora assim: sem medo.

você não tinha nada que voltar
e encantar mentiras pros meus olhos sorrirem.
você não tinha nada que voltar.

23 julho 2010

sobre o amor (ou seja lá o que isso for)


Acabo de assistir a um filme em que uma mulher suíça, absolutamente enlouquecida, deixa seu noivo no último dia de viagem ao Quênia, para ficar ao lado de um aborígine Massai. A história é emocionante, não apenas por ser uma história de amor bela e inusitada, mas por me fazer pensar nas decisões que tomamos e nas certezas que nos impulsionam ao sucesso ou ao fracasso. Na verdade, excetuando esse meu teor maniqueísta de perceber as coisas, o que me incomodou durante todo o filme foi o fato de ela, Carola, não se perguntar se, de fato, valia apenas abandonar tudo por um homem que ela nem sabia se retribuía seu sentimento. Ou ainda, perguntar-se, questionar-se, indagar-se sobre os costumes do povo ao qual ele pertence, enfim... Todas essas coisas que minha mãe me diria numa situação dessas e que, com certeza, a mãe dela também.
Outros dirão: ela precisava passar por aquilo, ela precisava viver aquele momento... Outros ainda: ela foi movida pelo amor, foi guiada pelos sentimentos, pelo coração... As interpretações são infinitas e eu gostaria de mostrar apenas a minha: pelo que eu entendo de sentimentos, parece que Carola se deixou levar por um falso sexto sentido e confundiu admiração com amor ou ainda, encarou gentileza, presteza e beleza (que eco terrível!) com paixão, interesse. E seguiu cega, pelas savanas da África, atrás do seu salvador: um guerreiro da tribo Massai que não sabia amar, não entendia a conversa dos olhares, nem se esforçava por entender as necessidades de sua mulher que lhe deu a maior de todas as provas de amor: abdicou do seu mundo em prol do mundo dele, extremamente duvidoso.
Quantas de nós já não fizemos isso: viver o mundo do outro. E quantas de nós não voltou pra casa, rabinho entre as pernas, e recomeçou do zero? Ela quis acreditar que fosse dar certo, sem saber ou sem querer saber que era preciso mais que amor, mais que paixão, desejo ou que quer que seja isso que nos move. É preciso mais do que amor para se viver um grande amor.
Mas não posso negar que é uma linda história. (Baseada em fatos reais: A massai branca, de Corinne Hofmann)

20 julho 2010

janela sertaneja

para Eduardo

pé de caju pé de caju
babaçu babaçu
terra seca
gente seca
tempo seco
ar seco.
olhos esperando outras gotas, agora doces.

13 julho 2010

Veja, Margarida




Essa canção do Vital Farias eu conheci menina. Meu pai ouvia essa música e ela me fazia imaginar coisas estranhas, como no trecho "eu não quero ver você com esse gosto de sabão na boca". Aí eu imaginava a cara da gente quando come sabão :D ... Acho que foi até por essa música (e várias outras) que nutri o gosto pela literatura, pelas imagens produzidas pelas palavras. Mas depois eu cresci e comecei a tentar entender um pouco da letra, do lirismo das despedidas, do amor cansado, das esperanças de vida...

Eu vou partir, pra cidade garantida, proibida
Arranjar meio de vida, Margarida
Pra você gostar de mim

Essas feridas da vida Margarida
Essas feridas da vida, amarga vida
Pra você gostar de mim

Veja você, arco-íris já mudou de cor
E uma rosa nunca mais desabrochou
E eu não quero ver você
Com esse gosto de sabão...na boca
Arco-íris já mudou de cor
E uma rosa nunca mais desabrochou
E eu não quero ver você
Eu não quero ver...

Veja meu bem, gasolina vai subir de preço
E eu não quero nunca mais seu endereço
Ou é o começo do fim...ou é o fim...

Eu vou partir, pra cidade garantida, proibida
Arranjar meio de vida, Margarida
Pra você gostar de mim

Essas feridas da vida Margarida
Essas feridas da vida, amarga vida
Pra você gostar de mim

Canção lançada no LP Taperoá - 1980.

E depois, muito tempo depois, só recentemente, pra não dizer há uns vinte dias (rsrsrs), descobri esse poema do Paulo Leminski: lindo, cheio do colorido da margarida e do amargor da vida:

você me amava
disse
a margarida

a margarida
é doce
amarga a vida

Poema que compõe o livro Caprichos e Relaxos - 1983.

24 junho 2010

Coisas feitas (por Saramago)

No fundo, todos temos necessidade de dizer quem somos e que é que estamos fazendo e a necessidade de deixar algo feito, porque esta vida não é eterna e deixar coisas feitas pode ser uma forma de eternidade.

“Somos sobretudo a memória que temos de nós mesmos”, La Provincia, Las Palmas de Gran Canaria, 20 de Julho de 1997 [Entrevista de Mariano de Santa Ana]

visite: http://caderno.josesaramago.org/

Suassuna para Saramago

"Não tem mais jeito, João Grilo morreu. Acabou-se o Grilo mais inteligente do mundo. Cumpriu sua sentença e encontrou-se com o único mal irremediável, aquilo que é a marca do nosso estranho destino sobre a terra, aquele fato sem explicação que iguala tudo o que é vivo num só rebanho de condenados, porque tudo o que é vivo morre. Que posso fazer agora? Somente seu enterro e rezar por sua alma."

23 junho 2010

quando eu vim, luz e chama nas mãos,
atear fogo no teu céu,
um grito dentro da minha cabeça
estourava a curta ponta de lucidez
escondida sob as mechas negras e encrespadas
que carrego.
não era pavor que o grito denunciava,
nem amor, nem paixão, nem remorso
pela doação desmedida e desperdiçada.

era algo teu em mim,
aquilo que nunca vingou entre nós
nasceu em mim.

17 junho 2010

herança


o mestrado em letras me deixou uma coisa boa: o gosto pela culinária. adorava quando chegava o fim de semana e eu passava uma tarde inteira no sábado, preparando os bombons de damasco que eu bolei... ou experimentando novas receitas de brownie... ou testando as mousses de chocolate, limão... as delícias de abacaxi... até o popular creme, o pudim de leite, era bom fazer.

era minha maneira de ser gente. era tão bom.

hoje a correria é tanta que nem tenho mais tempo de abrir uma lata de leite condensado sequer... sinto falta disso.

preciso voltar a ser gente. e adoçar minha vida.

15 junho 2010

repassando

Se

Se você gosta do artigo,
não importam varizes, quilos a mais,
rugas, celulite,
se você gosta do artigo.
Se você gosta do artigo,
não contam o buço, a acne, a pele oleosa,
se você gosta do artigo.
Se você gosta do artigo,
não sobram nas pernas os pêlos,
nas axilas chumaços,
na boceta os tufos,
se você gosta do artigo.
Se você gosta do artigo,
jibóia, bacalhau, bode:
em nada atrapalha a fauna,
se você gosta do artigo.
Se você gosta do artigo,
uma certa feiúra, tampouco perturba,
se você gosta do artigo.
Se você gosta do artigo,
você gosta do artigo.

Dr. Ângelo Monaqueu

Retirado de: http://aliceruiz.com.br/content/se
será que o bitolado não é você
que só enxerga o que já viram por você?

10 junho 2010

meu olhar limitado, humilde, incorrigivelmente cristão,
não me permite ver além daquilo que me é permitido.
minha fraqueza, tão forte, se imprime no meu pulso frouxo,
em minha palavra timidamente proferida, em voz baixa.

o líder de grandes massas e palavras impactantes,
que enchem a boca, os ouvidos e o ego,
não nasceu em mim. não surgiu em mim o ser demasiado
perfeito, à semelhança do herói cristão, o homem plural,
herói, multifacetado, pós-moderno(se é que existe isso, de fato).

humana, demasiado humana. nasci da imperfeição.
e dou sempre com os burros n'água
ao tentar me esquivar de minha natureza.

não amo suficientemente meu próximo, meu irmão.
não vejo no outro meu espelho, não ofereço a outra face.
não compreendo os dois lados da questão,
não me esforço por ser pura, nem controlo meus pensamentos.

toda eu sou uma extensão daquilo chamado improferível,
inconfessável: o erro de Crasso, o ciúme de Bentinho,
a idiotia de Mishkin, o gauche drummondiano.

não me doem os defeitos e máculas que brotam espontâneamente
pelas minhas mãos estendidas, pelas palavras mal escolhidas,
não me doi existir assim tão pouca.

serei menos matéria em decomposição,
alma evaporável e finita.
não me tornarei imortal,
pouparei o mundo de maiores inutilidades.

viver: por Calligaris III

"Não posso exigir que, para eu ser feliz, todos procurem a mesma felicidade que eu busco"

acabei de dizer isso no trabalho... feliz coincidência!

06 junho 2010

sobre a infertilidade do instante II

acabo de ter uma ideia!
penso mais um pouco...
acabo com a ideia.

04 junho 2010

viver: por Calligaris II

"Em vez de tentar descobrir a famosa semente, invente sua vida."

02 junho 2010

não, não tente me fazer feliz!

esse é um trecho da música Pessoa, do compositor Dalto, autor de alguns poucos sucessos, mas que deixou sua marca na história da música brasileira.
a letra revela um eu lírico às voltas com suas confusões sentimentais, até então, nada de novo. não fosse o forte cunho intimista, a música resvalaria para o senso comum e repetiria fórmulas conhecidas e pisadas ao longo do tempo.
o medo, sentimento em foco na composição, paralisa as ações do eu lírico a ponto de este evitar um envolvimento mais sério e profundo por não mais crer nas promessas de felicidade. e o pedido(quase súplica. ou seria ordem?) "Não tente me fazer feliz" me faz pensar sobre o que é felicidade. sobre como este estado de espírito é mais simples do que se supõe.
Por que ele pede para o outro não tentar fazê-lo feliz? Talvez por que ele saiba que a felicidade é pré requisito para o um início de um romance. A felicidade individual e não aquela cuja existência é consequência do outro, do amor do outro, da presença, da entrega. Felicidade pura, aquela possível de ser alcançada, não depende de fatores externos. A felicidade é minha e é sua. Nada mais que isso. Talvez por isso, o eu lírico tente se distanciar das promessas de um novo mundo, de vida cor de rosa proferidas pelo outro. Talvez se a proposta fosse unir duas felicidades, o amor verdadeiro poderia estar em vias de acontecer.

A letra:

Olhar você
E não saber
Que você é a pessoa
Mais linda do mundo
E eu queria alguém
Bem no fundo do coração
Ganhar você
E não querer
É porque eu não quero
Que nada aconteça
Deve ser porque eu não ando bem da cabeça
Ou eu já cansei de acreditar

O meu medo é uma coisa assim
Que corre por fora
Entra, vai e volta sem sair
Não
Não tente me fazer feliz
Eu sei que o amor é bom demais
Mas dói demais sentir...
Você
E não saber
Que você é a pessoa
Mais linda do mundo
E eu queria alguém
Bem no fundo do coração

O meu medo é uma coisa assim
Que corre por fora
Entra, vai e volta sem sair
Não
Não tente me fazer feliz
Eu sei que o amor é bom demais
Mas dói demais sentir...
Você
E não querer
É porque eu não quero que nada aconteça
Deve ser porque
Eu não ando bem da cabeça
Ou eu já cansei de acreditar
Ou eu já cansei de acreditar
Ou eu já dancei...

O meu medo é uma coisa assim
Que corre por fora
Entra, vai e volta sem sair
Não
Não tente me fazer feliz
Eu sei que o amor é bom demais
Mas dói demais sentir...

http://letras.terra.com.br/dalto/81348/

26 maio 2010

Responda depressa:

Como se faz uma feira do livro sem professores, nem estudantes, nem leitores???

Com comerciantes de livros: SALIPI (Salão do livro Piauiense).

Os professores da rede municipal de ensino de Teresina não terão nem um incentivozinho para fazer uma visita ou assistir palestras. E seus alunos, se quiserem, acharão um jeito de sair da periferia e ir ao centro da cidade.

E como diria um certo professor de estilística: "É a Fazenda Piauí!"

17 maio 2010

era um homem comum. sem grandes dúvidas, incertezas ou indecisões. não se debruçava sobre as catástrofes naturais, a miséria, o imperialismo ianque, os caminhos da filosofia ocidental, análises sociológicas sobre o nada. era um homem. e isso já era sofrer demais. isso já era tudo. não lhe doía a ignorância, os silêncios e reticências que encontrava nas coisas do mundo. não lhe desconcertavam as intempéries do cotidiano, os mal entendidos, os chove-não-molha da vida. nada disso fazia sua testa porejar uma gota de suor sequer, não produzia uma noitezinha de insônia.

mas amava. ao seu modo, reticente. silenciosa e calmamente, via seus dias consumidos pela torturante ideia de possuir um botão, ao menos, do objeto do seu amor. ele sabia que sua vida não seria outra. ele não ia mudar sua rudeza em puro e tenro mel. ele amava. apenas. sem grandes promessas, sem grandes feitos, sem grandes provas.

por isso, um dia, catou da mesa dela um pedacinho de unha quebrada, pintada de branco. a queratina tinha o cheiro dela. guardou-a no bolso da camisa e voltou a trabalhar novamente, às voltas com as questões banais do seu cotidiano igualmente banal, e nunca deixou que ela soubesse daquele pedaço de unha, que agora era seu.

08 maio 2010

uma (boa) dose de reflexão linguística

A CATÁSTROFE DOS CURSOS DE LETRAS
Marcos Bagno - Novembro de 2008


A formação dos professores de português, hoje, no Brasil, é uma catástrofe. Nós, os responsáveis pelos cursos de Letras, não enxergamos a bomba-relógio que temos nas mãos. As estatísticas não mentem: a retumbante maioria dos estudantes de Letras vêm de camadas sociais pobres ou mesmo miseráveis, filhos de pais analfabetos ou que têm escolarização inferior a quatro anos. Isso significa muita coisa. Significa que esses estudantes têm um histórico de letramento muito reduzido: no ambiente familiar, não convivem com a cultura letrada, não têm acesso a livros, revistas, enciclopédias etc. Significa que não são falantes das normas urbanas de prestígio (as mesmas que supostamente terão de ensinar a seus futuros alunos) e têm domínio escasso da leitura e da escrita. Só na faculdade é que a maioria deles vai ler, pela primeira vez na vida, um romance inteiro ou um texto teórico. Vêm, quase todos, do ensino público, essa tragédia ecológica brasileira muito pior que as queimadas na Amazônia. Nós, porém, fingimos que eles são ótimos leitores e redatores, e despejamos sobre eles, logo no primeiro semestre, teorias sofisticadas, que exigem alto poder de abstração e familiaridade com a reflexão filosófica, e textos de literatura clássica, escritos numa língua que para eles é quase estrangeira. E assim vamos nos iludindo e iludindo os estudantes.

O resultado é que os estudantes de Letras saem diplomados sem saber lingüística, sem saber teoria e crítica literária e sem saber escrever um texto acadêmico com pé e cabeça. Todos os dias, recebo mensagens de formandos que me pedem orientação para seus trabalhos finais. Alguns até me enviam seus projetos. São textos repletos de erros primários de ortografia, pontuação, sintaxe, vocabulário, com frases truncadas e sem sentido. Assim eles chegam ao final do curso, e suas monografias, mal escritas, sem nenhum rigor teórico ou metodológico, são aprovadas alegre e irresponsavelmente por seus supostos orientadores.

O problema, é claro, não está no fato (que merece comemoração) de acolhermos na universidade alunos vindos das camadas mais desfavorecidas da população. O problema é não oferecermos a eles condições de, primeiro, se familiarizar com o mundo acadêmico, que lhes é totalmente estranho, por meio de cursos intensivos (e exclusivos) de leitura e produção de textos, de muita leitura e muita produção de textos, para só depois desses (no mínimo) dois anos de preparação eles poderem começar a adentrar o terreno das teorias, das reflexões filosóficas, da alta literatura. Se não fizermos isso urgentemente (anteontem!), as salas de aula do ensino básico estarão ocupadas por professores que, mal sabendo ler e escrever adequadamente, não poderão desempenhar sua principal tarefa: ensinar a ler e a escrever adequadamente! Não sei, aliás, por que escrevi "estarão ocupadas": elas já estão ocupadas, neste momento, por essas pessoas, de quem se cobra tanto e a quem não se oferece uma formação docente que também seja, minimamente, decente.

retirado de: http://www.marcosbagno.com.br/conteudo/arquivos/art_carosamigos-novembro.htm

05 maio 2010

e era porque eu nem sabia vender sonhos. as coisas se desmanchavam na minha mente sem conseguir chegar ao mundo e minhas mãos só mostravam abortos, metades, deformidades: monstros.
fiz uma prece, mas nenhum santo me ouviu. fiz apostas, mas todos os dados viciados apontavam para o mesmo fim e eu, nessa beira de rio, de vida, me satisfazia com a margem. a água do rio lambendo as pontas dos meus dedos... era o mais bonito que eu conseguia viver. e nem era eu inteira.

30 abril 2010

sobre poetas e tagarelas ou sobre poetas tagarelas??

versejadores de plantão:
uma núvem passou no céu.
ninguém viu.
era um avião invisível à visão distraída dos tagarelas.

she e edu

sobre a infertilidade do instante

não sei o que escrever
nesse instante.
conduzo esse gosto do nada.

edu
***

eu não sei o que escrever
nesse instante.
mas o instante é breve
e pode ser que noutro instante
eu continue não sabendo
o que escrever.

she

28 abril 2010

viva?

ouço, no escuro,
o som da minha respiração.
é por ele que sei que estou viva.
essa minha manifestação de silêncio
tem sido minha única certeza.
dolorosa.
impalpável.
mas companheira.
pelos vales e pedregulhos
que escolhi percorrer.
não me culpo,
não lamento.
trago em meu sangue,
junto ao vermelho,
novas cores amargas,
vacinas contra mim mesma.
por isso sobrevivo no silêncio
que cura e fere.
e por isso, minha respiração
teima em dizer que estou viva.

sobre o tudo e o nada

Sonhei que caminhava feliz por uma praça verde e florida. A brisa que acariciava meu rosto contornava meus colegas que conversavam abrigados pela sombra de uma centenária mangueira. Todos se distraíam com suas famílias e amigos enlevados pelo mesmo gosto matinal domingueiro.

Éramos todos professores e, embora fosse domingo, todos estavam na rua a aproveitar o descanso merecido, longe de suas casas. Não havia lembrança de provas e trabalhos a corrigir, pois não havia provas ou trabalhos a corrigir. E não por que não os tínhamos passado aos alunos, é que durante a semana, toda a atividade docente era cumprida: nenhum de nós tínhamos que trabalhar 3 turnos para dar conta do serviço.
Conversávamos sobre a vida, sobre nossas paixões, sobre coisas que nos impulsionavam a seguir adiante, sobre nossos filhos e nosso futuro.

Num misto de felicidade e saudade, lembrávamos do tempo bom em que decidimos ser professores: alguns lembravam a rotina corrida dos pais, mas logo lembravam do reconhecimento que recebiam daqueles que ajudaram a crescer. Ninguém comentava salários, pois há muito ficara para trás a realidade miserável dos primeiros professores. Esse passado negro, tão distante, era motivo de respeito e até de algumas lágrimas. A vida dos nossos pais foi exemplo e pesou na hora da escolha: seríamos tais quais eles.

E éramos cumprimentados a cada esquina que percorríamos pelos pais dos nossos alunos que nos agradeciam por todo o trabalho e dedicação a eles, seus filhos. Recebíamos menção honrosa pelos préstimos de maior destaque, pelos projetos elaborados... é claro que injustiças aconteciam, pois eram tantos os bons projetos que não se sabia ao certo qual escolher. Mas isso não era motivo para desavenças... Todos teriam a sua vez.

Nossos filhos seriam também professores: era o sonho de todos. Tínhamos o privilégio de trabalhar com nossas habilidades e afinidades de conhecimento. Queríamos a mesma felicidade para os nossos. Não havia estresse ou depressão, nossos alunos, aplicados, nos ajudavam nas aulas e os mais inquietos, pelo menos, nos respeitavam. Éramos felizes, pois estávamos realizados, recompensados e reconhecidos. A aposentadoria não nos fascinava, nem outra qualquer profissão.

Por conta do desenvolvimento educacional, não havia mais tantos policiais nas ruas, empunhando suas armas, pois não havia mais miséria, exatamente por não haver mais necessidade de práticas ilícitas para a sobrevivência: as pessoas estudavam, tinham uma profissão e trabalhavam para si. Os advogados não faziam mais plantões nas portas das cadeias e os juízes não julgavam, realizavam acordos, ouviam as partes e não aceitavam mais propinas. Os delegados quase não tinham mais diligências, e as celas quase vazias, guardavam homens em processo de ressocialização. Os médicos e as enfermeiras também não tinham mais tantas urgências a atender: as pessoas não se violentavam mais, pois começaram a entender que somos todos diferentes. Os jovens aprenderam a dirigir e se conscientizaram de que a vida é breve. Os motoqueiros não mais faziam manobras perigosas, não tinham mais tanta pressa, pois entenderam que mais vale sair uma hora antes... E tudo isso por conta do correto desempenho do nosso papel: educar. Por isso, as pessoas eram tão gratas. Mudamos nossa realidade.

Mas era sonho. Acordei. O ponteiro acusava uma hora de atraso e eu precisava ir para o centro de formação de professores, senão o corte do meu ponto não me deixaria pagar a fatura atrasada e estourada do cartão de crédito. Pulei da cama, joguei-me água e corri à parada de ônibus. Cheguei já no segundo momento da formação e, qual não foi minha surpresa: quando abro a porta, um superintendente, vestido de prefeito, anotava R.G e C.P.F. dos professores que dormiam demais e sonhavam demais em melhorar o mundo.

24 abril 2010

proposta



Eu te proponho
Nós nos amarmos
Nos entregarmos
Neste momento
Tudo lá fora
Deixar ficar...

Eu te proponho
Te dar meu corpo
Depois do amor
O meu conforto
E além de tudo
Depois de tudo
Te dar a minha paz...

Eu te proponho
Na madrugada
Você cansada
Te dar meu braço
No meu abraço
Fazer você dormir...

Eu te proponho
Não dizer nada
Seguirmos juntos
A mesma estrada
Que continua
Depois do amor
No amanhecer

R & E Carlos

22 abril 2010

no escuro, o que nos resta é dar-nos as mãos...

nessa noite sem lua, sem estrelas,sonhei com você, luz rompendo a escuridão. exceto pelas dúvidas carregadas em ambas as mãos, sua expressão era de quem sabia sim pra onde ia e não precisava de ajuda.

nada te guiava, nem teus sentimentos. somente a teus pés bastava saber o caminho. foi então que mais uma vez me aproximei e, desenhando flores nas paredes, olhei receosa, de esgueira, e contemplei fascinada teu rosto aproximando-se, na escuridão daquela rua abandonada.

o fascínio não me paralisava, mas a beleza que você me ofertava. o fascínio me enchia da vontade pueril de roer as unhas, de levar à boca a mais íntima e fiel das companhias.

te esperei, criança aprendendo a não ter brinquedos. te esperei. e sabia que seria assim: nenhuma resposta, nenhuma palavra que me desse certezas, nenhum gesto expansivo, nada além. somente a certeza dos amanheceres: a luz que os habita nunca habitará em nós.

não precisamos de luz, de respostas, certezas, garantias... precisamos apenas do instinto, animais ainda virgens de civilização. precisamos apenas de pernas que converjam à necessidade do encontro, apenas isso.

pedir mais seria sublimar o que não pode ser sublimado. pedir mais seria não entender
e relegar à alma o que ela não sabe. e nunca saberá.

no sonho, apagamos as luzes e seguimos no escuro, de mãos dadas.

19 abril 2010

a menina olhava o cristal encimado no anel da mãe e achava tão bonitas as cores que saiam dele e quis quebrá-lo, maneira de desvendar o lúcido mistério. não era maldade, não. desde criança ela quebrava os brinquedos, abria as bonecas, desmontava canetas para ver por dentro, mais, fundo... para ver (ou tentar ver) a mente de quem fez ali dentro da coisa.
ela não tinha maldade nas mãos. suas ações eram de uma doçura tão cheia de algodão doce, tão perfumada de sentimentos puros... ela não quebraria o cristal se soubesse que ele não seria o mesmo. e essa mudança não se daria apenas por que não seria mais a pedra do anel da mãe, estilhaços de uma vontade insana... essa mudança nem era no cristal: ela descobriria nela a repetição das coisas já sabidas, reveladas, violadas bestamente por quem não sabe o que fazer quando o desconhecido se revela.

17 abril 2010

nada além

olho o sol quebrando a barra da noite

e penso.

um pensar doido, assim sem saber direito o quê;
pra quê;
por quem...

mas amanheço.
e na manhã prenhe de perfume de flor
crio cores
e gestos
e recomeço o plantio dos seres improváveis.

sobre a verdade

não é meu nem seu
esse sol, esse céu, esse mundo.
a felicidade, o amor,
a avenida, as pontes,
os caminhos e descaminhos.

não são meus
os desejos imaculados,
os pensamentos puros,
o olhar ingênuo,
as mãos virgens...
nada disso é meu.

são seus esses pensamentos
de fraqueza e bondade extremas.
são suas essas ideias de amor
ao nada, ao vento, ao léu.
essas inspirações matutinas
filhas da madrugada insone.
nada disso é meu.

de meu mesmo só minha vida
e o pouco que sei dela.
e o muito que invento
e chamo de literatura.

cruz e espada

os cruzados sabiam o que fazer:
a cruz, eles carregavam no pensamento; a espada em punho. a cruz também ornava seus escudos, elmos e bandeiras. a espada construía a fama, erguia o mito, sustentava ideais, guiava a nação e impunha respeito, segurança.

mas a cruz, tão viva em seus pensamentos, no sangue que corria e no sangue derramado, era produto e origem da espada. estranhamente, defendia o amor e a paz aos homens de todo coração, a cruz tão espada.

a espada selava a cruz e a cruz sustentava a espada.

a cruz sangrava e a espada ungia os ares.

a espada doava perdão e a cruz queimava.

...

mas isso foi na idade média.

hoje, a cruz é cruz, a espada é espada, e entre uma e outra há pequenas grandes batalhas tão importantes quanto um rato e seu ressecado queijo na ratoeira.

14 abril 2010

o que acontece quando ninguém está aqui? quando o silêncio preenche o ar que propagaria palavras, respirações. o que é feito de nós quando não somos nós? quando batemos a porta e passamos a habitar outro aqui e por mais que digamos que sentimos o presente, não é o presente que se faz, mas a saudade do outro ali que habitamos.
e nos voltamos ao passado, ou ao que restou dele, para sabermos que não há futuro. só o eterno lembrar e relembrar e aumentar as coisas que nunca foram para compensar nossa falta de apego àquilo tão nosso e tão desprezado como as coisas só nossas são.

10 abril 2010

10a manhã de abril: abriu pra mim

a madrugada me acordou prenhe de desejos. o ventre submerso em sangue me falava de vida. decidi acordar, levantar, caminhar e despejar poesia nas calçadas por aí.
***
acordei de um jeito diferente. um jeito forte de existir. sem maiores pretenções: decidi deixar as flores nos seus galhos e os pássaros ao sabor do vento.
***
nada mais natural: voltar à natureza. vejo, sinto, penso coisas que vão e vêm, são e têm algo mais pra mim sem precisarem se apartar do seu mundo.
***
é possível viver sem sangrar. sangra-se um dedo e evita-se que sangrem a alma. mas vida também é sangue: derramado, coagulado, retido... ou não.
***
sou: nada mais que isso, agora, assim.
*
*
*

abril abriu pra mim o perfume azulado das doces descobertas: bom dia!

06 abril 2010

para aquele que tem fogo no nome

não. teu nome não gera paz.
teu nome tranca entre poucas letras
a sede e o fogo amalgamados.

teu nome segura firme
o verbo forte, conjugado,
em primeira pessoa,
indicando
o presente.

chamo teu nome
e me sinto abrasar.
grito teu nome
e já não me sinto.

desenho teu nome
na mente
e de olhos fechados
nem meu mundo
é meu.

só teu nome
que queima:
o barulho crepitante do fogo
me acorda desses sonhos.

me desfaço e penso
novamente no teu nome
que arde
bem mais em mim
do que em ti.

03 abril 2010

o cacto

para esquecer o esquecimento
do qual sou vítima
me refugio nos meus mortos.
o colorido do pijama
e da tinta que dispenso
contrastam com meu ser.
o cacto pequenino,
no canto da janela,
vive com pouca água.
não raro o encontro murcho.
e no dia em que meus cabelos
estão encharcados
deixo algumas gotas escorrerem
pelos espinhos.
as pedras são a única companhia
do meu cacto.
as pedras, em toda sua simplicidade,
nada falam ao cacto, mas a mim.
secretamente me revelam
sua natureza.
e como ter gente tão pedra nesse mundo?

01 abril 2010

grito

lanço meu grito ao vento
na terra onde o rei é surdo.
mas grito.
grito sempre e muito e
cada vez mais grito.

fênix

no pó das cinzas
minha vida se refaz
entre sombra e luz.

doente do pé

eu não sei dançar,
eu não sei sambar,
eu só sei pisar
no pé do par.

nova poética II

amadora
arte amaríssima -
mergulhar nas pedras
e respingar palavras.

nova poética

se quiseres me entender
dispensa a questão de gênero.
sou
prosaDor.

20 março 2010

p/ E.

o vento forte, as nuvens carregadas do fim da tarde de hoje, suas mãos, meus olhos... ainda estou aqui onde você me deixou. quero me deixar absorver pelas suas doces palavras, por seus olhos que mentem tão doce e naturalmente. mas não mentem por mal, eles também se enganam. quero, mais que minha própria redenção, salvar o que resta de nós dentro de mim. quero, ainda mais que tudo, renascer nosso mundo em mim.
mas me vêm outros mitos antigos, novas velhas dores e paro ao som de qualquer palavra que lembre as cores que pintamos juntos no muro do quintal da nossa casa. aquelas cores desbotadas, feitas de sonhos afogados em lágrimas, asfixados pela fumaça do seu cigarro fumado às escondidas... aquelas cores não povoam mais nosso quintal que já não é mais nosso. aquelas cores se foram. o branco tomou conta da atmosfera opaca que se instalou quando você se foi. chorei duas noites, o resto dos dias escoavam entre meus pés e amanheciam, simplesmente.
enquanto esperava, senti o mesmo gosto das nossas primeiras vezes. experimentei nossa antiga felicidade e, por um momento, pensei que pudéssemos pintar novamente as mesmas cores no muro do quintal. mas você chegou. me contou os túneis e abismos pelos quais passou, tudo era tão eu... percebi então que não poderíamos mais pintar as mesmas cores, nem habitar a mesma casa, o mesmo quintal.
se a volta for a solução, que seja à base de novas cores e novos lugares a habitar. se for para sermos felizes como nunca fomos, teremos que ser outros. teremos que arrancar nossos olhos e mãos e deixar que nasçam, da ferida exposta, novas cores, novos gestos. outra vida.

19 março 2010

carta para o passado

quando eu te disse daquela vontade que imperava sobre minha razão... quando eu te disse daquele desejo que crescia feito raiz forte no meu ventre ainda jovem de mulher imatura, quando eu te disse da pulsão que movia meu corpo ao teu... quebrei um espelho.
aquela do passado, há dez anos te persegue entre sombras e breves clarões. aquela, a daquele remoto tempo infantil, não existe mais. pudera eu continuar a mesma depois de tanta vida derramada, àz vezes em vão, por aí? pudera eu continuar a mesma que pedia pra te esperar a qualquer custo? pudera eu conservar o mesmo brilho infantil nos olhos que derramam as águas do mundo desde então?
te mostrar quem sou hoje, te fez perceber que o objeto do teu amor, nutrido ao longo de todos esses anos, é diferente daquele amor ainda em botão, ainda simples nascente, ainda broto verde de uma planta que talvez nem tenha mais tanta vida. te revelar meu desejo com palavras sujas e beijos impuros macularam a imagem que você guardava naquele escapulário.
um escapulário imaginário que te fazia acreditar que o passado é imutável, que aquela menina habitava ainda esse corpo pisoteado, esse rosto já tão bruscamente mudado. um escapulário que te fazia orar todas as noites, no escuro dos teus piores pensamentos, em nome da pureza dela.
mas hoje, o que eu queria te dizer é que, se aquela menina morreu, dela nasceu uma pessoa. uma pessoa que ainda tem amor, mas não sabe a quem entregar. uma pessoa que tem desejos, mas prefere viver o lado medo de tudo e se perde querendo acertar sempre. e erra sempre. por seu gosto. por sua conta. essa pessoa nunca será melhor do que a menina que você amou. essa pessoa, nascida da pureza, deixou a pureza no passado e resolveu se sujar com o mundo. resolveu brincar de viver, se deu a quem não sabia sua mesma brincadeira e foi se deixando pelo caminho.
essa pessoa, às vezes, olha pra trás e encara a menina parada, olhando o nada, com fitas coloridas nas mãos e um sorriso no olhar. é quando ela sabe que segue o caminho certo. é quando essa pessoa tem certeza de que era preciso se perder por aí, para um dia poder se achar.