"o resto é mar. é tudo o que eu não sei contar..."

29 outubro 2010

razão. ou não...

ela olhava insistentemente a página em branco do novo e.mail, mas não conseguia escrever nada. esboçava os dois primeiros períodos, com verbos no passado, e desculpas pelo tom de memória e tristeza. Fez por volta de dez esboços e, embora as palavras fossem outras, o sentido era o mesmo.
ela não conseguia eliminar de sua memória o beijo dado em meio a euforias e culpas. ela sabia que desejava aquele homem, mas perdera a aposta consigo mesma de resistir plenamente a qualquer investida, como forma de provar que era, de fato, mais razão do que emoção. perdera a disputa travada de si para si, sem lembrar que com isso não se joga, que com isso não se brinca.
antes do beijo, ela pensava que a química não surgiria ao toque dos lábios dele, que o cheiro, o clima e o perfume não favoreceriam a entrega e, por isso, ela estava segura de suas mais delicadas ações. mas paixão é traiçoeira e dá o bote pelas costas da vítima, que sucumbe em pouco tempo, rendendo-se, entregando-se e querendo viver, mesmo sentindo o veneno entopir suas veias.
ela já não sabia mais nada de si. então, decidiu começar definitivamente o e.mail pela centésima vez, para apagar o início mais uma vez. deixou a lamúria de lado e começou a despejar substantivos fortes, dispostos lado a lado, que enchiam a página em branco de um significado cor de desejo, vermelho: vontade, querer, sede...
a partir de então não havia mais o que planejar ou calcular. ela assumiu as tintas que queria dar à tela em branco e seguiu a escrever sem razão. sem querer ter razão.

28 outubro 2010

A teoria do terceiro encontro

"Ninguém é interessante além do terceiro encontro, eu disse certa vez para o meu antigo analista antes de trocá-lo pela literatura. As pessoas reservam suas ideias mais interessantes, suas táticas sedutoras, o melhor de si, para os três primeiros encontros. Depois, deixam transparecer aos poucos os pequenos defeitos, a sujeira debaixo do tapete, os detalhes sórdidos, as esquisitices. E o que era lindo fica feio. A perfeição se revela frágil. De longe, qualquer um pode ser lindo. Mas de perto, assim, bem de pertinho, ninguém é normal. E só se consegue chegar perto, furar a muralha que cada um constrói ao redor de si, depois do terceiro encontro. Essa muralha é feita de verdades muito bem selecionadas, ou meias verdades, ou mesmo mentiras."

por Fernando Paiva

Isso é só o começo. Continue a leitura em:
http://www.cronopios.com.br/site/prosa.asp?id=4752

Logical song (clip com filmes) ótimo!

video


Odeio filas!
De qualquer espécie.
Mas, ultimamente, não tenho tido muita sorte...
Ao chegar em qualquer lugar, lá está ela.
Imponentemente parada.
Me aborreço,
Expresso em voz alta minha insatisfação,
A fila não anda,
O tempo passa
E nem paciência pra ler e tentar me distrair eu consigo ter.
Aí eu viro um bicho!
Resmungo,
Troco a bolsa de braço,
Bato o pé direito,
bato o pé esquerdo...
E depois volto a esperar.
Quietinha. Amável. Domesticável. Um vegetalzinho.
Como diz o Skank, a nossa indignação é uma mosca sem asas: não ultrapassa as janelas de nossas casas.

25 outubro 2010

logical song (Breakfast in America, 1979)



the logical song, da banda inglesa Supertramp, é um clássico por motivos óbvios: sinaliza a fragilidade das relações humanas, enfatiza a importância dada às aparências e, acima de tudo, mostra o homem incapaz de compreender-se num mundo em que as pessoas esperam muito dos seus companheiros, menos aquilo o que eles realmente são.
além da música, que é perfeita! cheia de altos e baixos emocionantes e um refrão excepcional tanto pela reflexão imposta a quem ouve (There are times when all the world's asleep the questions run too deep for such a simple man), quanto pela guitarra melodiosa que a emoldura. isso sem falar no solo de sax, perfeito, uma das marcas registradas da banda.

The Logical Song

When I was young
It seemed that life was so wonderful
A miracle, oh it was beautiful, magical
And all the birds in the trees
Well they'd be singing so happily
Oh joyfully, oh playfully watching me
But then they sent me away
To teach me how to be sensible
Logical, oh responsible, practical
And they showed me a world
Where I could be so dependable
Oh clinical, oh intellectual, cynical

There are times when all the world's asleep
The questions run too deep
For such a simple man
Won't you please, please tell me what we've learned
I know it sounds absurd
But please tell me who I am

Now watch what you say
Or they'll be calling you a radical
A liberal, oh fanatical, criminal
Oh won't you sign up your name
We'd like to feel you're
Acceptable, respectable, oh presentable, a vegetable

At night when all the world's asleep
The questions run soo deep
For such a simple man
Won't you please, please tell me what we've learned
I know it sounds absurd
But please tell me who I am, who I am, who I am, who I am

A Canção Lógica

Quando eu era jovem
Parecia que a vida era tão maravilhosa
Um milagre, oh ela era tão bonita, mágica
E todos os pássaros nas árvores
Estavam cantando tão felizes
Oh alegres, brincalhões, me observando
Mas aí eles me mandaram embora
Para me ensinar a ser sensato
Lógico, oh responsável, prático
E me mostraram um mundo
Onde eu poderia ser muito confiável,
impessoal, intelectual, cético.

Algumas vezes, quando todo o mundo dorme
As questões seguem profundas demais
Para um homem tão simples
Por favor, me diga o que aprendemos
Eu sei que soa absurdo
Mas por favor me diga quem eu sou

Agora cuidado com o que você diz
Ou eles vão te chamar de radical
Um liberal, oh fanático, criminoso
Você não vai assinar seu nome?
Gostaríamos de sentir que você é
Aceitável, respeitável, apresentável, um vegetal!

A noite, quando todo o mundo dorme,
As questões seguem tão profundas
Para um homem tão simples
Por favor, me diga o que aprendemos
Eu sei que soa absurdo
Mas por favor me diga quem eu sou

link p/ o vídeo no Youtube: http://www.youtube.com/watch?v=RcX1qA1Etc8&NR=1

23 outubro 2010

(nada...)
nunca haveremos de ser
o bem e o belo classicamente repetidos para nós.
da perfeição ando longe.

mas, se você quiser lágrimas e suor
me veja e me note assim:
imperfeita,
sem pretensões divinas.
cheia de pequenos vícios fúteis,
banais,
cansados de existirem ininterruptamente
em todas as pessoas, por aí.

não me excluo dos defeitos,
nem sei distingui-los das brancas ações.
me faço esquecida entre o turvo
de algumas trevas que dissipo meio sem querer.
crio, no dia de sol, milhares de pequenas tempestades:
bebo a água que cai do céu
e que não me abençoa, que não me ilumina.
ela apenas me molha, como se fosse sua
a tarefa de me fazer mais humana e distante da virtuose dos escolhidos.

16 outubro 2010

sobre flores e cactos

enquanto vida eu tiver em minhas veias
flores e cactos viverão lado a lado.

não há porquês nem senões a justificar
a distância entre o que fere e o perfume.

a mesma gota d'água os molhará e os reviverá na seca.
no calor, abrandará as ondas de chama a cada hora.

ambos far-se-ão companhia, encostados no muro,
pressionado por pedras por todos os lado.

eles se suportarão: flores e cactos.
como irmãos. como amantes que se amam sem certeza,
sem sonhos futuros, sem se dar conta de que se completam,
de que precisam um do outro. e de que já vivem
sem dor, acostumados com o espaço pequeno para desenvolverem
suas particularidades e manias e trejeitos e tiques.
flores e cactos, então, serão um só, compondo a singela
paisagem do meu jardim.
Quem se acomoda, em geral, vive melhor mas, como dizia Leonardo Da Vinci, não passam de meros condutores de comida, não deixando rastro algum de sua passagem pelo mundo exceto latrinas cheias...

http://www.culturabrasil.pro.br/desobedienciacivil.htm

15 outubro 2010

ela olhava os carros atravessarem a ponte. olhava firmemente, mas não sabia se se jogava entre eles ou prolongava por mais algumas horas a angústia do abutre esgarçando o fígado.
'ninguém aguenta tanta dor sem pensar na morte'...
solução?
não. dificilmente haverá solução para a vida.

às vezes, há rima
...
revivo, através da fotografia, aquela tarde azul numa praça desconhecida. o céu fazia de sua camisa uma rápida extensão de tons e de calor. lembro seu olhar para o nada, cristalizado no close de perfil que apreendi, sem saber que seria a única imagem que me restaria depois de tanto tempo.
depois de tanto tempo, já queimei cartas, fotografias, memórias de perfumes e noites em que alternávamos frio e calor. mas o close no seu perfil evidenciava o infinito do seu olhar: foi o que ficou. a única memória que permaneceu foi aquilo que eu não soube entender, mistério indevassável.
tentava preencher lacunas de sentimentos e pensamentos. tentava interpretar cada jovem ruga que percebia ou inventava no seu rosto. tentava manipular no computador a imagem diversas vezes aproximada para achar um brilho no olhar, um reflexo na pupila castanha e cristalina que me revelasse você. que desnudasse algo.
depois de tanto tempo tentando achar razão para aquele olhar perdido, resolvi inventar uma: eu. e minha máquina. você simplesmente posava para se deixar fotografar: era a única maneira de você se entregar a mim, de eu ter você. era o único momento em que a plenitude da entrega acontecia. você, esfinge. você, reticente. você, distante, longe de mim sempre, mesmo em fotografia. você, mesmo ao entregar-se, esquiva-se. você, mesmo ao dizer que ama, assinala o tempo, destruidor de todas as coisas.
é assim que aquela fotografia permanece e me faz refém de algo que só entendo ao reinventá-lo. algo que me faz imaginar possibilidades várias, nunca concretizadas. possibilidades que, contudo, me salvam do desejo no qual imergi naquela tarde azul.

11 outubro 2010

danço eu, dança você na dança da solidão

se não nascer em mim a compreensão do outro, onde ela nascerá?
eu, humana, não devo ouvir o outro, meu semelhante?
eu, racional e esclarecida, poderia fechar meus olhos para os mendigos nas calçadas?
eu, atenta e sensível, nem imagino a dor alheia e já digo que sofro
que choro
que sou incompreendida.
reclamo de tudo e mais um pouco: se chove, quero sol; se faz sol, bendigo a chuva. se ganho, não era exatamente aquilo; se perco, o mundo está contra mim.
não tenho amigos. nem a mim mesmo faço companhia.
alguém já disse: "o mal do século é a solidão".
mas antes, alguém já havia universalizado: "desilusão, desilusão... danço eu, dança você na dança da solidão..."

no século XXI, isso se chama caos: todos falam, ninguém escuta. todos olham, ninguém vê.
no amor como na morte, andamos sós. contamos nossos passos na areia de uma ampulheta fadada a acabar, acabar e acabar somente para um dos lados.

o amor

amor...
amor???
esse dissílabo potente que enche a boca e povoa os dedos de desvairados por aí!!