"o resto é mar. é tudo o que eu não sei contar..."

20 abril 2015

Não queira saber-me mais.
De tudo o que sou, 
o mundo já sabe a infértil espuma.

Não queira entregar-me mais.
A vida não me permitirá segurar
Mais esse laço e fazer dele um nó.

Não queira dizer-me mais.
E fazer da confissão a dívida
que nos segurará até a curva do horizonte.





10 junho 2014

Ela escondia o rosto entre as mãos, para chorar. Não soluçava. Esfregava bem os olhos com os nós do dedo indicador e sorria para quem estivesse ao lado: "É tanta poeira!" Um coração dilacerado pela solidão dos abraços vãos, dos beijos jogados ao vento, desperdiçados pelas faces vis. Ela escondia o rosto entre as mãos, para chorar. E soluçava ao se perceber sozinha. No à vontade de sua sozinhez era bom contemplar o nó na garganta se desfazendo, o rosto lavado com água e sal, os olhos vermelhos, a pupila dilatada. Ela chorava e se sentia bem. Até quando chorar seria parte dela? Até quando não chorar chegaria a ser opção? Até quando?

13 fevereiro 2014

Sangria in verbis

é preciso sangrar o verbo. fazer das palavras glóbulos vermelhos, e da oração puro sangue.

03 maio 2013

Noivas

As noivas de maio fotografam na estaiada de frente para a favela. Manter a tradição faz parte dos seus genes. As noivas de maio fecham, para o beijo, os olhos, que permanecem fechados às reais necessidades expostas às mãos abertas. O perfume, o sapato,as meias, luvas esbanjam caprichos, exibem vontades, ostentam o gosto fabricado no mercado e estampado nas revistas. As noivas de maio, cheias de si mal ouvem as prédicas do padre ou as recomendações legais do juiz de paz. Importa mais a pontualidade do chofer (!!). As noivas de maio não poupam glacê seja no bolo, seja nas mechas. E se confortam em saber que as sobras (havendo...) poderão ser, gentilmente, repassadas a suas criadas ou enviadas em tigelas para aquele parente distante. As noivas, durante todo o ano, limparão a alma ao ajudar aquela instituição de caridade, ao depositar o dízimo, ao dar a esmola para o garoto no sinal. As noivas merecem, sem merecer, uma festa em que esqueçam a verdadeira miséria do mundo, sem perceber a pobreza que as sufoca no branco véu.

16 novembro 2012

Charneca em flor

Um flagrante da liberdade

Bem que se quis...

Quisera ser outra e amar sem adversativas em minhas orações. Quisera ser outra e me deixar levar sem pesar ou ponderar o imponderável. Quisera ser outra e não marcar com ferro em brasa a delicadeza dos ouvidos. Quisera ser outra e atravessar o silêncio da ausência, ostentando um pedido de paz nos lábios. Quisera ser outra e olhar nos olhos para dissipar a ira injustificada. Quisera ser outra e procurar uma mão antes que o escuro me consuma. Mas o mundo me quis inapta para o demasiado humano. E me mostro esta: um cacto sobre lajedos. Nascida na aridez, cultivada na dureza, regada a fogo. A mais tenra e generosa chuva arrancaria minhas raízes. Precisaria mais do que um bom jardineiro para me resgatar. Para me salvar de minha aridez seria preciso mais do que amor. Para me salvar de mim é preciso cultivar a crença nas coisas improváveis, Regar com lágrimas a semente do intangível.

17 março 2012

Autopsicografia



Agregou muito do seu nome
à personalidade: Rocha.
O que é sólido,
firme,
resistente.

E assim, viveu na certeza
da inquebrantabilidade,
atravessando mares, céus e estradas,
enfrentando chuvas, ventos, estiagem.

Esqueceu de contar com o tempo,
esse devorador de todas as coisas,
e não notou que foi se transformando
num subproduto de sua essência pétrea.

Nada mais que areia: foi o que restou
daquele que era sólido,
firme,
resistente.

Como um dia disse Marx: A solidez se deixa carregar pelo vento...