"o resto é mar. é tudo o que eu não sei contar..."

02 julho 2009

a felicidade...


A princípio, bastaria ter saúde, dinheiro e amor, o que já é um pacote louvável, mas nossos desejos são ainda mais complexos. Não basta que a gente esteja sem febre: queremos, além de saúde, ser magérrimos, sarados, irresistíveis.
Dinheiro? Não basta termos para pagar o aluguel, a comida e o cinema: queremos a piscina olímpica e uma temporada num spa cinco estrelas. E quanto ao amor? Ah, o amor... não basta termos alguém com quem podemos conversar, dividir uma pizza e fazer sexo de vez em quando. Isso é pensar pequeno: queremos AMOR, todinho maiúsculo. Queremos estar visceralmente apaixonados, queremos ser surpreendidos por declarações e presentes inesperados, queremos jantar à luz de velas de segunda a domingo, queremos sexo selvagem e diário, queremos ser felizes assim e não de outro jeito. É o que dá ver tanta televisão.
Simplesmente esquecemos de tentar ser felizes de uma forma mais realista. Ter um parceiro constante, pode ou não, ser sinônimo de felicidade. Você pode ser feliz solteiro, feliz com uns romances ocasionais, feliz com um parceiro, feliz sem nenhum. Não existe amor minúsculo, principalmente quando se trata de amor-próprio.
Dinheiro é uma benção. Quem tem, precisa aproveitá-lo, gastá-lo,usufruí-lo. Não perder tempo juntando, juntando, juntando. Apenas o suficiente para se sentir seguro, mas não aprisionado. E se a gente tem pouco, é com este pouco que vai tentar segurar a onda, buscando coisas que saiam de graça, como um pouco de humor, um pouco de fé e um pouco de criatividade.
Ser feliz de uma forma realista é fazer o possível e aceitar o improvável. Fazer exercícios sem almejar passarelas, trabalhar sem almejar o estrelato, amar sem almejar o eterno. Olhe para o relógio: hora de acordar. É importante pensar-se ao extremo, buscar lá dentro o que nos mobiliza, instiga e conduz mas sem exigir-se desumanamente. A vida não é um jogo onde só quem testa seus limites é que leva o prêmio. Não sejamos vítimas ingênuas desta tal competitividade.
Se a meta está alta demais, reduza-a. Se você não está de acordo com as regras, demita-se.
Invente seu próprio jogo. Faça o que for necessário para ser feliz. Mas não se esqueça que a felicidade é um sentimento simples, você pode encontrá-la e deixá-la ir embora por não perceber sua simplicidade. Ela transmite paz e não sentimentos fortes, que nos atormenta e provoca inquietude no nosso coração. Isso pode ser alegria, paixão, entusiasmo, mas não felicidade.


Martha Medeiros

poema




eu hoje tive um pesadelo
e levantei atento, a tempo
eu acordei com medo
e procurei no escuro
alguém com o seu carinho
e lembrei de um tempo

porque o passado me traz uma lembrança
do tempo que eu era ainda criança
e o medo era motivo de choro
desculpa pra um abraço ou consolo


hoje eu acordei com medo
mas não chorei, nem reclamei abrigo
do escuro, eu via o infinito
sem presente, passado ou futuro
senti um abraço forte, já não era medo
era uma coisa sua que ficou em mim
e que não tem fim

de repente, a gente vê que perdeu
ou está perdendo alguma coisa
morna e ingênua que vai ficando no caminho
que é escuro e frio, mas também bonito porque é iluminado
pela beleza do que aconteceu há minutos atrás...

Cazuza




17 junho 2009

a torre e as ilhas

faço aqui menos que um desabafo. isso que faço agora é apenas um lamento. sem platéia e sem público, quero apenas tirar de dentro de mim a dor que não sufoca, mas mata lenta e dolorosamente e eu não quero morrer naturalmente, como as lagartas que se fecham em seus casulos e esperam o tempo certo para se transformarem. quero mesmo morrer como as borboletas suicidas que se deixam levar pelo vento e se perdem dos seus e se chocam contra tudo à sua frente.
lembro de você dizer da contradição de não haver diálogo num meio em que ele se fazia fundamental. você lamentava como alguém disposto a iniciar esse diálogo, como alguém que não se recusaria a estabelecê-lo, caso acontecesse. mas e agora? você na sua torre não nota as ilhas ao redor. fica cega à própria realidade. o que acontece quando o ideal se aproxima? você se nega a pegá-lo, a agarrá-lo e deixa as ilhas perdidas na iminência do desaparecimento. de vez em quando você desce da sua torre e observa os acontecimentos: só você sofre, só você chora, só você enxerga o melhor e o melhor é sempre pra você, a razão é sempre a sua e você sempre se fecha para a pluralidade de sentimentos, para a fonte de subjetividade que é o outro, que são os outros que não são (nem nunca serão) iguais a você.
você é seca e seca tudo a sua volta, imprime em cada um que cruza seu caminho a aridez típica da terra que te pariu. é conhecedora de outros mundos, mas vive num mundo de trevas, onde portas e janelas são fechadas à luz natural do dia. acostumou-se com um dia cinza, pintado às pressas com a tinta alheia: sua única maneira de ser feliz.
você fala de felicidade, mas como a habitante solitária de uma torre de vidro pode saber o que é felicidade? se nunca viu outra pessoa feliz, se as paredes espelhadas da sua torre mostram apenas um rosto pálido, sem brilho. um rosto sem expressão, uma boca que não mostra sorrisos nem solta palavras que não sejam de reprovação e insatisfação?
enquanto isso, as ilhas bóiam sob o olhar desatento, desorientador de uma torre de vidro prestes a ruir.

12 junho 2009

a saudade

A saudade é um trem de metrô:
subterrâneo
obscuro
escuro
claro é um trem de metrô.
a saudade é feito parafuso
quanto mais aperta
tanto mais difícil arrancar.
a saudade é um filme sem cor
que meu coração quer ver colorido...

música do Baleiro para Ana...

o impossível carinho

Escuta, eu não quero contar-te o meu desejo
Quero apenas contar-te a minha ternura
Ah se em troca de tanta felicidade que me dás
Eu te pudesse repor
- Eu soubesse repor -
No coração despedaçado
As mais puras alegrias de tua infância!

Manuel Bandeira

especial dia dos namorados :)

06 junho 2009

03 junho 2009

sobre o parnahyba, o sol e a cajuína cristalina em therezina

por she

sobre o céu

por she

"voltei a cantar porque senti saudade..."

cortei o cabelo, Ana. bem curto. acho que você não lembra (foi tão rápido aquele nosso olhar...), mas eu tinha longos cabelos cacheados. um dia me contaram uma lenda indígena que me explicava o motivo das mulheres manterem os cabelos tão longos: os fios formavam uma teia que encantava e prendia o homem amado. por isso mantinha o meu bem longo e bem firme. mas um dia cortei aquelas mechas imensas que sugavam minha energia, minha beleza, meu viço. foi doloroso ver toda aquela vida no chão, a mão de outra pessoa matando aquilo que era tão meu. mas aí senti a leveza do pescoço nu, dos ombros limpos. o medo de perder tinha ido embora junto com as madeichas. eu era livre, enfim... e meu amor também.

01 novembro 2008