"o resto é mar. é tudo o que eu não sei contar..."

20 março 2010

p/ E.

o vento forte, as nuvens carregadas do fim da tarde de hoje, suas mãos, meus olhos... ainda estou aqui onde você me deixou. quero me deixar absorver pelas suas doces palavras, por seus olhos que mentem tão doce e naturalmente. mas não mentem por mal, eles também se enganam. quero, mais que minha própria redenção, salvar o que resta de nós dentro de mim. quero, ainda mais que tudo, renascer nosso mundo em mim.
mas me vêm outros mitos antigos, novas velhas dores e paro ao som de qualquer palavra que lembre as cores que pintamos juntos no muro do quintal da nossa casa. aquelas cores desbotadas, feitas de sonhos afogados em lágrimas, asfixados pela fumaça do seu cigarro fumado às escondidas... aquelas cores não povoam mais nosso quintal que já não é mais nosso. aquelas cores se foram. o branco tomou conta da atmosfera opaca que se instalou quando você se foi. chorei duas noites, o resto dos dias escoavam entre meus pés e amanheciam, simplesmente.
enquanto esperava, senti o mesmo gosto das nossas primeiras vezes. experimentei nossa antiga felicidade e, por um momento, pensei que pudéssemos pintar novamente as mesmas cores no muro do quintal. mas você chegou. me contou os túneis e abismos pelos quais passou, tudo era tão eu... percebi então que não poderíamos mais pintar as mesmas cores, nem habitar a mesma casa, o mesmo quintal.
se a volta for a solução, que seja à base de novas cores e novos lugares a habitar. se for para sermos felizes como nunca fomos, teremos que ser outros. teremos que arrancar nossos olhos e mãos e deixar que nasçam, da ferida exposta, novas cores, novos gestos. outra vida.