"o resto é mar. é tudo o que eu não sei contar..."

27 novembro 2010

minha canção



Ela vinha sem muita conversa. Beijava como se nunca. Beijava e me deixava sem saber mais de mim. E olhava. Olhava minha boca, meus olhos, pescoço, cabelo e eu perguntava o que foi e ela erguia as sobrancelhas, esboçando o sorriso dos olhos. Pegava minhas mãos, tocava minhas unhas, media meus calos e comparava aos seus. Ela olhava mais, como se não conseguisse dizer nada sobre o que estava sentindo, como se o coração fosse os olhos e olhar fosse amar.

Eu queria ler os pensamentos dela, adentrar no canto do olho e me ler no reflexo negro de suas pupilas. Às vezes, quando olhava fixamente para o nada, a obsessão me invadia a alma e me tomava de fúria disfarçada com a voz branda, esgarçada de dor, quando perguntava o que ela pensava e me respondia umas palavras tolas, não era nada, e eu sabia que era algo sim.

Ela tinha o péssimo hábito de quebrar minha expectativa. Enquanto eu confessava meus botões, ela vinha com umas palavras novas, com músicas novas e até sobre meu nome ela especulava. Ela me distraía e eu só soube quando ela me disse.

Eu sonhava com noites e dias de perdição, contrariando minha orientação cristã, e ela me mostrava e escondia, me dava e tomava de minhas mãos, acordava e sacudia o pequeno demônio que eu relutava em matar, esconder, esquecer e que morava em meu peito e se espalhava por meus braços e mãos ao agarrá-la.

Ela teimava, não me dizia o que eu queria ouvir. Ela só confessava a loucura de nossas vidas quando eu, enlouquecido, gritava e pedia que ela também gritasse, desvairada. Eu pedia pra ela descer do muro e ela só me olhava, feito felina acuada, enfurecidamente domesticada, precisando do conforto dos meus braços, sem querer confessar.

Fiz uma música sem refrão, sem rimas ricas, acompanhado pelo violão. Eu, compositor bissexto, me animava com a inspiração e fazia imitações de músicas que já existiram e era êmulo de minha própria criação. Eu,perfeccionista e entendedor de tudo, vocação de professor, errava e mostrava meu erro quantas vezes ela pedisse. Mas ela não pedia.

Ela mentia, dizia do cansaço, repetia nãos com o peito ecoando sins, desconversava, olhava e nada dizia, só pra me ouvir insistir depois de tantas recusas. Por que eu sabia que ela me queria, embora ela não desse ouvidos à minha canção que pedia que ela ficasse comigo. Só comigo.

2 comentários:

Edu disse...

Jogo de mulher fascina mas não por muito tempo, é envolvente até certo ponto,depois a gente percebe o que ela não é, e o não ser está ligado àquilo que não estava no jogo. É só uma dica.

s. disse...

Obrigada pela dica, Edu.
Agora já sei tudo o que preciso saber sobre os homens.
Nem sei como sobrevivi esse tempo todo sem saber disso.